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Não quero ser rainha, quero ser rei. Não quero apenas obedecer as leis, mas também criá-las

“Não quero ser rainha, quero ser rei. Não quero apenas obedecer as leis, mas também criá-las”. Essa paráfrase apócrifa, à primeira vista, pode soar provocativa. Alguns a interpretarão como uma rejeição da feminilidade. Outros a considerarão uma disputa simbólica entre homens e mulheres. Talvez ambos estejam enganados.

A força dessa afirmação não está no desejo de ocupar o lugar de alguém. Está no desejo de participar da construção do mundo.

Durante séculos, as mulheres foram autorizadas a existir em espaços cuidadosamente delimitados. Podiam educar reis, aconselhar reis, inspirar reis, amar reis, gerar reis. Mas raramente lhes era permitido tornar-se sujeito da História.

A rainha, em muitas sociedades, foi um símbolo de prestígio. O rei, por sua vez, tornou-se o símbolo daquele que decide. É ele quem sanciona leis, conduz negociações, estabelece alianças, define prioridades e determina os rumos de uma nação.

Por isso, quando uma mulher afirma que deseja ser rei, ela não reivindica uma coroa. Reivindica participação.

Não quer apenas obedecer às regras.Quer ajudar a escrevê-las. Em um ano eleitoral, essa reflexão torna-se ainda mais necessária.

Afinal, quem decide quais escolas serão construídas? Quem define políticas públicas para a saúde? Quem escolhe prioridades orçamentárias? Quem determina o destino dos recursos públicos?

As leis não surgem espontaneamente. São criadas por pessoas. E quando metade da população permanece sub-representada nos espaços onde essas decisões são tomadas, a democracia torna-se incompleta.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante: Quando falamos sobre participação feminina, estamos falando de quais mulheres?

Durante muito tempo, a luta por representação concentrou-se na abertura das portas. Hoje, um novo desafio se apresenta: compreender quem continua do lado de fora mesmo depois que as portas aparentemente foram abertas.

Porque não existe “a mulher”. Existem as mulheres: as negras, as indígenas, com deficiência, as trans, as periféricas, as camponesas, as acadêmicas, as trabalhadoras, as conservadoras, as progressistas…

Mulheres cujas experiências de vida são profundamente diferentes entre si. Essa pluralidade não é um detalhe sociológico.

Ela é uma necessidade democrática. Quando determinados grupos permanecem ausentes dos espaços de decisão, não são apenas pessoas que ficam de fora.

São experiências, perspectivas… São problemas concretos que deixam de ser percebidos; são soluções que deixam de ser imaginadas.

A história da humanidade é também a história dessas ausências. E poucas ausências foram tão sistematicamente construídas quanto a das mulheres.

A longa história do apagamento feminino

A história humana foi escrita majoritariamente por homens e, durante muito tempo, para homens.

Isso não significa que as mulheres não participaram dos grandes acontecimentos da civilização. Significa que frequentemente elas foram retiradas da narrativa.

A invisibilidade feminina não nasceu da falta de protagonismo. Nasceu da falta de reconhecimento.

Em muitos casos, mulheres participaram diretamente de descobertas científicas, movimentos políticos, revoluções culturais e transformações sociais. No entanto, seus nomes desapareceram dos registros oficiais ou foram reduzidos a notas de rodapé. Na ciência, esse fenômeno ficou conhecido como Efeito Matilda.

  • A física Lise Meitner participou decisivamente da descoberta da fissão nuclear.
  • Rosalind Franklin produziu imagens fundamentais para a compreensão da estrutura do DNA.
  • Nettie Stevens identificou o papel dos cromossomos sexuais.
  • Katherine Johnson realizou cálculos indispensáveis para o programa espacial norte-americano.

O problema nunca foi a ausência de inteligência, mas de reconhecimento. E o apagamento feminino não ocorreu apenas na ciência. Transcendeu a política, a literatura, as artes, a filosofia e até mesmo a construção das nações.

O Brasil oferece exemplos emblemáticos dessa realidade. Durante décadas, aprendemos a Independência do Brasil como a história de um único homem montado em um cavalo às margens do Ipiranga.

Mas a realidade histórica é mais complexa. Enquanto Dom Pedro encontrava-se em viagem, foi Maria Leopoldina quem presidiu reuniões decisivas do Conselho de Estado e assinou documentos fundamentais para o processo que culminaria na independência.

Durante muito tempo, sua atuação foi reduzida à condição de esposa do imperador.

A História celebrou o protagonista. A política esqueceu a estrategista. Outro exemplo ainda mais simbólico é Maria Quitéria. Para lutar pela independência do país, precisou vestir-se de homem. Precisou ocultar sua identidade para ocupar um espaço que lhe era negado.

Poucas histórias dialogam tão profundamente com o tema deste artigo. Maria Quitéria não queria ser rainha. Precisou tornar-se, aos olhos de seu tempo, um rei.

Não porque desejasse ser homem. Mas porque a sociedade havia decretado que apenas homens poderiam participar daquela esfera de poder. Séculos depois, a pergunta continua ecoando: Quantas mulheres ainda precisam vestir armaduras simbólicas para serem levadas a sério?

As mulheres que desafiaram o silêncio

Apesar dos mecanismos de exclusão, inúmeras mulheres recusaram o papel de espectadoras da própria história.

Elas surgem em épocas diferentes, continentes diferentes e contextos completamente distintos. Algumas empunharam livros. Outras empunharam bandeiras. Algumas lideraram exércitos. Outras transformaram a escrita, a ciência ou a política.

O que as une não é a profissão, a nacionalidade ou a ideologia, e sim, a coragem de abrir portas que lhes haviam sido fechadas.

Na Antiguidade, Hipátia de Alexandria ensinava matemática, filosofia e astronomia em uma época em que o conhecimento era praticamente monopolizado pelos homens.

No século XV, Joana d’Arc assumiu a liderança militar de tropas francesas e alterou o rumo da Guerra dos Cem Anos.

No século XVIII, Mary Wollstonecraft publicou uma obra revolucionária ao defender que mulheres não eram naturalmente inferiores aos homens. Eram, na verdade, privadas das mesmas oportunidades educacionais.

No Brasil do século XIX, Nísia Floresta tornou-se uma das pioneiras da educação feminina e da defesa dos direitos das mulheres na América Latina.

No século XX, Marie Curie conquistou dois Prêmios Nobel e demonstrou que a excelência científica não possui gênero.

Mas talvez o aspecto mais interessante dessa trajetória seja perceber que nem todas essas mulheres lutaram pelas mesmas causas.

Nem todas pensavam igual, pertenciam à mesma classe social ou compartilhavam a mesma visão de mundo. Ainda assim, cada uma contribuiu para ampliar os limites do possível.

Porque a história do protagonismo feminino não é a história de um único movimento. É a história de milhares de mulheres que ousaram existir para além das expectativas de seu tempo.

No Brasil, essa diversidade torna-se ainda mais evidente. Bertha Lutz foi decisiva na conquista do voto feminino. Carolina Maria de Jesus transformou sua experiência na favela em uma das obras mais importantes da literatura brasileira.

Conceição Evaristo mostrou que a experiência da mulher negra brasileira não era um tema periférico, mas parte fundamental da compreensão do país.

Benedita da Silva rompeu barreiras históricas ao tornar-se uma das mulheres negras mais importantes da política nacional.

Sonia Guajajara levou para o centro do debate público questões historicamente invisibilizadas relacionadas aos povos indígenas.

Cada uma dessas mulheres ampliou não apenas a própria voz. Ampliou o repertório democrático da sociedade brasileira.

Não basta haver mulher na política. É preciso haver diferentes mulheres

Durante décadas, a luta pela participação feminina concentrou-se em uma reivindicação legítima: aumentar o número de mulheres nos espaços de poder.

Essa luta continua necessária. Mas o século XXI trouxe uma pergunta nova. Quando falamos em representação feminina, estamos representando quem?

  • Uma mulher branca de classe média que vive em um grande centro urbano não experimenta a sociedade da mesma forma que uma mulher indígena;
  • Uma mulher com deficiência não enfrenta os mesmos obstáculos que uma mulher sem deficiência;
  • Uma mulher negra da periferia não possui as mesmas experiências que uma empresária de uma grande capital;
  • Uma advogada trans não é tem suas qualificações intelectuais validadas da mesma forma que uma advogada cis;
  • Uma administradora de empresas não tem as mesmas dificuldades que uma camponesa tem para entrar no mercado.

E é justamente por isso que a diversidade importa. Não porque determinados grupos sejam moralmente superiores.

Não porque determinadas identidades garantam automaticamente melhores decisões. Mas porque experiências diferentes produzem percepções diferentes da realidade. Uma democracia saudável depende dessa pluralidade de olhares. Determinadas pautas chegam ao debate público porque determinadas pessoas chegaram aos espaços de decisão.

Muitas das discussões contemporâneas sobre racismo estrutural, capacitismo, violência de gênero, transfobia, maternidade, trabalho doméstico, desigualdade salarial e inclusão só ganharam força porque pessoas diretamente afetadas por essas questões passaram a ocupar lugares de fala institucional.

A diversidade não é um adorno democrático. É uma ferramenta de produção de realidade política.

Quando uma sociedade exclui grupos inteiros de seus espaços de decisão, ela não perde apenas representatividade.

Perde inteligência coletiva, as perspectivas; as soluções, o futuro…

Por isso, a pergunta já não pode ser apenas “quantas mulheres existem na política?” A pergunta precisa ser: Quais mulheres conseguem chegar até ela?

O feminismo e a democratização do poder

Poucos conceitos sofreram tantas distorções quanto o feminismo. Frequentemente ele é retratado como um projeto de substituição de poder, como se seu objetivo fosse inverter hierarquias históricas.

Mas essa leitura ignora sua essência. O feminismo surgiu da reivindicação de cidadania.

Não reivindicava privilégios, igualdade de direitos à educação, ao voto, ao trabalho, à propriedade, à autonomia, à participação política, à própria voz..

Ao longo de sua história, o movimento feminista assumiu diferentes correntes, perspectivas e prioridades.

Houve divergências. Houve disputas internas e contradições.Mas existe um princípio que atravessa todas essas diferenças: a recusa da subordinação.

Talvez por isso uma das maiores incompreensões sobre o feminismo seja a ideia de que ele pretende criar uma sociedade em que mulheres dominem homens.

A questão nunca foi essa. Sempre foi construir uma sociedade em que ninguém precise ser dominado. Inclusive os próprios homens.

As discussões contemporâneas sobre masculinidade mostram que estruturas patriarcais também impõem custos elevados aos homens.

A expectativa permanente de força. A dificuldade de expressar vulnerabilidade. O silêncio emocional. A solidão. A negligência com a própria saúde. A pressão constante para corresponder a modelos rígidos de masculinidade.

Uma sociedade mais igualitária não beneficia apenas as mulheres. Ela amplia as possibilidades humanas para todos. É por isso que a luta pela participação feminina não deve ser compreendida como uma pauta exclusiva das mulheres. Ela é uma pauta democrática. E, em última instância, uma pauta civilizatória.

As redes sociais: a nova praça pública

Durante séculos, poucas mulheres tiveram acesso aos meios de comunicação. A palavra pública era um privilégio. Os jornais pertenciam a poucos. Assim como, as universidades, os parlamentos, os grandes espaços de debate…

A democracia ateniense, frequentemente celebrada como berço da participação política, excluía mulheres, escravizados e estrangeiros. A famosa ágora grega, símbolo do debate público, era também um espaço de exclusão.

Hoje, pela primeira vez na história, uma jovem com um celular pode alcançar milhões de pessoas: a jovem negra, a indígena, a periférica, a trans, a PCD…

Uma jovem que jamais seria convidada a ocupar uma tribuna parlamentar ou uma redação tradicional.

As redes sociais transformaram-se na nova praça pública do século XXI. Elas democratizaram a produção de conteúdo, permitiram a circulação de narrativas antes silenciadas e reduziram a dependência dos antigos intermediários do poder.

Não por acaso, muitos dos debates mais relevantes da contemporaneidade surgiram ou ganharam força nesses ambientes:

  • Violência contra a mulher.
  • Racismo estrutural.
  • Capacitismo.
  • Representatividade.
  • Saúde mental.
  • Diversidade.
  • Participação política.

As redes não criaram esses problemas. Elas apenas tornaram impossível fingir que eles não existiam.

Naturalmente, essa democratização também trouxe desafios. A desinformação tornou-se um problema global. Discursos extremistas encontraram novos canais de circulação.

A violência digital transformou-se em uma realidade cotidiana. E, mais uma vez, as mulheres costumam pagar um preço maior. O preço de ousar falar

Toda sociedade autoritária compreende uma verdade simples: Controlar quem fala é uma forma de controlar quem existe.

Por isso, quando grupos historicamente silenciados conquistam voz pública, a reação costuma ser intensa. As mulheres sabem disso há muito tempo.

Uma mulher que ocupa espaços de poder raramente é julgada apenas por suas ideias. Frequentemente é julgada por sua aparência, sua idade, sua maternidade, sua vida afetiva, sua roupa, sua voz, sua existência.

A ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, chamou atenção para essa realidade ao observar que ataques dirigidos a mulheres em posições de poder frequentemente atingem familiares, filhos e aspectos pessoais de suas vidas, enquanto homens costumam ser atacados prioritariamente por suas decisões profissionais.

A violência política de gênero não busca apenas intimidar. Busca expulsar e comunicar que determinados espaços continuam sendo considerados inadequados para determinadas pessoas.

Essa lógica não se limita aos tribunais. Ela aparece na política partidária, na imprensa, na universidade, nas redes sociais, nos movimentos sociais… Em qualquer lugar onde mulheres reivindiquem protagonismo.

E quando essa mulher é negra, indígena, trans ou possui alguma deficiência, as camadas de violência frequentemente se multiplicam. A agressão deixa de atingir apenas seu gênero. Passa a atingir sua identidade inteira.

Por isso, defender a presença feminina nos espaços públicos não é apenas ampliar a representatividade. É proteger a própria democracia.

O futuro não será construído por uma única voz

Existe um equívoco recorrente quando se fala sobre representatividade.

Muitas pessoas acreditam que defender mais mulheres na política significa defender um pensamento único feminino.

Mas as mulheres não formam um bloco homogêneo. Há mulheres de direita, de esquerda, conservadoras, progressistas, religiosas, laicas, camponesas e citadinas.

Há mulheres que discordam profundamente umas das outras. E isso é saudável. Democracia não significa unanimidade. Significa pluralidade. O objetivo nunca foi fazer com que todas as mulheres pensassem da mesma forma.

O objetivo é garantir que todas tenham o direito de pensar, falar e participar. Quando diferentes vozes ocupam os espaços de decisão, a sociedade torna-se mais complexa, mais criativa e mais preparada para enfrentar seus desafios. O problema não está na divergência. O problema está na ausência de aceitação das diferenças.

Talvez a frase que inspira este artigo: “Não quero ser rainha. Quero ser rei”, perpassa tantas mulheres porque fala de algo que vai muito além da política.

Ela fala sobre pertencimento, autonomia, protagonismo e o direito de existir sem pedir licença…

Durante séculos, inúmeras mulheres tiveram de adaptar sua linguagem, esconder sua inteligência, silenciar suas opiniões ou até assumir identidades masculinas para serem levadas a sério.

Maria Quitéria vestiu-se de homem para lutar. Muitas cientistas tiveram suas descobertas atribuídas a colegas homens. Escritoras esconderam seus nomes sob pseudônimos masculinos.

Milhões de mulheres aprenderam que, para serem aceitas, precisavam ocupar menos espaço do que realmente possuíam.

A história do protagonismo feminino é, em grande medida, a história da recusa desse encolhimento.

Cada mulher que ocupa uma cadeira no parlamento; na direção duma universidade; na liderança duma pesquisa científica; na fundação duma organização social; na escrita de um livro… Cada mulher que ergue a própria voz, amplia as possibilidades das mulheres que virão depois.

Mas o desafio do século XXI já não é apenas permitir que as mulheres entrem na sala onde as decisões são tomadas. É garantir que todas as mulheres possam entrar.

Porque não existe democracia plena quando apenas algumas vozes femininas são ouvidas.

Não existe democracia plena quando a diversidade é celebrada nos discursos, mas permanece ausente dos espaços de poder.

Não existe democracia plena quando mulheres continuam precisando vestir, metaforicamente, a armadura dos homens para serem reconhecidas.

O ano eleitoral nos convida a refletir sobre isso. Quem está elaborando as leis? Quem está definindo prioridades? Quem está ocupando as cadeiras de decisão? E quem continua ausente dessas mesas?

A democracia não se fortalece apenas pelo número de votos. Ela se fortalece pela diversidade das vozes que ajudam a construir o futuro.

Talvez seja exatamente isso que a frase que inspira este artigo queira dizer. Não quero ser rainha. Quero ser rei. Não para ocupar o lugar de um homem. Não para substituir uma hegemonia por outra.

Mas para que nenhuma menina precise pedir permissão para ocupar o seu próprio lugar na História.

E para que as leis do futuro sejam escritas por uma sociedade que finalmente aprendeu a ouvir todas as suas vozes.

Juliana Santhele

Juliana Santhele é jornalista, jovem, negra, PCD. Colunista do Portal Raízes, ouvinte de podcast nas horas vagas, leitora do que chama a sua atenção. Autora do livro: "Entre Vistas" sobre a maternidade solo na sociedade brasileira pós-moderna (prelo).

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