“Basta eu acordar”, diz Foucault, “que não posso escapar deste lugar (…)”. Espaço e lugar. Eis o corpo. Ele, corpo, me coloca no meu devido lugar. Utopia é o não-lugar ou o lugar-nenhum. E se falo de corpo utópico, necessariamente falo de corpo em associação a lugar e espaço. Mas, Foucault faz isso para lembrar que “o corpo está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar”. Desse modo, ele não pode estar no não-lugar ou no lugar-nenhum. Por isso, ele afirma em seguida que “meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo”. “Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado”, insiste Foucault. Corpo é lugar e por isso mesmo não é utopia. Essa é a tese do texto.
A pergunta de Foucault é capciosa: “e nessa cabeça, como acontecem as coisas?” Ou seja, dentro da cabeça acontecem coisas, há ali um lugar, mas é um lugar estranho, pois as coisas entram na cabeça e vão ao cérebro, mas, ao mesmo tempo, essas coisas reais ficam de fora, sei que elas entraram e ficaram de fora ao mesmo tempo. Foucault não utiliza aqui a palavra pensamento, exatamente para não forçar o leitor a entrar por vocabulários dicotômicos, caracteristicamente metafísicos. Mas, se quisermos ilustrar, devemos lembrar que Hannah perguntou “onde estamos quando estamos pensando?”.
O não-lugar ganha lugar que, enfim, é o corpo. O corpo já não é a anti-utopia. É sim a anti-utopia, mas convivendo com a utopia uma vez que se mostra ponto de partida e chegada de utopias, talvez de todas as utopias.
No caso do espelho há o fantástico fenômeno de se estar onde o corpo não está. O espelho recolhe o corpo, mostra-o, mas lá no espelho não estou. Não posso ter essa vivência de me mostrar a mim, como no espelho, senão com o espelho. No cadáver lá está o corpo, mas também nesse caso, não estou. A experiência de estar ali no cadáver não ocorre. Nesses dois casos, o lugar-nenhum efetivamente se põe como lugar, pois depende do corpo que, enfim, é lugar.
Assim, Foucault mostra que “para que eu seja utopia, basta que seja um corpo”. Isso o faz transitar para os poderes utópicos do corpo. Surge o corpo como um “grande ator utópico”. A máscara ou a tatuagem ou os adornos e a vestimenta jogam o corpo, por ele mesmo, para outros lugares, inclusive para o lugar-nenhum. “O enfeite coloca o corpo num outro espaço”. “Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir”.
Mas Foucault não fica na dualidade da tese e da antítese. Ele busca uma síntese que, hegelianamente falando, não encerra os momentos de tese e antítese. Essa síntese é espantosa e bela. Trata-se do amor. Ele mostra que pelos dedos do outro, lábios do outro e olhar do outro, o corpo vai sendo constituído, vai se fazendo presente, e ao mesmo tempo abrigando nele próprio o lugar-nenhum. O olho se fecha e não é o espelho que está mostrando a pálpebra que não podemos ver, mas é um outro olho, que funciona como um eu ou em um eu, que dá garantias de como que a pálpebra é quando se fecha. Também uma boca que serve para abrir e falar, repentinamente tem, então, um reconhecimento dos lábios na medida do toque do lábio do outro. O morrer do amor, que é gozo, faz a experiência do cadáver, que parecia não se poder ter, surgir sem que se morra. O lugar-nenhum do cadáver se faz presente no corpo, que é um lugar. Foucault termina dizendo que o amor é tão bom, que gostamos tanto dele, porque ele faz a utopia do que vai à cabeça, no espelho e no cadáver poderem se fazer, exatamente no aqui do corpo. O amor faz o corpo, enquanto não utopia, trazer para si a utopia. Eis a síntese, exatamente no último parágrafo.
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