Pais e Filhos

Não é possível educar sem traumatizar: a criança deve aprender que tomada dá choque se ela colocar o dedo

“Há uma consequência permanente na educação, que é a vaidade infantil. As crianças eram educadas para se tornarem adultos e, para isso, se incentivava a punição, já que havia uma crença generalizada de que criança é como chantilly: quanto mais batesse, mais cresceria. As crianças deveriam reprimir sua vaidade, seu gênio, sua violência, sua indisposição… para que se tornassem adultos sociáveis. E hoje não é mais possível bater, inclusive do ponto de vista legal.

A criança não pode mais ser traumatizada. Só adultos, pais e professores podem. Não me refiro aqui a uma defesa absurda da necessidade de violência física, contra a qual eu sou absolutamente inimigo declarado (seja qual for, inclusive contra crianças), mas ao fato de se supor que é possível educar sem traumatizar, quando nos lembra Freud, que cultura é repressão e para educar, eu tenho que traumatizar. Eu vou ter que aprender que tomada dá choque, ao colocar o dedo na tomada.

A criança não pode mais ser traumatizada a tal ponto, que em algumas escolas de São Paulo, eu acompanhei, ao se fazer um campeonato de futebol, de basquete… se dá a medalha para todos os lugares, do primeiro ao último. Para não traumatizar. Então aquele que ficou em 20º lugar, talvez por não ter se esforçado ou não jogou nada, ou até faltou, ganhou uma medalha para levar para casa, porque se não, traumatiza. Nós estamos educando pessoas com pouco limite, para entenderem sua vaidade e o espaço do outro”.

Transcrição da fala do professor Leandro Karnal. O que você acha? Dê a sua opinião. (Vídeo abaixo do comercial)

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

A vida não deixa de merecer cuidado quando a possibilidade de cura termina

Há uma frase que costuma soar como sentença: “não há mais nada a fazer”. Ela…

4 dias ago

Quanto mais abertamente uma cultura abraça a morte, menos ansiedade se associa a ela

“Do ponto de vista antropológico, quanto mais abertamente uma cultura abraça a morte, menos ansiedade…

4 dias ago

Lei de Alienação Parental: “Na prática, a criança é o sujeito menos pensado nos conflitos existentes”

A Lei nº 12.318/2010, conhecida como Lei da Alienação Parental, foi criada com a justificativa…

1 semana ago

O que faremos com nossas diferenças depois das eleições?

A apuração termina, os números são anunciados, uma parcela do país comemora e outra precisa…

1 semana ago

Neurobiologia do autoengano: o cérebro não interpreta a realidade apenas, ele também a constrói

Pare por um instante. Preste atenção na sua respiração agora e nessa calma fingida da…

2 semanas ago

Eu ainda sou aquela criança que brincava na poça d’água como se navegasse num oceano

Eu estou sempre perdendo coisas. Quando eu preciso de caneta, não sei o que me…

3 semanas ago