Psicologia e Comportamento

A ciência investiga: estamos aprendendo a envelhecer ou apenas a mascarar a velhice?

Nunca se falou tanto sobre envelhecimento. Revistas, programas de televisão, influenciadores digitais e campanhas de saúde repetem uma mesma mensagem: é possível envelhecer com vitalidade, autonomia e qualidade de vida.

A proposta parece positiva. E, em muitos aspectos, realmente é. Os avanços da medicina, da nutrição, da atividade física, da prevenção de doenças e das condições sanitárias permitiram que a humanidade alcançasse uma longevidade sem precedentes. A expectativa de vida aumentou de forma significativa em praticamente todo o mundo. Pessoas que, há poucas décadas, dificilmente chegariam aos 80 anos hoje permanecem ativas, independentes e socialmente engajadas.

Recentemente, a revista Veja dedicou uma reportagem ao fenômeno dos chamados “super idosos”, pessoas que ultrapassam os 80 anos mantendo autonomia física, cognitiva e social. O texto apresenta histórias inspiradoras e destaca fatores associados a uma velhice mais saudável, como atividade física regular, alimentação equilibrada, vínculos sociais e acesso à saúde.

Nada disso está errado. A questão é outra. O que acontece quando o envelhecimento saudável deixa de ser uma possibilidade e passa a ser uma nova obrigação? Uma velhice  aceita desde que não pareça velhice.

Durante séculos, a velhice foi associada à decadência, à improdutividade e à exclusão social. Hoje, aparentemente, passamos a valorizá-la.

Mas talvez essa valorização venha acompanhada de uma condição. A velhice é aceita desde que continue parecendo juventude. Celebramos o idoso atleta, o viajante incansável, o empreendedor, o dançarino, o maratonista. Admiramos aqueles que desafiam os limites da idade. Entretanto, pouco espaço é dado para quem envelhece de maneira comum, convivendo com limitações, doenças crônicas, perdas e fragilidades.

Sem perceber, corremos o risco de criar uma nova forma de preconceito. Se antes a sociedade discriminava por ser velho, agora pode começar a discriminar por não ser um “velho extraordinário”.

O problema do envelhecimento bem-sucedido

A própria ciência vem questionando algumas ideias que ajudou a construir.

Durante décadas, pesquisadores utilizaram o conceito de “envelhecimento bem-sucedido” para descrever pessoas que chegavam à velhice mantendo boa saúde física, independência funcional e desempenho cognitivo preservado.

O conceito foi importante porque deslocou o olhar da doença para a qualidade de vida.

Entretanto, pesquisadores mais recentes têm apontado suas limitações. Uma ampla revisão científica publicada em 2024 encontrou uma prevalência global de aproximadamente 24% de pessoas que atendem aos critérios clássicos de envelhecimento bem-sucedido.

Isso significa que a maioria dos idosos não se encaixa nesse modelo. A pergunta torna-se inevitável: será razoável definir sucesso de uma forma que exclua a maior parte das pessoas?

Diversos pesquisadores têm argumentado que envelhecer bem não pode significar apenas ausência de doenças ou manutenção de capacidades físicas. A experiência humana é muito mais complexa.

Existem idosos que convivem com doenças crônicas e, ainda assim, preservam vínculos afetivos profundos, capacidade de adaptação, senso de propósito e satisfação com a vida. Seriam eles menos bem-sucedidos?

O que a Organização Mundial da Saúde propõe

Nas últimas décadas, a Organização Mundial da Saúde passou a defender uma compreensão mais ampla do envelhecimento. Segundo a OMS, envelhecer de forma saudável não significa necessariamente permanecer livre de doenças.

O conceito central passa a ser a capacidade funcional. Em outras palavras, importa menos quantas limitações uma pessoa possui e mais o quanto ela consegue continuar sendo quem é e realizando aquilo que considera significativo.

Essa perspectiva reconhece que envelhecer envolve diversidade. Algumas pessoas chegam aos 80 anos com capacidades semelhantes às de indivíduos muito mais jovens. Outras necessitam de apoio para atividades básicas. Ambas fazem parte da realidade do envelhecimento humano. Não existe uma única forma correta de envelhecer.

A dimensão existencial da velhice

Talvez a maior contribuição para compreender o envelhecimento não venha da medicina, mas da filosofia. Envelhecer é acumular tempo. E acumular tempo implica também acumular perdas. Perde-se velocidade, força, pessoas amadas, versões antigas de si mesmo…

Nenhum protocolo de longevidade é capaz de eliminar completamente essas experiências. A cultura contemporânea frequentemente apresenta o envelhecimento como um problema técnico a ser resolvido. Como se cada ruga, cada limitação e cada fragilidade fossem defeitos passíveis de correção. Mas talvez exista uma diferença importante entre cuidar da vida e declarar guerra ao tempo. Cuidar da vida é um ato de amor.

Declarar guerra ao envelhecimento pode transformar a própria existência em uma luta impossível de vencer.

O direito de envelhecer

A busca por saúde merece ser valorizada. Praticar exercícios, alimentar-se adequadamente, cultivar relações significativas e cuidar da saúde mental são atitudes que ampliam as possibilidades de uma vida mais longa e mais plena.

Mas é preciso cuidado para que a longevidade não se transforme em uma nova tirania. Nem todos serão super idosos; correrão maratonas aos 85 anos ou manterão a mesma vitalidade física ou cognitiva… E isso não significa fracasso.

Talvez uma das formas mais humanas de envelhecer seja justamente aceitar que a vida não é uma competição contra o relógio. A velhice não é uma doença. É uma etapa da existência. E etapas não precisam ser vencidas. Precisam ser vividas.

Com Elizabete Ávila, psicóloga clínica, especialista em saúde mental, dependência química e qualidade de vida da pessoa idosa.

Observação editorial: a literatura científica ainda não possui consenso sobre uma definição única de “envelhecimento bem-sucedido”. Nas últimas décadas, observa-se uma tendência crescente de substituir modelos centrados apenas na ausência de doença por abordagens que valorizam adaptação, autonomia, vínculos sociais, propósito de vida e capacidade funcional.

FONTES PESQUISADAS:

• Matéria da revista VEJA sobre os “super idosos”: A era dos superidosos: a revolução silenciosa de uma geração que viverá cada vez mais e melhor (VEJA) – https://veja.abril.com.br/saude/a-era-dos-superidosos-a-revolucao-silenciosa-de-uma-geracao-que-vivera-cada-vez-mais-e-melhor/

• Organização Mundial da Saúde (OMS) – Conceito de envelhecimento saudável: [WHO – Ageing](https://www.who.int/health-topics/ageing)

• Organização Mundial da Saúde – Functional Ability and Healthy Ageing: WHO – Healthy ageing and functional ability  | https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/healthy-ageing-and-functional-ability

• Beard JR et al. The World Health Organization (WHO) approach to healthy ageing: Artigo científico (PubMed Central) | https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7250103/

• Revisão sistemática e metanálise sobre prevalência de envelhecimento bem-sucedido (2024): Prevalence of successful aging in older adults: A systematic review and meta-analysis |https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0167494324002802

 

 

Elizabete Ávila

Elizabete Ávila é psicóloga, especialista em saúde mental, dependência química e prevenção ao suicídio na velhice. É vice-presidente do Instituto de Pesquisas Arthur Miranda em prevenção à drogadição, aos transtornos mentais e ao suicídio e colunista de psicologia e comportamento no Portal Raízes

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