Categories: Literatura

Carlos Drummond de Andrade: Congresso Internacional do Medo

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Em “Congresso Internacional do Medo” a quantidade de léxicos que estão no mesmo campo semântico dos sentimentos (“amor”, “ódio”, “medo”) que se distinguem entre si no contexto do poema e observamos que o substantivo abstrato “medo” prevalece, pois há um destaque maior para esse sentimento e o título apenas ratifica essa afirmação “Congresso Internacional do Medo”. A partir desse título, verificamos que se trata de um sentimento específico do Brasil, mas do mundo como um todo – internacional. Logo, o medo, para o poema, é universalizado.

O medo está vigorando em vários lugares e em várias ações, por isso, não seria conveniente tratar do “amor” ou do “ódio”, mas deve-se comentar sobre o medo, desse sentimento que gera desequilíbrio, angústia, dúvida insegurança e serve, paradoxalmente, como um verdadeiro pai e seguidor, devido do contexto social da época, pois o período que o poema foi escrito tinha um pano de fundo em clima de Guerra mundial, túmulo, morte, dor, sofrimento e muito medo. Trata-se de um medo de tal força que esteriliza os braços (estanca a força humana), pois se vive em um mundo que está em caos: com ditadores, soldados, mortes e esses fatores deixam as pessoas desequilibradas e apavoradas.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro – MG, em 31 de outubro de 1902. Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor. Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

Biografia transcrita de Releituras

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

Eu ainda sou aquela criança que brincava na poça d’água como se navegasse num oceano

Eu estou sempre perdendo coisas. Quando eu preciso de caneta, não sei o que me…

2 dias ago

Os postais propagandas de 1900 a 1914 que mostram como o machismo foi disseminado

A luta pelos direitos das mulheres se cruza, em diferentes momentos, com outras lutas por…

4 dias ago

5 maneiras de desconstruir em si mesma o mito da mulher infalível – Com Gabor Maté

Quando o corpo diz basta: o adoecimento das mulheres e o mito do normal Por…

3 semanas ago

As 10 Melhores Séries de Drama para Maratonar Agora

Quando o assunto é drama de qualidade, poucos gêneros conseguem prender a atenção como aquele…

3 semanas ago

Sem acessibilidade para denunciar, o Estado se torna cúmplice da violência sofrida por mulheres com deficiência

Certas existências a história registra como extraordinárias, transformando-as em pontos de admiração da humanidade. Outras,…

2 meses ago

Grupos antivacinas devem perder o direito de ter filhos – Com Leandro Karnal

O professor Leandro Karnal em  entrevista ao Poucas, falou sobre as negações de grupos de…

2 meses ago