Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do
ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade
do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não
pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem.
Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho
para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de
peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra
era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um
serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma
infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais
comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz
comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e
suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago
das minhas raízes crianceiras a visão comungante e
oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro
me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que
eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem
de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde
havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era
o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino
e o rio. Era o menino e as árvores”. Manoel de Barros
Poucas experiências sensoriais são tão imediatas quanto o olfato. Em segundos, um perfume pode nos…
Dizem os mais velhos que os jovens são o futuro. Mas talvez o Chorão estivesse…
No Brasil, ser mulher, negra, periférica e atravessar a vida carregando o peso de expectativas…
Vivemos uma época em que a educação costuma ser medida pelo desempenho escolar, pelas competências…
Durante muito tempo, o imaginário romântico brasileiro foi alimentado por histórias em que duas pessoas…
Maria Mies (1931–2023) foi socióloga, feminista materialista e ativista, uma das vozes mais instigantes do…