Psicologia e Comportamento

“Ninguém vive sem sofrimento. Então, mostrar seu ponto vulnerável é um serviço público”

Muitas vezes, quando as pessoas lutam contra o medo – de forma muito agressiva dizendo “vou matar o medo”, “vou mostrar para meu medo quem é que manda”… – ele fica maior. Eu não quero brigar com meu medo, quero ficar amiga dele. Então, é claro que eu tenho medo, mas hoje converso com ele como se ele fosse um dos meus mais antigos amigos criativos e sinto que quanto mais eu falo com ele, mais quieto ele fica.

É claro que é pedir muito que a gente goste de fracassar. Sejamos honestos: é horrível, dolorido. Mas é loucura criarmos uma vida na qual só existe sucesso, felicidade e prazer. Tentamos a todo custo evitar o fracasso, a infelicidade e a dor e isso é humano. Entretanto, se eu perguntar quais foram as três coisas mais transformadoras da sua vida, é possível que você me diga sobre dor, fracasso, perda. Veja, não estou falando que você tem que sair por aí procurando por dor e fracasso, mas podemos lembrar que essas instâncias serão as que terão maior impacto na sua natureza como ser humano.


Acho bom acabar com a mitologia de que existem pessoas que têm uma vida fácil. Claro que alguns vivem em circunstâncias afortunadas. A loteria do acaso faz parecer que algumas pessoas têm vidas abençoadas, mas elas sofrem também. Ninguém passa por essa vida sem conflito, dor ou sofrimento. Então, mostrar seu ponto vulnerável é um serviço público.

Mas não podemos deixar de lado o fator sorte. A segunda coisa é: será que o resto da vida deles é realmente “o céu”? Um dos maiores erros que cometemos é essa definição de que o céu é um lugar em que nunca teremos que trabalhar. A grande questão não deveria ser “o que eu devo fazer para não ter que trabalhar mais?”. E sim “no que eu quero trabalhar pelo resto da minha vida?”

Acho que é impossível ser perfeito. E tento não estabelecer metas impossíveis para mim. Não estou interessada em perfeccionismo porque não acredito nele. No lugar de tentar criar algo perfeito, temos que concordar sobre o que é perfeito. E não existe consenso sobre isso. É uma ideia completamente subjetiva. Além disso, a perfeição leva o prazer para longe e nos deixa ansiosos. Eu sempre digo que tem quem queira que o trabalho fique perfeito. Mas eu quero mesmo é terminar o meu trabalho! Uma das coisas que me dão mais prazer é finalizar as coisas. Porque estamos sempre cheios de ideias, com projetos começados – e muitos ficam inacabados. Então, se você conseguir terminar um livro, parabéns, você já é um sucesso.

Trecho de uma entrevista que a escritora americana Elizabeth Gilbert – autora de “Comer rezar amar”  – concedeu à repórter Marilia Neustein, por telefone.

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

Eu ainda sou aquela criança que brincava na poça d’água como se navegasse num oceano

Eu estou sempre perdendo coisas. Quando eu preciso de caneta, não sei o que me…

4 dias ago

Os postais propagandas de 1900 a 1914 que mostram como o machismo foi disseminado

A luta pelos direitos das mulheres se cruza, em diferentes momentos, com outras lutas por…

5 dias ago

5 maneiras de desconstruir em si mesma o mito da mulher infalível – Com Gabor Maté

Quando o corpo diz basta: o adoecimento das mulheres e o mito do normal Por…

3 semanas ago

As 10 Melhores Séries de Drama para Maratonar Agora

Quando o assunto é drama de qualidade, poucos gêneros conseguem prender a atenção como aquele…

4 semanas ago

Sem acessibilidade para denunciar, o Estado se torna cúmplice da violência sofrida por mulheres com deficiência

Certas existências a história registra como extraordinárias, transformando-as em pontos de admiração da humanidade. Outras,…

2 meses ago

Grupos antivacinas devem perder o direito de ter filhos – Com Leandro Karnal

O professor Leandro Karnal em  entrevista ao Poucas, falou sobre as negações de grupos de…

2 meses ago