Estamos criando filhos para a vida ou apenas para o conforto? Em seu livro Educação, Convivência e Ética, Mário Sérgio Cortella levanta uma reflexão desconfortável, mas profundamente necessária: que tipo de geração estamos formando?
Entre as muitas provocações presentes na obra, uma delas parece atravessar o tempo com impressionante atualidade. Cortella alerta para o risco de famílias se tornarem geradoras contínuas de consumismo, confundindo afeto com concessão, presença com compensação e amor com ausência de limites.
A questão central não é apenas econômica: É ética, emocional e civilizatória.
Quando uma criança cresce sem aprender a distinguir desejo de direito, algo fundamental em sua constituição psíquica pode ficar comprometido.
O problema não está em desejar. Desejar é humano. O problema começa quando todo desejo precisa ser imediatamente satisfeito. É aí que a educação começa a ceder espaço ao condicionamento.
E talvez este seja um dos maiores dilemas do nosso tempo. Estamos educando para a vida ou apenas facilitando a existência?
Vivemos em uma cultura em que consumir deixou de ser apenas adquirir. Consumir tornou-se linguagem, identidade, pertencimento.
Uma criança já não deseja apenas um tênis porque gosta dele. Muitas vezes, deseja porque ele representa status, inclusão ou validação social.
Isso se agravou drasticamente com a era digital. Hoje, a publicidade já não está apenas nos intervalos da televisão. Ela está nas redes sociais, nos jogos, nos vídeos curtos, nos influenciadores e nos algoritmos que conhecem desejos antes mesmo que eles sejam verbalizados.
O consumo tornou-se invisível. E justamente por isso, mais poderoso. Cortella chama atenção para o risco de pais transformarem caprichos em direitos. Quando isso acontece de forma sistemática, a criança internaliza a ideia de que frustração é uma violência, e não uma experiência natural da vida.
Mas a realidade não funciona sob a lógica da satisfação imediata. Exige espera, elaboração, renúncia. Uma infância sem limites pode gerar uma vida adulta sem estrutura emocional.
Uma das maiores contradições da parentalidade contemporânea é esta: nunca se protegeu tanto a infância, e ao mesmo tempo nunca se observou tanta fragilidade emocional em crianças e adolescentes.
Isso merece reflexão cuidadosa. Proteger não é eliminar toda experiência de desconforto. Frustração não é sinônimo de trauma. Na verdade, pequenas frustrações, quando acompanhadas com vínculo e segurança, são fundamentais para o amadurecimento emocional.
A psicanálise já compreende isso há muito tempo. Donald Winnicott mostrava que o desenvolvimento saudável exige, gradualmente, a capacidade de suportar ausência, espera e realidade. Amar uma criança não significa impedir que ela sofra qualquer desconforto. Significa ajudá-la a desenvolver recursos internos para lidar com a vida.
Melanie Klein também nos ajuda a compreender esse processo ao mostrar que amadurecer implica tolerar ambivalência, perda e limites.
Sem isso, forma-se um psiquismo pouco preparado para a complexidade da existência. Talvez parte do sofrimento emocional atual não venha apenas do excesso de estímulo.
Talvez venha também da escassez de recursos internos. Há crianças que sabem muito sobre tecnologia, mas pouco sobre espera.
Sabem muito sobre acesso, mas pouco sobre construção. Sabem pedir. Mas não sabem sustentar.
Há outro fenômeno silencioso moldando a infância contemporânea. A hiperconectividade. Nunca estivemos tão conectados. Nunca foi tão difícil estar verdadeiramente presente.
Pais e filhos dividem o mesmo espaço físico, mas muitas vezes habitam mundos psíquicos completamente separados. Cada um diante da própria tela, imersos em seus próprios estímulos.
A parentalidade digital não é apenas sobre controlar tempo de tela. Essa visão é superficial. A verdadeira questão é mais profunda: como preservar vínculo, presença e convivência em um mundo desenhado para fragmentar atenção?
O ambiente digital oferece benefícios reais. Há aprendizado, criatividade, comunicação e acesso à informação.
Mas também há riscos: hiperestimulação, comparação social, dependência de validação, ansiedade, cyberbullying, compulsão por recompensa instantânea…
A UNICEF tem alertado que crianças e adolescentes precisam de mediação ativa dos adultos para desenvolver hábitos digitais saudáveis.
O problema não é a tecnologia em si. É quando a tecnologia passa a substituir funções humanas fundamentais. Nenhum algoritmo substitui vínculo, presença e o afeto.
Cortella também provoca ao apontar sinais de uma cultura que terceiriza progressivamente a convivência.
Come-se fora para buscar a comida de casa. Comemora-se fora para viver a alegria que antes era construída dentro de casa.
Convive-se menos. Consome-se mais. A crítica aqui não é ao restaurante, ao lazer ou às festas. A questão é outra. O que acontece quando a casa deixa de ser espaço de encontro?
Quando o lar perde sua função simbólica, algo importante se rompe. Um lar não é apenas um lugar de passagem entre compromissos.
Um lar é, ou deveria ser, espaço de pertencimento psíquico. Lugar de conversa, de apego seguro, de afeto, de diálogo sem julgamentos, de convivência real.
Educar não acontece apenas em grandes discursos. Educar acontece no cotidiano. A formação ética nasce, em grande parte, da convivência e do bom exemplo. Não do discurso.
Talvez a pergunta mais importante seja esta: Que adultos estamos formando?
Essa geração crescerá em um mundo veloz, imprevisível e altamente exigente emocionalmente. Não bastará inteligência técnica. Será necessário resiliência. Maturidade emocional. Capacidade relacional. Tolerância à frustração. Consciência ética.
É justamente aqui que a reflexão de Cortella se torna ainda mais urgente. Educar não é apenas preparar para o mercado. Nem apenas garantir desempenho. Educar é formar humanidade. Filhos não precisam apenas de conforto. Precisam de estrutura, limite, referência, presença, de autoridade madura. Precisam aprender que amor não é ausência de “não”.
Muitas vezes, o “não” é uma das formas mais responsáveis de amor. A grande pergunta para pais, educadores e cuidadores continua ecoando:
Estamos criando crianças emocionalmente preparadas para a vida? Ou apenas futuros adultos altamente dependentes de conforto, validação e gratificação imediata?
O futuro não nasce pronto. Ele está sendo construído agora. Dentro das casas, das escolas, das relações.
Como lembrava Pierre Dac, citado por Cortella: “O futuro é o passado em preparação”. Talvez nunca essa frase tenha sido tão atual.
O mundo que teremos amanhã depende, em grande medida, dos filhos que estamos formando hoje.
Saberes inspirados no livro: Educação, Convivência e Ética – Mário Sérgio Cortella. Páginas 96 a 99. Cortez Editora, São Paulo- SP – Pela equipe do Portal Raízes.
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