Em 2009, a bióloga molecular Elizabeth Blackburn ganhou o Prêmio Nobel de Medicina por suas descobertas sobre os telômeros — estruturas que protegem os cromossomos e estão relacionadas ao envelhecimento celular e à prevenção de doenças como o câncer. Ao lado de Carol Greider e Jack Szostak, Blackburn demonstrou como a enzima telomerase mantém a integridade do DNA, revolucionando o entendimento da biologia celular e da longevidade.
Na entrevista concedida ao portal francês 20 Minutes, Elizabeth Blackburn falou com firmeza sobre a resistência que muitas mulheres enfrentam na carreira científica. Com a mesma clareza com que explica seus experimentos, ela denunciou os estereótipos de gênero que ainda marginalizam as cientistas. Segundo Blackburn, embora a ciência exija criatividade, colaboração e pensamento crítico — qualidades humanas universais — ainda há uma tendência histórica de associar o rigor científico ao masculino. Em suas palavras, “a ciência não é uma fortaleza masculina. É um campo de ideias, e ideias não têm gênero”.
Sob a ótica da fenomenologia política e social, o corpo feminino ainda é percebido como um “não lugar” dentro dos ambientes de poder, inclusive na ciência. A mulher, enquanto sujeito pensante, criadora e líder, continua submetida à negação simbólica — aquela que retira dela o reconhecimento público, histórico e acadêmico de seu saber. Essa invisibilização é reflexo de um processo mais amplo, estruturado em relações de poder que se alimentam do discurso midiático, da cultura institucional e da memória coletiva enviesada.
Mesmo quando mulheres conseguem atravessar as barreiras da formação e da carreira científica, seus nomes frequentemente são apagados das grandes descobertas. O chamado “Efeito Matilda” — a apropriação das contribuições femininas por homens — segue presente nas universidades, nos laboratórios e nas premiações. Casos como o de Rosalind Franklin, que contribuiu decisivamente para a descoberta da estrutura do DNA, e teve seu reconhecimento ofuscado por Watson e Crick, ecoam no tempo como advertência.
No universo midiático atual, ainda há uma lacuna representacional significativa. A maioria dos especialistas convidados a opinar em programas de ciência são homens. As mulheres aparecem com menos frequência, mesmo quando dominam o assunto. A mídia, ao reforçar estereótipos e omitir trajetórias femininas, colabora com o apagamento simbólico dessas cientistas.
Elizabeth Blackburn também pontua que, além dos desafios externos, há a síndrome do impostor, que afeta principalmente mulheres em ambientes masculinizados. Muitas passam a duvidar de sua competência, mesmo quando seus resultados são extraordinários. Isso leva a uma sub-representação nas lideranças científicas e acadêmicas — um ciclo que se retroalimenta.
Para romper com essa lógica, é preciso investir em políticas públicas de equidade de gênero nas ciências, na educação básica, nas universidades e também na cultura popular. Precisamos de currículos escolares que apresentem mulheres cientistas como referências, de premiações que valorizem seus nomes e de uma mídia que conte suas histórias com a mesma reverência que dedica aos homens.
Como defende Elizabeth Blackburn, o progresso científico exige diversidade de pensamento. E essa diversidade começa por reconhecer que o talento não tem sexo, e que o futuro da ciência será tanto mais brilhante quanto mais plural for o seu presente.
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