Nas últimas décadas, temos assistido a um fenômeno inquietante: enquanto crianças são pressionadas a amadurecer precocemente, assumindo posturas, responsabilidades e discursos que não correspondem à sua fase de desenvolvimento, muitos adultos caminham na direção oposta, buscando refúgio em comportamentos, objetos e estéticas associadas à primeira infância. É a dança paradoxal entre a adultização precoce e a infantilização tardia.
O recente burburinho nas redes sociais sobre adultos usando chupeta para controlar a ansiedade, somado a outras tendências passadas como a febre dos bebês reborn, expõe um lado curioso e, ao mesmo tempo, perturbador dessa dinâmica: o das “iscas sociais”. Essas “iscas” funcionam como experimentos coletivos — alguém lança uma ideia tão estranha que, a princípio, parece apenas uma piada ou provocação, mas que, apresentada com rótulos terapêuticos ou estéticos, atrai a atenção, a curiosidade e, não raramente, a adesão de milhares de pessoas.
É o mesmo mecanismo de sugestão social que ocorre quando uma pessoa, no meio da rua, para e olha para cima — logo, um grupo se forma, também olhando, sem saber exatamente por quê. A chupeta para adultos é o “olhar para cima” digital: um teste de conformidade que brinca com nossa necessidade de pertencimento, de novidade e de explicações rápidas para mal-estares complexos.
Do ponto de vista fenomenológico, trata-se de uma cena que revela a vulnerabilidade contemporânea diante do absurdo legitimado. Quando o bizarro vem embrulhado em discurso de autocuidado ou promessa de alívio, tende a ser aceito como algo plausível. A ironia é que, ao mesmo tempo em que rimos da ideia, ajudamos a difundi-la, tornando-a ainda mais “real” no imaginário coletivo.
Psicanaliticamente, poderíamos ler isso como a tentativa regressiva de reencontrar um estado de conforto primitivo diante de um mundo hiperacelerado, hostil e saturado de estímulos. Mas há um outro lado: a exploração capitalista do sofrimento. Produtos, cursos e influenciadores rapidamente se apropriam dessas tendências para transformar a fragilidade emocional em mercadoria. O que começa como piada ou provocação pode, em poucos meses, virar nicho de mercado.
Enquanto isso, as crianças continuam a ser empurradas para o universo adulto antes do tempo — consumindo conteúdos, modas e responsabilidades que corroem sua vivência lúdica e emocional. É como se vivêssemos um gigantesco embaralhamento geracional: adultos buscando colo e crianças treinadas para sobreviver sozinhas.
O vídeo recente de Felca, denunciando a exploração e a adultização precoce nas redes, adiciona mais uma camada a essa discussão. Ao expor o funcionamento do “algoritmo P” — essa engrenagem invisível que lucra com a exposição e sexualização precoce — ele escancara o lado mais sombrio da cultura digital. Nesse contexto, as “iscas sociais” absurdas, como a chupeta, parecem inofensivas, mas fazem parte de um ecossistema maior: o que transforma vulnerabilidades humanas em espetáculo e lucro.
Talvez o grande desafio esteja em identificar, na enxurrada de modas, memes e tendências, o que é simples brincadeira, o que é sintoma social e o que é exploração disfarçada de entretenimento. E, a partir dessa consciência, resgatar tanto a infância roubada das crianças quanto a maturidade perdida dos adultos.
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