A humanidade, ao longo de sua história, tem assistido e, por vezes, normalizado a violência como um método educativo. No Brasil, mesmo após a promulgação de leis voltadas à proteção da infância, agressões físicas e psicológicas continuam sendo relativizadas e empregadas como ferramenta educacional. Essa prática, frequentemente justificada pela necessidade de disciplinar crianças e adolescentes, é amplamente reproduzida como uma herança cultural. Dados do Atlas da Violência 2025, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirmam essa realidade ao demonstrarem a predominância da violência doméstica em todas as faixas etárias. Na primeira infância (0 a 4 anos), por exemplo, a residência é o principal local de violência em 67,8% dos casos.
Pouco se discute, contudo, que quanto mais hostil é o ambiente familiar para a criança, maior tende a ser a reprodução dessa hostilidade em suas relações com pares e até mesmo com animais. A violência vivenciada no início da vida não se dissipa com o tempo; ela se reorganiza no desenvolvimento psíquico e emocional, favorecendo dificuldades de autorregulação, de vínculo, de aceitação e de convivência social.
Há mais de um século, Maria Montessori já alertava que a infância não é apenas uma etapa biológica, mas um problema social. Quando tratada como incômodo ou objeto de controle, toda a sociedade adoece. A forma como se educa revela, em última instância, o projeto humano que se sustenta. Se a intenção é transformar a sociedade, será inevitável enfrentar a violência ainda legitimada como método educativo.
O emprego da violência nos lares brasileiros como ferramenta disciplinar não deve ser compreendido como uma falha individual ou um desvio pontual. Trata-se de um fenômeno social profundamente enraizado na forma como o mundo adulto se organiza e se impõe sobre a infância. Maria Montessori foi uma das pioneiras na defesa da infância a denunciar esse conflito estrutural. Ela alertou que a criança era percebida como uma perturbação constante em uma sociedade orientada pela produtividade, pelo controle do tempo e pela obediência, fenômeno que cresce exponencialmente à medida que a cultura produtiva evolui. Quando a infância não encontra espaço legítimo de existência, o castigo surge como ferramenta para silenciar o incômodo que ela representa.
Dados da Violência Doméstica contra Crianças (0-4 anos) no Brasil
| Faixa Etária | Local Principal da Violência | Percentual de Casos |
| 0 a 4 anos | Residência | 67,8% |
| 5 a 9 anos | Residência | 65,9% |
Fonte: Atlas da Violência 2025
Essa lógica encontra embasamento na análise de Michel Foucault sobre a punição como tecnologia de poder. Ao longo da modernidade, a violência deixou de se expressar apenas em suplícios públicos e passou a operar de forma cotidiana, discreta e normalizada. O objetivo nunca foi educar no sentido de formar sujeitos conscientes, mas produzir corpos dóceis, obedientes e previsíveis. No contexto doméstico, a punição infantil traz essa mesma ideia, já que controla comportamentos imediatos, mas não constrói responsabilidade nem autonomia.
Essa normalização do controle, atrelada à falta de ferramentas educacionais que priorizem o desenvolvimento psíquico sadio, faz com que as crianças desenvolvam desvios comportamentais que as acompanham na fase seguinte, a adolescência. Problemas como a falta de regulação emocional e a ausência de sentimento de cuidado transformam seres com grandes potenciais em adultos com pouca empatia, sem senso de si, reproduzindo a falta de afeto e uma busca incessante de pertencimento.
Um grande exemplo dos problemas sociais que a violência infantil pode causar é a massificada destruição de jovens ocorrida na época colonial, onde essa racionalidade punitiva se expandiu sem questionamento, deixando de ser apenas prática privada e se transformando em política institucional. Daniela Arbex demonstra, em sua investigação sobre o Hospital Colônia de Barbacena, que crianças e jovens “com comportamento considerado difícil”, sem qualquer espécie de diagnóstico sólido, eram submetidos à violência sistemática, historicamente legitimada sob o discurso do cuidado, da correção e da ordem social. Corpos vulneráveis – pobres, crianças, mulheres, pessoas consideradas desviantes – tornaram-se alvos preferenciais de práticas violentas travestidas de tratamento.
O que essas três perspectivas revelam é que a violência não se perpetua por ignorância isolada, mas por coerência estrutural. A mesma sociedade que pune para controlar, que silencia para organizar e que normaliza o sofrimento como método educativo é aquela que, mais tarde, se surpreende com a reprodução da violência em suas relações sociais. A infância, nesse contexto, não é apenas vítima, mas o ponto de origem de um modelo de humanidade baseado no medo. Por isso, enquanto o controle for entendido como sinônimo de educação, a agressão continuará sendo reproduzida como ferramenta legítima, ainda que seus efeitos sociais revelem, reiteradamente, o fracasso desse método. Vejamos o modo como isso se perpetua.
Nem toda violência infantil se manifesta por meio de agressões explícitas. Puxar pelo braço, arrastar, gritar, expor ao constrangimento público ou impor força excessiva em tarefas cotidianas são práticas frequentemente minimizadas. No entanto, essas experiências comunicam à criança que seu corpo não lhe pertence e que suas emoções não merecem consideração. Engana-se quem acha que esses atos não são suficientes para serem entendidos como agressão, especialmente porque apenas a pessoa que vive é capaz de definir como se sente diante de um contexto em que esteja sendo violada em sua integridade. A ausência de marcas físicas não elimina o impacto psíquico dessas vivências, que se acumulam como “pequenas” violências reiteradas.
Historicamente, validamos a obediência obtida pelo medo, tanto que se tornou herança cultural por diversas gerações. A naturalização da opressão fez com que tantos lares confundissem os efeitos da violência com aprendizado. Crianças que se calam, que cessam o comportamento indesejado ou que se submetem à autoridade adulta são vistas como “educadas”. Contudo, o que se estabelece nesse processo não é autocontrole, mas supressão emocional. O medo não ensina responsabilidade; ele apenas interrompe a ação no curto prazo, deixando intacta a incapacidade de lidar com frustrações, conflitos e limites de forma saudável. Isso pode não se revelar nas próximas semanas ou meses, mas se arrasta no desenvolvimento da criança, perpetuando um vício que será escancarado na próxima fase e, dependendo do nível expressivo da criança, até mascarado na fase adulta.
Daniel Siegel demonstra que o cérebro infantil ainda não possui integração suficiente entre emoção e razão. Cabe aos cuidadores munir-se de informação mínima para serem capazes de acompanhar o desenvolvimento infantil empregando métodos educacionais que possam, a longo prazo, construir o ser humano de forma saudável. Nos momentos de crise da criança, como choro intenso, birra ou desorganização emocional, ela não dispõe de recursos neurológicos para refletir ou se autorregular. Quando a resposta adulta é a punição, perde-se a principal oportunidade educativa, que é justamente ensinar a criança, por meio do vínculo, a reconhecer e organizar suas emoções. A violência, nesse contexto, não corrige; ela desorganiza ainda mais.
As experiências de violência não desaparecem com o crescimento. Na adolescência, período marcado por intensa reorganização cerebral, aquilo que não foi integrado na infância tende a emergir sob a forma de rigidez emocional, impulsividade, dissociação ou explosões de agressividade. O que a sociedade interpreta como rebeldia, desvio ou falta de limites muitas vezes é a expressão tardia de uma infância vivida sob ameaça constante.
A violência que começou como método educativo retorna, agora, como problema social, inclusive com desafios ainda maiores para o cuidador que queira solucionar. Quanto mais enraizado for um desvio obtido, maior será a dificuldade de desconstruir, e a grande maioria dos cuidadores não se prepara emocionalmente para a carga que é “curar” os adolescentes dos vícios trazidos da infância.
POSSIBILIDADE DE RUPTURA: DA CASA À SOCIEDADE E A FORMAÇÃO HUMANA COMO RESPONSABILIDADE COLETIVA
Romper com a violência como método educativo não exige fórmulas complexas, mas uma mudança profunda de perspectiva dentro de casa, especialmente sobre como pais e mães entendem os momentos de crise. A educação doméstica, aquela que acontece no cotidiano, fora das instituições, nos conflitos pequenos, nas frustrações repetidas e nas crises emocionais, é o primeiro espaço de formação do ser humano. É ali que se aprende se o mundo é um lugar seguro ou ameaçador, se o erro gera acolhimento ou punição, se o limite pode coexistir com respeito.
Quando adultos assumem a responsabilidade de educar sem recorrer ao medo, ensinam algo que nenhuma correção violenta é capaz de transmitir: a possibilidade de convivência, autorregulação e humanidade. Fazer diferente dentro de casa não é suavizar limites; é preciso ser firme, conhecer ferramentas educacionais que dialoguem com sua realidade, mas que não recorram à violência. O mais importante é que os lares brasileiros redefinam o modo como esses limites são apresentados à criança, fazendo com que ela aprenda não pela força, mas pela presença, pelo vínculo. O adulto precisa adotar a consciência de que educar é formar pessoas, não controlar comportamentos. O mais importante e quase sempre ignorado é que precisamos, enquanto adultos que esperam e buscam uma sociedade civilizada, questionar e refletir sobre a seguinte premissa:
Se repudiamos a violência contra pessoas adultas, contra idosos, animais e também contra a natureza, por que ainda aceitamos que ela seja método legítimo de educação dentro de casa?
Texto escrito por Thalyne Moreira, advogada, especialista em Direito Civil e das Famílias. Mãe de dois filhos, escreve como autora independente sobre infância, desenvolvimento humano, educação e crítica social, articulando vivência e teoria com linguagem acessível. É palestrante em escolas da educação básica e do ensino médio, com temas ligados à convivência, bullying, formação moral e cultura da não violência, além de encontros com mães sobre maternidade orientada pelas ciências do desenvolvimento.
Em um discurso que ressoa com a urgência dos desafios contemporâneos, Michelle Obama, advogada, escritora…
Na infância, aprendemos cedo a conter o choro, a silenciar o incômodo, a não “dar…
Falar de casamento em tempos líquidos exige coragem intelectual e sensibilidade clínica. A obra de…
Quando pensamos em atividades que unem diversão e aprendizado, a Pintura por números surge como uma opção…
A convivência entre gerações é um dos pilares mais profundos da nossa estrutura social. Quando…
Encontrar as melhores series comedia para assistir em família se tornou uma prioridade para quem…