Sociologia e Política

Negro ou Preto? É preto – Por Nabby Clifford

O dia 20 de novembro marca a morte de Zumbi dos Palmares, um dos símbolos nacionais pela resistência à escravidão e enfrentamento ao racismo.

Para bem refletirmos sobre este dia, precisamos questionar como se deve referir aos afrodescentes. É “negro” ou “preto”? Embora a primeira seja usada corriqueiramente, inclusive em documentos oficiais e acadêmicos, para o músico e ativista ganês radicado no Brasil Nabby Clifford, “preto” é o único termo aceitável.

“Um país, o Brasil, usa palavras como lista negra, dia negro, magia negra, câmbio negro, vala negra, mercado negro, peste negra, buraco negro, ovelha negra, a fome negra, humor negro, seu passado negro, futuro negro. Não deveria chamar uma criança de negro (…). Pega o dicionário de língua portuguesa, está escrito: negro quer dizer infeliz, maldito. Brasileiro quando valoriza alguma coisa não fala negro, ele fala preto”.

“Ele não come feijão negro, come feijão preto, o carro dele não é carro negro, o carro dele é carro preto, ele não toma café negro, toma café preto, a fome é negra, quando ganha na loteria, ganha uma nota preta. Se branco não é negativo, preto também não é negativo.

Mas negro não, negro é palavra 100% negativa, e atrasa, isso causa morte, causa miséria, doenças. Já que o mundo mudou, vamos mudar nossa linguagem também”, diz Clifford,neste vídeo. Confira:

A repercussão do vídeo provocou elogios mas também dúvidas a respeito de qual palavra seria a mais adequada – Por Marcos Sacramento

Uma pesquisa rápida sobre a militância racial permite ver que o termo “negro” e usado amplamente. Coletivos e grupos organizados assumem a palavra no nome e em textos. Por outro lado, é crescente o uso de “preto”, embora a palavra soe estranha a quem está fora da militância.

Em busca de respostas mais consistentes, recorri à amiga e ativista Mirtes Santos, do Coletivo Negrada. “Os negros que não estão no movimento e não compreendem o que o Clifford falou repudiam o ‘preto’, pois a palavra sempre foi usada como forma de agredir a identidade negra. O termo preto está sendo ressignificado”, explica Mirtes.

Contudo, esse processo não implica na repulsa à palavra “negro” nos moldes que os norte-americanos fizeram com “nigger”. A “n-word”, como eles chamam, era usada corriqueiramente, mas com o avanço das lutas dos movimentos pelos direitos civis foi desconstruída a ponto de se tornar tabu.

Talvez isso não venha a acontecer no Brasil, para desgosto de Clifford. O mais provável é que as duas palavras coexistam, porém sem a carga negativa que o racismo estrutural incrustou. Inclusive, expressões como “dia de preto”, “coisa de preto” ou “a coisa está preta” mostram que a palavra “preto” pode sim ser usada para perpetuar conceitos racistas.

E por mais que a palavra seja ressinificada e tenha seu sentido empoderado, dependerá do contexto para transmitir a mensagem completa, como mostram esses dois Tweets que achei enquanto pensava no texto e assistia Lewis Hamilton vencer o GP da Alemanha.

“E mais uma história de um preto que vence! Parabéns Lewis Hamilton…”;  “Na boa, nunca vi um preto tão charmoso, deve ser o único também, né, Lewis Hamilton?”.

O primeiro é um exemplo do uso inofensivo e empoderado de “preto”. Já o segundo, nem precisou de termos pejorativos para transbordar racismo.

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

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