Categories: Literatura

Manoel de Barros por Manoel de Barros

“O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. (…) O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância.”  Manoel de Barros em entrevista “caminhando para as origens”, a Bosco Martins, 2007.
“Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do
ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade
do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não
pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem.
Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho
para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de
peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra
era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um
serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma
infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais
comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz
comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e
suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago
das minhas raízes crianceiras a visão comungante e
oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro
me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que
eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem
de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde
havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era
o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino
e o rio. Era o menino e as árvores”. Manoel de Barros

Em “Meu quintal é maior do que o mundo” [Antologia]. São Paulo: Alfaguara Brasil, 2015, p. 15.
Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

Sem acessibilidade para denunciar, o Estado se torna cúmplice da violência sofrida por mulheres com deficiência

Certas existências a história registra como extraordinárias, transformando-as em pontos de admiração da humanidade. Outras,…

3 semanas ago

Grupos antivacinas devem perder o direito de ter filhos – Com Leandro Karnal

O professor Leandro Karnal em  entrevista ao Poucas, falou sobre as negações de grupos de…

1 mês ago

Uma pessoa não prospera com um cérebro em ameaça constante: ela apenas sobrevive

Uma pessoa não prospera com um cérebro em ameaça constante. Ela apenas sobrevive. Se olharmos…

1 mês ago

Agosto Lilás: Em que Lugar do Mundo uma Mulher está Realmente Segura?

Em que Lugar do Mundo uma Mulher está Realmente Segura? A formulação dessa indagação carrega,…

1 mês ago

AGOSTO LILÁS: O autoextermínio entre as mulheres vítimas de violência doméstica

"Você sabia que os feminicídios e os suicídios representam 83% da causa de morte entre…

1 mês ago

Tire o Tablet e o Celular do seu Filho e dê a ele um Instrumento Musical – Alvaro Bilbao

O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao, especialista em desenvolvimento cerebral infantil e autor do livro "O…

1 mês ago