Ainda que na Fibromialgia a dor não seja visível e “grite em silêncio”, isto não significa que seja menos pungente que qualquer outra dor
A Fibromialgia (FM) configura-se como uma complexa síndrome neuropsicobiológica multissistêmica. Ela é caracterizada clinicamente por dores crônicas, generalizadas e agudas, mapeadas e delimitadas por pontos anatomicamente hipersensíveis à palpação, os chamados tender points. No âmbito fisiopatológico, a manifestação dolorosa não agride somente a musculatura estriada, mas também se estende aos tecidos conjuntivos circundantes, afetando tendões e ligamentos. Sob a ótica da neurociência contemporânea, esse quadro decorre de um fenômeno de sensibilização central. Nele, há uma amplificação aberrante dos sinais nociceptivos no sistema nervoso central. Isso é frequentemente potencializado pela desregulação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e pelo comprometimento das vias inibitórias descendentes de dor.
Todas estas condições clínicas e neurobiológicas associadas resultam em uma drástica e péssima qualidade de vida para os pacientes. O sofrimento crônico gera um severo impacto psicossomático. Isso faz com que mesmo as atividades rotineiras e mais elementares do indivíduo sejam realizadas com um imenso custo físico, emocional e cognitivo. Essa sobrecarga drena os recursos adaptativos do organismo. O processo é frequentemente agravado pela ativação persistente do sistema nervoso simpático e por um estado de neuroinflamação subclínica, disparado por memórias traumáticas implícitas ou estressore crônico.
Quanto à incidência epidemiológica, a síndrome acomete de 2 a 5% da população mundial. Ela exibe uma prevalência acentuada em mulheres na faixa etária entre 30 e 50 anos, embora atinja outros grupos etários e se manifeste de forma independente do sexo biológico.
Embora na Fibromialgia a dor não seja visível, esta é real e causa muito sofrimento e desconforto. Contudo, geralmente é incompreendida pelas pessoas por falta de informação. Talvez porque somente o que é visível é levado em conta com seriedade. Ou seja, o que é relatado pela pessoa como dor e sua intensidade é uma questão muito subjetiva, podendo ser considerada preguiça ou desculpa para fugir de responsabilidades. Ainda que na Fibromialgia a dor não seja visível e “grite em silêncio”, isto não significa que seja menos pungente que qualquer outra dor.
Para facilitar este raciocínio, gostaria de fazer uma comparação: Quando uma pessoa sofre um acidente e quebra um braço ou perna, por exemplo, a dor provocada pelo trauma mecânico é observada por exames clínicos, quando um corte é profundo, causando hemorragia, essa dor é compreendida e socorrida pelo quadro dramático que ali se apresenta. Nos hematomas, luxações e inchaços provocados por pancadas ou qualquer trauma mecânico, existe uma constatação dolorosa visível. Nas queimaduras, idem. Em doenças cujos sintomas são observáveis, a dor é aceita e compreendida. Nas síndromes e nos transtornos dolorosos, a dor física e/ou emocional é de quem sente, de quem sofre, não sendo facilmente socializada por não apresentar visibilidade e por conta disto, muitas vezes até descredibilidade.
No entrelaçar dessas ciências, compreende-se que a Fibromialgia não caminha na solidão de uma única especialidade. Ela exige uma sinfonia de saberes, uma rede transdisciplinar de cuidado.
Cada profissional atua como um guardião de uma dimensão do sofrimento, redefinindo os mapas da dor e devolvendo a dignidade à pessoa que sofre:
1- Reumatologista e Fisiatra: Os arquitetos do diagnóstico e da modulação clínica primária. Eles atuam na exclusão de patologias autoimunes e na regulação farmacológica inicial da sensibilização central, acalmando as vias aferentes hipersensibilizadas.
2- Psicólogo: O tradutor das memórias integradas no corpo. Através de abordagens humanistas e da psicotraumatologia, ele auxilia o paciente a ressignificar traumas psicológicos e estressores crônicos. Esse processo promove a neuroplasticidade adaptativa e ajuda a dessensibilizar o córtex cingulado anterior e a ínsula.
3- Fisioterapeuta e Osteopata: Os terapeutas do toque e do movimento consciente. Sob a luz das neurociências, suas intervenções liberam restrições fasciais e modulam as vias inibitórias descendentes de dor. Essa atuação desarma a armadura muscular estriada, os tendões e os ligamentos sobrecarregados.
4- Psiquiatra: O guardião da homeostase neuroquímica. Ele intervém com fármacos que reequilibram os neurotransmissores do estresse, regulando as disfunções do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e mitigando os quadros de ansiedade e depressão reativos ao sofrimento crônico.
5- Educador Físico: O estimulador da alostase positiva. A prescrição de exercícios físicos graduais e gentis atua diretamente na expressão de fatores neurotróficos (como o BDNF). Essa prática estimula a analgesia endógena através da liberação de endorfinas, remodelando a resposta do sistema nervoso ao esforço.
6- Coloproctologista e Gastroenterologista: Os sentinelas do “segundo cérebro”. Na Fibromialgia, há uma sobreposição íntima (de até 80%) com a Síndrome do Intestino Irritável (SII) devido à hipersensibilidade visceral generalizada. Esses especialistas atuam na integridade da barreira intestinal e no eixo cérebro-intestino. O cuidado reduz a neuroinflamação subclínica, que é frequentemente alimentada por uma microbiota em desequilíbrio e pela ativação vagal disfuncional.
O diagnóstico da Fibromialgia (FM) configura um complexo desafio propedêutico, dado o expressivo sobreponimento clínico com outras artropatias inflamatórias e miopatias sistêmicas. Trata-se de um veredicto eminentemente clínico e de exclusão biomédica, estabelecido na ausência de biomarcadores laboratoriais ou imaginológicos periféricos específicos. Conforme as diretrizes contemporâneas do American College of Rheumatology (ACR), a validação diagnóstica requer a persistência de dor musculoesquelética difusa e generalizada por um período mínimo e ininterrupto de três meses. Essa manifestação álgica deve abranger os eixos axial e apendicular, manifestando-se de forma bilateral e acima e abaixo da cintura.
Sob a ótica da neurociência e da medicina psicossomática, a FM não se restringe a uma desordem somatossensorial isolada, mas sim a uma pan-hipersensibilidade neurobiológica centralizada. O sistema nervoso do paciente opera sob uma carga alostática severamente saturada, transformando a síndrome em um epicentro ou “ímã” para o desenvolvimento de múltiplas comorbidades secundárias crônicas (como a Síndrome do Intestino Irritável, enxaqueca refratária e distúrbios severos do sono). Essa constelação sindrômica multifacetada reflete o colapso dos mecanismos homeostáticos do organismo. Diante desse cenário de vulnerabilidade multissistêmica, a intervenção precoce de um Reumatologista é um imperativo clínico. A identificação tempestiva dos sintomas e o manejo terapêutico imediato interrompem a consolidação das memórias traumáticas e a cronificação da sensibilização central, otimizando drasticamente o prognóstico e a neuroplasticidade adaptativa da pessoa.
No ecossistema biológico, a dicotomia cartesiana entre o somático e o psíquico é uma falácia científica, visto que a saúde emocional e a física operam em um continuum bidirecional de retroalimentação molecular e neural. Nas síndromes de sensibilização central como a Fibromialgia (FM), cuja fisiopatologia prescinde de biomarcadores anatomopatológicos estruturais periféricos, torna-se mandatório investigar a fenomenologia do sofrimento. Isso exige decodificar a experiência nociceptiva individual através da lente da carga alostática e dos mecanismos de enfrentamento perante os estressores cotidianos.
A modulação da dor é um processo central complexo, amplamente influenciado pela avaliação cognitiva realizada pelo córtex pré-frontal e pelo sistema límbico. Sob a perspectiva da Psicotraumatologia, crenças disfuncionais, distorções cognitivas e catastrofização da dor alteram a conectividade funcional da matriz neural da dor, exacerbando a reatividade da amígdala e perpetuando um estado de hipervigilância.
Considerando que o estresse psicossocial ativa o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e o sistema nervoso simpático, promovendo a liberação crônica de cortisol e catecolaminas, há uma facilitação direta das vias aferentes dolorosas quando o indivíduo atinge a exaustão homeostática. Nesse cenário, a intervenção psicoterapêutica transcende o mero manejo do estresse. Ela atua como um modulador epigenético e neuroplástico, indispensável para tratar a arquitetura das comorbidades afetivas reativas, como os transtornos ansiosos e depressivos crônicos.
Investigar os conteúdos psicodinâmicos e os traumas implícitos subjacentes permite rastrear os gatilhos exógenos e os fatores ambientais internos (como padrões neurovegetativos persistentes de ameaça) que deflagram a neuroinflamação subclínica e cronificam o circuito álgico. Adicionalmente, o suporte psicoterápico é essencial para reabilitar os deficits neurocognitivos, fenômeno conhecido como fibrofog, intervindo na perda de memória operacional e nos deficits de atenção seletiva decorrentes da sobrecarga de processamento cortical induzida pela dor contínua.
Em nossa prática clínica, ouvimos frequentemente pacientes fibromiálgicos relatarem que suas dores nos músculos, tendões e ossos surgiram “do nada”. No entanto, o corpo não adoece sem uma razão. Cada manifestação dolorosa em nossa biologia traz consigo uma história, um porquê e um apelo existencial que precisa ser decifrado. Na sua essência original, a dor é um mecanismo de defesa vital. Ela atua como um sinalizador biológico que nos avisa quando o organismo corre perigo, protegendo nossa integridade e nos preservando da morte. Se uma pessoa sofre uma queda e fratura em um osso, é a dor que a impulsiona a tomar as providências necessárias com urgência para a reconstrução daquilo que foi lesionado.
Contudo, os estudos científicos nos revelam que, na Fibromialgia, esse sistema de alerta passou por uma dolorosa transformação. As pessoas portadoras dessa síndrome apresentam uma profunda hipersensibilidade à sensação de dor. O alarme biológico, que deveria soar apenas diante de uma lesão física real, tornou-se hipervigilante. Para o fibromiálgico, o sistema nervoso exausto, sobrecarregado por estresses acumulados e tensões emocionais, passa a interpretar estímulos comuns do dia a dia como dores pungentes. Compreender que essa dor não é uma invenção, mas sim um cansaço profundo do próprio sistema de alerta do corpo, é o primeiro passo para acolher o paciente com dignidade e ajudá-lo a reencontrar seu equilíbrio fundamental.
Alta Prevalência: Estudos clínicos demonstram que cerca de 15% a 30% dos pacientes diagnosticados com a Doença de Sjögren também desenvolvem Fibromialgia.
Amplificação de Sintomas: Quando as duas condições coexistem, o paciente apresenta um nível de sofrimento e dor significativamente maior. A Fibromialgia atua como um amplificador da dor inflamatória crônica causada pela Síndrome de Sjögren.
Ambas as doenças compartilham uma tríade de sintomas que frequentemente confunde os médicos:
Fadiga Crônica e Profunda: O cansaço extremo e incapacitante é uma marca registrada tanto da desregulação neuroenergética da Fibromialgia quanto da atividade autoimune da Síndrome de Sjögren.
Dores Articulares e Musculares: A Sjögren causa artralgia (dor nas articulações) devido à inflamação glandular e sistêmica, enquanto a Fibromialgia causa a dor musculoesquelética difusa por sensibilização central. No dia a dia, para o paciente, a sensação física dessas dores é praticamente idêntica.
“Fibrofog” e disfunção cognitiva: O deficit de memória, a névoa mental e a dificuldade de concentração ocorrem em ambas, seja pelo bombardeio de dor no cérebro (FM) ou pela fadiga sistêmica e inflamação (DS).
Para manter o rigor científico, é vital traçar a linha divisória de como cada uma agride o organismo:
Doença de Sjögren: É uma doença autoimune inflamatória sistêmica. Nela, o sistema imunológico ataca as próprias glândulas exócrinas (especialmente as salivares e lacrimais), provocando secura extrema nos olhos e na boca (síndrome sicca), além de poder lesionar órgãos internos.
Fibromialgia: É uma síndrome nociplástica de sensibilização central. Não há destruição de tecidos, anticorpos ou marcadores inflamatórios no sangue. O problema está na forma como o sistema nervoso processa e amplifica os estímulos sensoriais normais.
Sob a ótica da neurociência e da psicotraumatologia, a doença de Sjögren atua como um severo estressor biológico crônico. O sofrimento físico contínuo da secura e da fadiga imunológica sobrecarrega a carga alostática do organismo. Essa agressão constante ao longo dos anos desregula o eixo HPA e trava o sistema nervoso em um estado de hipervigilância. Essa exaustão do sistema de alerta do corpo é o gatilho perfeito para o desenvolvimento da sensibilização central, culminando no surgimento da Fibromialgia secundária.
Por isso, diferenciar o que é atividade inflamatória da Sjögren e o que é amplificação nervosa da Fibromialgia é crucial na prática clínica. Evita-se, assim, o uso desnecessário de altas doses de corticoides ou imunossupressores para tratar uma dor que, na verdade, é de origem nociplástica e centralizada.
Artigo Base (Soraya Rodrigues de Aragão): Aragão, S. R. de. (2019, 2 de junho). Fibromialgia: a dor que grita em silêncio. Soraya Psicóloga. https://sorayapsicologa.com/fibromialgia-a-dor-que-grita-em-silencio/
Critérios Diagnósticos Clínicos (ACR): American College of Rheumatology. (2010). 2010 Preliminary Diagnostic Criteria for Fibromyalgia and Measurement of Symptom Severity. Arthritis Care & Research, 62(5), 600–610.
Conceito de Dor Nociplástica (IASP): International Association for the Study of Pain. (2017). IASP classification of chronic pain for ICD-11: Chronic primary pain. Pain, 160(1), 19–27.
Conceito de Carga Alostática (Bruce McEwen): McEwen, B. S. (1998). Protective and damaging effects of stress mediators. New England Journal of Medicine, 338(3), 171–179.
Teoria Polivagal e Neurocepção (Stephen Porges): Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. W. W. Norton & Company.
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