Nos confins da era digital, vivemos uma experiência curiosa: por um lado, o mundo se expandiu, as conexões se multiplicaram, o acesso ao conhecimento tornou-se quase instantâneo; por outro, paira a sensação de que nosso “piloto automático” interior se ativou, diminuindo nossos espaços de silêncio, reflexão e pensamento profundo.
A pergunta que ecoa, então, é a seguinte: será que o uso massivo das telas e da tecnologia está, efetivamente, nos tornando “menos inteligentes”, ou ao menos mais preguiçosos?
Para responder isso precisamos nos conhecer profundamente a partir das fusão entre ciência, ambiente e cultura.
Nas últimas décadas do século XX, diversos estudos indicaram que ganhos médios de QI (quociente de inteligência) foram observados em muitos países — em torno de 2 a 3 pontos por década foram relatados. As causas apontadas incluíam melhoria nutricional, maior escolarização, ambientes mais estimulantes e complexos. Essa tendência ficou conhecida como “efeito Flynn” (James R. Flynn).
Mais recentemente, estudos em países como os Estados Unidos mostram que a tendência de elevação dos escores de QI mudou de direção no início do século XXI. Por exemplo, entre 2006 e 2018 os escores em três de quatro domínios cognitivos caíram em amostras norte-americanas. Ainda que a inteligência como “potencial” não esteja necessariamente diminuindo, há uma queda nos resultados padronizados — o que exige cautela na interpretação.
Paralelamente, o mundo digital investigado por psicologia e neurociência revela que o uso recorrente e intenso de telas pode estar associado a:
Poderíamos dizer que a tela funciona como uma espécie de objeto transicional (como Donald Winnicott descreve) que promete consolidação e presença, mas muitas vezes entrega distração e fragmentação.
O sujeito-tela torna-se espectador de si mesmo, menos ativo na elaboração simbólica, mais passivo no consumo — e o pensar profundo (o espaço interno de associação livre, de reflexão, de silêncio psíquico) sofre.
O professor Mario Sergio Cortella costuma dizer que todas essas facilidades tecnológicas estão nos deixando vagabundos. Quando ele fala em “vagabundos”, está apontando para o sujeito que recusa tomar as rédeas do próprio pensamento do que para um juízo moral simplista. E aqui entra o desafio: se a tecnologia ocupa o palco central da atenção, o sujeito abdica da cena de sua própria vida.
Isso não significa necessariamente que se torna “estúpido” no sentido clínico ou científico, mas sim que descuida o ato de pensar, de aprofundar, de gravar sentido e isso pode parecer estupidez ou preguiça.
A ciência parece apoiar que o excesso de estímulos digitais – cutucadas constantes, multitarefa, recompensa rápida – pode comprometer funções como atenção sustentada, velocidade de processamento, memória de trabalho.
Quando o “mundo externo” dita o ritmo, o “mundo interno” do sujeito fica em segundo plano; o pensamento se esgota em reações, não em reflexões.
Dessa forma, o declínio não se dá tanto no “fabricante” (o cérebro/hardware) quanto no “uso” (software da mente): a inteligência em potencial permanece, mas não é acionada no seu modo pleno.
Concluindo: não podemos afirmar que as pessoas estejam se tornando “burros” no sentido tradicional ou irreversível. Mas podemos afirmar, com respaldo científico e psicanalítico, que há risco de nos tornarmos preguiçosos no pensar, fracos na atenção, adversários de nossa própria profundidade psíquica.
Se o sujeito abdica da reflexão, se a cultura o convida ao consumo imediato, se as telas roubam o espaço do silêncio interno, então sim: acabamos por deixar nosso intelecto em “modo de espera”, o que pode parecer estupidez para quem valoriza o pensamento.
O convite é: recuperar o lugar de sujeito no próprio processo cognitivo. Usar a tecnologia com consciência, reservar tempos para a atenção profunda, cultivar o vazio produtivo e o questionamento incessante.
Lembre-se, o adversário não é a tecnologia, mas a desatenção deliberada: o abandono de si em favor do estímulo fácil.
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