Psicologia e Comportamento

O mito do homem provedor – Com : era preciso domesticar a mulher para ela gerar mais trabalhadores – Com Maria Mies

Maria Mies (1931–2023) foi socióloga, feminista materialista e ativista, uma das vozes mais instigantes do século XX ao analisar de forma articulada como patriarcado, capitalismo e colonialismo se reforçam mutuamente. Sua obra principal, “Patriarcado e acumulação em escala mundial: as mulheres na divisão internacional do trabalho” , publicada originalmente em 1986 e lançada no Brasil em nova edição em 2022, questiona a narrativa que apresenta as desigualdades de gênero como expressões de uma ordem natural ou de uma evolução social inevitável.

Seu pensamento apresenta importantes pontos de aproximação com autoras como Silvia Federici, Vandana Shiva, Nancy Fraser e Angela Davis, embora cada uma desenvolva perspectivas próprias sobre as dinâmicas que moldam a exploração de gênero, raça e classe.

É fundamental destacar desde o início que as teorias aqui apresentadas sobre a caça às bruxas, a formação dos papéis femininos ou a subordinação da produção da vida são interpretações formuladas por Mies, que se apoiam em dados históricos e antropológicos, mas convivem com outras leituras historiográficas e sociológicas igualmente relevantes. Este ensaio não pretende consagrar uma visão única, mas colocar em diálogo suas reflexões com a realidade brasileira e com os debates que seguem abertos nas ciências humanas.

A caça às bruxas e a supressão da autonomia produtiva

Segundo Maria Mies, as perseguições às mulheres acusadas de bruxaria na Europa moderna não se resumiram a um movimento de controle sobre a sexualidade e a reprodução. Para ela, esse processo serviu também para consolidar a ideia de que as formas de saber e de produzir associadas aos homens seriam superiores e legítimas, enquanto as práticas femininas ligadas à saúde, aos ciclos da natureza e à sobrevivência coletiva seriam consideradas perigosas, irracionais ou desprovidas de valor. Silvia Federici desenvolve uma tese próxima ao demonstrar que a disseminação dessas perseguições coincidiu com a passagem para o capitalismo industrial, quando se tornou estratégico desmantelar modos de vida nos quais mulheres detinham conhecimento e poder decisório sobre o próprio corpo e os recursos comuns.

Não se pode afirmar, contudo, que todas as mulheres perseguidas guardavam esses saberes, nem que essa tenha sido a única motivação das instituições religiosas e estatais da época. Ainda assim, parte significativa da produção historiográfica contemporânea reconhece que esse movimento contribuiu para erigir uma separação duradoura entre saber institucionalizado e experiência vivida, entre razão e corpo — uma divisão que ainda hoje se reflete na forma como se desvaloriza o que mulheres pensam e fazem. No Brasil, por exemplo, os saberes tradicionais de mulheres negras, indígenas e quilombolas sobre plantas medicinais e cuidados com a saúde ainda enfrentam obstáculos para serem reconhecidos e integrados às políticas públicas de atenção básica.

A construção histórica da figura da dona de casa

Para Maria Mies, a ideia de uma “vocação natural” feminina para o espaço doméstico e a dependência econômica não é um dado antigo, mas uma construção histórica relativamente recente. Em sua análise, essa figura foi moldada ao longo da Revolução Industrial, quando se consolidou uma distinção entre o trabalho produtivo, remunerado e exercido fora do lar, associado aos homens, e o trabalho reprodutivo, voltado para gerar e manter a vida, deslocado para a esfera privada e considerado como inerente às mulheres. O propósito, segundo ela, foi garantir a reposição constante da força de trabalho necessária ao sistema sem que seus custos fossem assumidos por empregadores ou pelo poder público. Nancy Fraser desenvolve raciocínio complementar ao mostrar que o capitalismo sempre dependeu desse conjunto de atividades não remuneradas, tratando-as como um dado externo à economia, quando na verdade constituem seu próprio fundamento.

No Brasil, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2022, divulgados em 2024, ilustram a persistência dessa divisão. Mulheres ocupadas dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados com pessoas, enquanto homens dedicam 11,7 horas — uma diferença de cerca de 82%. Essa carga se torna ainda mais pesada quando cruzada com a raça: mulheres pretas ou pardas dedicam em média 1,6 hora a mais por semana do que mulheres brancas a essas atividades, revelando como gênero e raça se entrelaçam na distribuição desigual do tempo e do esforço. Ao longo de um ano, essa diferença corresponde a cerca de 21 dias de trabalho adicional realizado sem remuneração ou reconhecimento formal.

Apropriação e resistência: a autonomia que não foi entregue voluntariamente

“As mulheres não entregaram voluntariamente o controle sobre sua produtividade, sua sexualidade e sua capacidade de gerar vida”, escreve Maria Mies. De acordo com sua análise, foi necessário um longo processo de restrições legais, violência simbólica e material para transformar sujeitos com autonomia sobre si mesmos em figuras subordinadas à autoridade do pai, do marido ou das instituições. Essa afirmação não significa que existisse uma liberdade universal antes desse período, mas que a subordinação feminina não é fruto da natureza, mas de escolhas políticas que poderiam ter seguido outros caminhos.

No Brasil contemporâneo, essa disputa permanece visível em múltiplas frentes. A luta pela autonomia sobre o próprio corpo envolve a garantia de acesso integral à saúde reprodutiva, a ampliação do atendimento ao planejamento familiar e a proteção contra a violência obstétrica. Estende-se também à reivindicação de divisão compartilhada dos cuidados, à criação de licenças parentais igualitárias e à promoção de condições de trabalho que não obriguem a escolher entre a profissão e a vida familiar. Boaventura de Sousa Santos observa que, em sociedades marcadas por heranças coloniais, essas desigualdades se sobrepõem às de classe e raça, de modo que as mulheres que mais carregam o peso dessas estruturas — negras, quilombolas, ribeirinhas e periféricas — são também as que mantêm vivas muitas das estratégias de resistência coletiva.

O trabalho que permanece à margem das contas econômicas

Maria Mies utiliza o termo “donadecasificação” para designar o processo que reduz o trabalho doméstico, o cuidado e todas as atividades que garantem a reprodução da vida a algo gratuito, inesgotável e inerente à condição feminina.

Por essa lógica, esses esforços permanecem amplamente ausentes das principais métricas econômicas, não geram direitos previdenciários e raramente são considerados na formulação de políticas de desenvolvimento. Angela Davis ressalta que essa invisibilidade não é neutra: no Brasil, como em outros países da América Latina, o trabalho doméstico remunerado é exercido majoritariamente por mulheres negras, que recebem salários mais baixos e contam com menor proteção trabalhista do que quase qualquer outro grupo profissional.

Dados do 4º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios de 2025 mostram que, mesmo com níveis de escolaridade semelhantes, mulheres recebem em média 21,2% menos do que homens no mercado formal brasileiro. Essa diferença chega a 53,4% quando se compara mulheres negras a homens não negros. Além disso, dados do IBGE indicam que cerca de 41% das trabalhadoras em situação de informalidade no país são mulheres negras, submetidas frequentemente a jornadas extensas sem garantia de renda ou benefícios. Nancy Fraser sintetiza essa tensão ao lembrar que, ao tratar o crescimento econômico como objetivo único, as políticas públicas ignoram que esse crescimento se alimenta de um trabalho que não é pago e que, com o tempo, pode se esgotar tanto nas pessoas quanto nos ambientes onde vivem.

Produzir vida e subsistência: a unidade que foi desfeita

Em sociedades anteriores à consolidação do capitalismo, lembra Maria Mies, gerar vida e garantir a sobrevivência coletiva não eram atividades separadas. Mulheres cultivavam, coletavam, transformavam alimentos e guardavam saberes que permitiam a continuidade de seus grupos, de modo que seu papel não se restringia ao espaço restrito do lar, mas se estendia a toda a comunidade.

Na interpretação de Maria Mies, foi a articulação entre patriarcado e capitalismo que fragmentou essa experiência, reduzindo a mulher a cuidadora alheia à produção pública e o homem a provedor distante da criação e do cuidado com a vida.

Vandana Shiva aprofunda essa reflexão ao mostrar que essa separação também atingiu a relação com a natureza: ao tratar a terra e o corpo feminino como recursos passíveis de exploração ilimitada, perdeu-se a compreensão de que nenhuma riqueza pode existir sem preservar as condições que tornam a vida possível. No Brasil, essa perspectiva encontra ressonância em iniciativas como as de mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, das lideranças de projetos de agroecologia e das defensoras da soberania alimentar. Ao retomar o cultivo de alimentos e o cuidado com a terra como atividades centrais, elas também reconstroem o sentido de seu próprio trabalho e de seu lugar no mundo.

Embora a presença feminina no mercado de trabalho tenha crescido de forma expressiva nas últimas décadas, a ideia de que seria necessário escolher entre realização profissional e cuidado com a família ou consigo mesmas permanece como uma marca dessa divisão histórica. No terceiro trimestre de 2024, a taxa de desocupação entre mulheres foi de 7,7%, contra 5,3% entre homens; entre mulheres negras e pardas, esse índice chegou a 7,9%, demonstrando que os avanços não se distribuem de forma igualitária.

Notas sobre o debate em curso

É importante reconhecer que parte das interpretações centrais da obra de Maria Mies segue em debate entre historiadores, economistas e cientistas sociais. Alguns autores questionam a amplitude com que ela generaliza dinâmicas observadas na Europa moderna para outras regiões e períodos históricos, enquanto outros discutem a medida em que a caça às bruxas pode ser explicada prioritariamente como um mecanismo de formação da força de trabalho.

Essas divergências, contudo, não diminuem a relevância de sua contribuição: ao trazer para o centro da análise econômica o trabalho de cuidado e a relação entre exploração material e dominação simbólica, ela abriu caminhos que continuam a ser percorridos por pesquisadores de diferentes correntes.

Conclusão: estruturas feitas por pessoas podem ser refeitas

A análise desenvolvida por Maria Mies nos permite compreender que nem a figura do “homem provedor” nem o ideal de uma “mulher dedicada exclusivamente ao lar” são expressões de uma ordem eterna. São construções históricas que serviram a determinados interesses de acumulação e poder, e que se mantêm enquanto forem úteis ou enquanto não forem questionadas com suficiente profundidade.

As transformações em curso no Brasil — a ocupação de espaços de decisão por mulheres, as leis que buscam reduzir desigualdades salariais, as reivindicações por reconhecimento do trabalho de cuidado e as lutas por relações mais justas com a terra e com a vida — não são apenas mudanças de costumes ou normas legais. São tentativas de reescrever essas construções, de reconhecer que o trabalho que sustenta a vida é o mais importante de todos e que ninguém deve carregá-lo sozinho.

Como toda criação humana, essas estruturas não são definitivas. O fato de terem sido moldadas por pessoas ao longo de séculos significa que também podem ser transformadas por elas. Não se trata de simplesmente inverter papéis, mas de construir relações em que produzir riqueza e produzir vida não sejam opostos, mas faces de uma mesma dignidade compartilhada.

P.S – Este ensaio foi elaborado segundo as normas de redação e rigor do Portal Raízes, com o compromisso de distinguir fatos empíricos, interpretações teóricas e posicionamentos próprios, e de manter aberta a discussão sobre temas fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira.

Fontes consultadas:

  • MIES, Maria. Patriarcado e acumulação em escala mundial: as mulheres na divisão internacional do trabalho. Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Ema Livros / Editora Timo, 2022. (Edição original: Patriarchy and Accumulation on a World Scale, 1986)
  • MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminismo. Tradução de Maria Luiza Borges. São Paulo: Editora Elefante, 2019. (Edição original ampliada: Ecofeminism, 2014)
  • FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução de Carolina Araújo. São Paulo: Editora Elefante, 2017.
  • FRASER, Nancy. Fortunes do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Editora Unesp, 2023.
  • DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. 2. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.
  • SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 5. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2020.
  • BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. 4º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, 2025.
  • IBGE. Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, 2024 (referente a dados de 2022).
  • DIEESE. Trabalho doméstico e de cuidados no Brasil: panorama e desafios, 2025.
  • IPEA. Desigualdades de gênero e raça no mercado de trabalho: notas técnicas, 2025.
  • IBGE – PNAD Contínua e Estatísticas de Gênero: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9173-estatisticas-de-genero-indicadores-sociais-das-mulheres-no-brasil.html
  • – IBGE – Taxa de desocupação por sexo e cor/raça: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/42703-pnad-continua-taxas-medias-anuais-de-desocupacao-sao-as-menores-da-serie-em-14-unidades-da-federação
  • – Ministério do Trabalho e Emprego – Relatório de Transparência Salarial: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/novembro/ministerios-do-trabalho-e-das-mulheres-apresentam-4o-relatorio-de-transparencia-salarial
  • – DIEESE – Trabalho de cuidados e desigualdade de gênero: https://www.dieese.org.br/infografico/2025/mulheresBrasilRegioes.html
  • – Editora Unesp – Catálogo Nancy Fraser: https://editoraunesp.com.br/livros/9786557143429-fortunes-do-feminismo
  • – Ema Livros – Edição brasileira de Maria Mies: https://www.emalivros.com.br/produtos/mariamies/
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