Estudos

O amor da sua vida pode ser o seu melhor amigo, revela estudo

Durante muito tempo, o imaginário romântico brasileiro foi alimentado por histórias em que duas pessoas se olham pela primeira vez, experimentam uma atração imediata e, quase como se obedecessem a um roteiro invisível, iniciam uma história de amor. Das radionovelas às telenovelas, dos romances clássicos às comédias românticas contemporâneas, aprendemos que o amor verdadeiro costuma surgir como um relâmpago, um encontro fortuito capaz de alterar completamente o curso da vida.

Essa narrativa, embora fascinante, nunca representou toda a realidade.

No Brasil, até meados do século XX, os relacionamentos eram fortemente influenciados pelas famílias, pela religião e pelas convenções sociais. O namoro era frequentemente supervisionado, os papéis de homens e mulheres eram rigidamente definidos e a amizade entre pessoas de sexos diferentes costumava despertar suspeitas. Em muitos contextos, acreditava-se que homens e mulheres jamais poderiam ser apenas amigos, pois haveria sempre uma intenção romântica ou sexual escondida.

Mesmo com as profundas transformações culturais das últimas décadas, essa crença permaneceu viva. A popularização dos aplicativos de relacionamento reforçou, em certa medida, a lógica da escolha imediata baseada principalmente na aparência física, enquanto a amizade continuou sendo vista como uma etapa separada do amor, quase como se os dois sentimentos percorressem caminhos incompatíveis.

Entretanto, a ciência começa a contar uma história diferente. Uma pesquisa conduzida pela psicóloga canadense Danu Anthony Stinson e sua equipe, publicada na revista Social Psychological and Personality Science, analisou sete estudos independentes envolvendo 1.897 participantes e revelou um dado surpreendente: aproximadamente 73% dos relacionamentos amorosos começaram como amizade. Dependendo da amostra estudada, esse percentual variou entre 40% e 73%, indicando que o caminho da amizade para o amor não constitui uma exceção, mas uma das formas mais comuns pelas quais os vínculos românticos se desenvolvem.

Os pesquisadores observaram ainda que a própria psicologia dedicou pouca atenção a esse fenômeno. Durante décadas, a maior parte das pesquisas concentrou-se naquilo que acontece quando dois desconhecidos se conhecem e experimentam atração imediata, deixando relativamente de lado os relacionamentos que amadurecem lentamente, dentro de vínculos de confiança previamente estabelecidos.

Esse resultado convida a rever algumas ideias profundamente arraigadas em nossa cultura. Talvez o amor não dependa apenas do impacto da primeira impressão. Talvez ele também possa nascer da convivência, da escuta, da admiração silenciosa e da descoberta gradual de quem o outro realmente é.

Outro dado importante da pesquisa ajuda a desfazer um dos mitos mais difundidos sobre amizades entre homens e mulheres. Entre aqueles que iniciaram um relacionamento amoroso após um período de amizade, cerca de 70% afirmaram que não haviam iniciado aquela amizade com intenção romântica ou sexual. Em outras palavras, a maioria não se aproximou do outro como estratégia de conquista. A atração apareceu mais tarde, à medida que a intimidade emocional cresceu. Apenas cerca de 30% relataram que já existia algum interesse romântico desde o início.

Essa descoberta possui implicações importantes. Ela demonstra que a amizade não precisa ser interpretada como uma forma disfarçada de sedução. Muitas relações começam simplesmente porque duas pessoas gostam da companhia uma da outra, compartilham valores, interesses, dificuldades e experiências de vida. Com o tempo, aquilo que era apenas afeição pode transformar-se em desejo, compromisso e amor.

Sob uma perspectiva psicanalítica, essa transformação faz sentido. Sigmund Freud compreendia que o amor não nasce apenas da sexualidade, mas também dos processos de identificação. Antes mesmo de desejarmos alguém, precisamos, muitas vezes, reconhecer algo dessa pessoa em nossa própria história, em nossos afetos ou em nossos modos de existir. Amar é, em certa medida, encontrar um espaço de reconhecimento recíproco.

Melanie Klein aprofundou essa compreensão ao mostrar que os vínculos afetivos amadurecem quando deixamos de enxergar o outro como um objeto destinado exclusivamente a satisfazer nossas necessidades e passamos a percebê-lo como alguém inteiro, dotado de qualidades, fragilidades, desejos e limites. Essa passagem da idealização para o reconhecimento da alteridade constitui uma das bases dos relacionamentos emocionalmente saudáveis.

É justamente isso que a amizade favorece. Diferentemente da paixão instantânea, ela permite que a idealização diminua antes mesmo do surgimento do romance. Amigos conhecem defeitos, testemunham fracassos, acompanham momentos difíceis, observam incoerências e aprendem a lidar com elas. Quando o amor nasce depois desse percurso, frequentemente encontra um terreno já preparado pela confiança e pelo respeito.

Donald Winnicott dizia que uma relação suficientemente saudável é aquela em que cada pessoa pode existir sem precisar representar um personagem para ser aceita. Essa ideia ajuda a compreender por que tantas amizades acabam se transformando em relacionamentos duradouros. Entre amigos, geralmente existe menos necessidade de impressionar e mais liberdade para simplesmente existir.

Essa liberdade talvez seja uma das formas mais discretas de intimidade. A filosofia existencial também oferece uma contribuição valiosa para compreendermos esse fenômeno. Diferentemente das concepções românticas que apresentam o amor como um destino inevitável, pensadores como Martin Buber e Erich Fromm compreendem o encontro humano como uma construção. Amar não significa encontrar uma pessoa perfeita, mas decidir, continuamente, reconhecer a singularidade do outro e permanecer disponível para esse encontro.

Nessa perspectiva, a amizade ocupa um lugar privilegiado. Ela permite que duas pessoas se encontrem antes das expectativas que costumam acompanhar um relacionamento amoroso. O amigo conhece nossas contradições, testemunha nossas inseguranças, acompanha nossos processos de mudança. Não raro, é justamente essa convivência que transforma a admiração em afeto amoroso.

É interessante observar que o estudo conduzido por Danu Anthony Stinson encontrou outro dado revelador. Quando perguntados sobre qual seria a melhor maneira de conhecer um parceiro romântico, quase metade dos participantes respondeu que preferia um relacionamento que surgisse de uma amizade. Em seguida vieram conhecer alguém por intermédio de amigos em comum e conhecer alguém na escola ou na universidade. Os encontros às cegas e, naquela amostra específica, os serviços de namoro on-line apareceram entre as opções menos escolhidas.

Esse resultado não significa que aplicativos de relacionamento sejam ineficazes ou incapazes de produzir vínculos duradouros. O que a pesquisa evidencia é outra coisa: para muitas pessoas, a confiança continua sendo um dos principais alicerces do amor. E a confiança raramente nasce da pressa.

Vivemos, porém, em uma sociedade marcada pela velocidade. As redes sociais e os aplicativos criaram a impressão de que conhecer alguém deve ser um processo rápido, eficiente e objetivo. Fotografias, pequenas descrições e poucos minutos de conversa passaram a exercer um peso desproporcional nas decisões afetivas. Em muitos casos, escolhe-se antes de conhecer.

Essa lógica produz um paradoxo. Nunca tivemos tantas possibilidades de contato e, ao mesmo tempo, tantas dificuldades para construir intimidade. A facilidade em iniciar conversas não garante a profundidade dos vínculos. Pelo contrário, quando tudo parece substituível, muitas relações tornam-se descartáveis.

A amizade caminha na direção oposta. Ela exige tempo, convivência, pequenas experiências compartilhadas, memórias construídas em comum. Não se sustenta apenas pelo encantamento inicial, mas pela repetição cotidiana de gestos simples: ouvir, acolher, respeitar diferenças, atravessar conflitos sem romper imediatamente o vínculo.

Sob a ótica psicanalítica, isso significa que o desejo deixa de estar sustentado apenas pela idealização. Em vez de amar uma fantasia, aprende-se a amar uma pessoa real.

Talvez seja justamente esse um dos maiores desafios da contemporaneidade. A cultura do desempenho e da exposição permanente favorece relações nas quais cada indivíduo procura apresentar sua melhor versão. Entretanto, a intimidade verdadeira começa quando já não precisamos parecer extraordinários para sermos aceitos.

Nesse sentido, amizades que se tornam romances costumam oferecer uma vantagem importante. Elas permitem que o amor encontre alguém cuja humanidade já foi conhecida. A convivência cotidiana reduz o espaço da projeção e amplia o espaço do reconhecimento.

Isso também ajuda a compreender outro aspecto frequentemente negligenciado. Ainda persiste, em diferentes contextos culturais, a expectativa de que o homem deva demonstrar interesse romântico logo no início da interação, enquanto à mulher caberia responder positiva ou negativamente a essa iniciativa. Esse modelo foi construído historicamente por normas sociais e não representa uma lei da natureza.

No Brasil, essa expectativa foi reforçada durante décadas por valores patriarcais que atribuíam aos homens o papel de conquistadores e às mulheres o de guardiãs da reciprocidade. Embora essas representações tenham perdido força nas últimas gerações, seus efeitos ainda aparecem em muitas relações. Não é raro que homens sintam receio de serem vistos “apenas como amigos”, enquanto mulheres sejam levadas a desconfiar da autenticidade das amizades masculinas.

Os resultados das pesquisas recentes desafiam justamente esse imaginário. Quando aproximadamente 70% das pessoas afirmam que a amizade não começou com intenção romântica, fica evidente que homens e mulheres são plenamente capazes de desenvolver vínculos afetivos genuínos antes que qualquer interesse amoroso apareça. O desejo, portanto, nem sempre antecede a amizade; muitas vezes, ele nasce dela.

Essa constatação também nos convida a abandonar outra ideia bastante difundida: a de que existe um momento “certo” para declarar sentimentos. A experiência humana é muito mais diversa do que qualquer roteiro romântico. Há paixões instantâneas que florescem e permanecem por toda a vida, assim como existem amizades que, anos depois, revelam um amor que nenhum dos dois imaginava existir. Nenhum desses caminhos é mais legítimo que o outro.

O que a ciência sugere é algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo: os relacionamentos mais sólidos tendem a compartilhar alguns elementos fundamentais, entre eles confiança, respeito, comunicação, apoio mútuo e segurança emocional. A amizade, embora não seja uma condição obrigatória para o amor, favorece naturalmente o desenvolvimento dessas qualidades.

Talvez seja essa a principal contribuição dessas pesquisas para nossa compreensão dos relacionamentos. Em vez de perguntar apenas “como conquistar alguém?”, talvez devêssemos perguntar “como construir um vínculo em que duas pessoas possam crescer juntas?”.

O amor não precisa nascer do impacto de um primeiro olhar para ser verdadeiro. Em muitos casos, ele nasce da delicadeza de um segundo, de um terceiro ou de milhares de olhares cotidianos, quando já não enxergamos apenas aquilo que desejamos encontrar, mas passamos a reconhecer, com maturidade e respeito, quem realmente está diante de nós.

Fontes pesquisas:

  • STINSON, Danu Anthony et al. The Friends-to-Lovers Pathway to Romance: Prevalent, Preferred, and Overlooked by Science. Social Psychological and Personality Science, 2021. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/19485506211026992
  • American Psychological Association (APA). Publicações e materiais sobre relacionamentos interpessoais. https://www.apa.org
  • Society for Personality and Social Psychology (SPSP). https://spsp.org
  • FROMM, Erich. A Arte de Amar. Martins Fontes.
  • BUBER, Martin. Eu e Tu. Editora Centauro.
  • FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo; Psicologia das Massas e Análise do Eu. Obras Completas.
  • KLEIN, Melanie. Amor, Culpa e Reparação. Imago.
  • WINNICOTT, Donald W. Tudo Começa em Casa; O Ambiente e os Processos de Maturação. Martins Fontes.
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