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“Meninos que Expressam Suas Emoções Crescem Menos Propensos a Ferir” – Com Cid Vieira

A infância é o terreno onde a humanidade finca suas raízes mais profundas. É ali, entre
o olhar dos pais e o som das primeiras palavras, que se desenha o que a criança entende
como amor, respeito e dignidade. Mas também é ali que ela aprende medo, controle e
desigualdade. Se desejamos um mundo mais justo e menos machista, precisamos
começar pela forma como educamos emocionalmente nossos meninos, e isso nasce,
necessariamente, dentro de casa.

John Bowlby, ao desenvolver a Teoria do Apego, mostrou que os primeiros vínculos
moldam o modo como nos relacionamos com o mundo. Um menino que cresce cercado
de afeto, cuidado e escuta aprende que o outro é digno de consideração. Já aquele que
vive em ambientes marcados por rigidez e silenciamento emocional, aprende que amor
é submissão e que poder vale mais que empatia. Assim, educar meninos para a equidade
exige vínculos seguros onde o cuidado seja parte do cotidiano, e não exceção.

Donald Winnicott reforça essa compreensão ao afirmar que o desenvolvimento
emocional saudável depende de um “ambiente suficientemente bom”: real, presente e
sensível. É nesse espaço que os meninos aprendem que podem sentir sem serem
ridicularizados. Quando um menino pode chorar sem ser corrigido, pedir colo sem
medo e errar sem ser humilhado, ele começa a confiar em si mesmo e no mundo.
Permitir que ele sinta é libertá-lo da velha armadura do machismo, que ainda tenta
sufocar a ternura masculina desde cedo.

A neurociência afetiva, especialmente nos estudos de Daniel Siegel, confirma o que a
psicologia já intuía: o cérebro da criança é moldado pelas experiências emocionais
vividas na relação com o cuidador. Cada gesto de empatia fortalece circuitos que
sustentam a cooperação, a autorregulação e a capacidade de reparar. Quando ensinamos
um menino a ouvir, cuidar e se responsabilizar, estamos ajudando a construir —
literalmente em seu cérebro — as bases de uma sociedade mais humana e colaborativa.

Nesse ponto, a psicanalista Elisama Santos faz um chamado precioso: ao dizer que
meninos “não são naturalmente cuidadosos”, reforçamos a ideia de que o cuidado é
destino feminino, não humano. Meninos emocionalmente educados tornam-se homens
que exercem poder com responsabilidade, não sobre os outros. A equidade de gênero
não depende apenas de empoderar meninas, mas de libertar meninos da rigidez
emocional, da vergonha da ternura e do medo da vulnerabilidade.

A equidade, porém, não se ensina apenas nos grandes discursos, ela nasce das pequenas
cenas do cotidiano. No pai que pede desculpas sem constrangimento. No menino que vê
o pai lavar a louça sem chamar isso de “ajuda”. Nos adultos que conversam com
respeito e se escutam genuinamente. Quando a criança presencia essas atitudes, aprende
que convivência é parceria e que poder não é dominação, mas responsabilidade
compartilhada.

Educar meninos, a partir do exemplo, para não reproduzirem o machismo é um ato de coragem e de amor. É mostrar que força e sensibilidade não são opostos, mas expressões complementares da mesma humanidade. É permitir que cresçam sabendo que cuidar não é fragilidade, mas maturidade, e nem destino de gênero, mas uma vocação humana.

A igualdade não nasce apenas das leis, mas das relações que nutrimos. E, como tudo o
que é vivo, ela floresce primeiro na intimidade da casa, no modo como tratamos uns aos
outros e no exemplo silencioso que damos diariamente. Se queremos um amanhã mais
justo, precisamos cuidar dos meninos que estão diante de nós hoje, porque homens que
aprenderam a sentir jamais verão poder como sinônimo de dominação.

Nota do autor:
Este texto dialoga com as contribuições de Bowlby, Winnicott, Siegel e Elisama Santos
para refletir sobre como a educação emocional dos meninos sustenta relações mais
éticas, igualitárias e humanas. É um convite a pais, educadores e profissionais do
cuidado para repensarem o papel da parentalidade na construção de uma sociedade
menos violenta e mais empática.

Referências:

  • BOWLBY, John. Apego e perda – Vol. 1: A natureza do vínculo. São Paulo:
    Martins Fontes, 2004.
  • WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre:
    Artmed, 1983.
  • SIEGEL, Daniel J. O cérebro da criança. São Paulo: nVersos, 2015.
  • SANTOS, Elisama. Homens, bem-vindos à vida adulta. 2022. Disponível em:
    https://elisamasantos.com.br/homens-e-a-vida-adulta/
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