Literatura

“Julgo que tudo é falso e o tempo é uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho”

Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.

Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho. Na recordação, que tenho da minha vida passada, os tempos estão dispostos em níveis e planos absurdos, sendo eu mais jovem em certo episódio dos quinze anos solenes que em outro da infância sentada entre brinquedos.

Emaranha-se-me a consciência se penso nestas coisas. Pressinto um erro em tudo isto; não sei, porém, de que lado está. É como se assistisse a uma sorte de prestidigitação, onde, por ser tal, me soubesse enganado, porém não concebesse qual a técnica, ou a mecânica, do engano.
Chegam-me, então, pensamentos absurdos, que não consigo todavia repelir como absurdos de todo. Penso se um homem que medita devagar dentro de um carro que segue depressa está indo depressa ou devagar. Penso se serão iguais as velocidades idênticas com que caem no mar o suicida e o que se desequilibrou na esplanada. Penso se são realmente sincrónicos os movimentos, que ocupam o mesmo tempo, em os quais fumo um cigarro, escrevo este trecho e penso obscuramente.
De duas rodas no mesmo eixo podemos pensar que há sempre uma que estará mais adiante, ainda que seja fracções de milímetro. Um microscópio exageraria este deslocamento até o tornar quase inacreditável, impossível se não fosse real. E por que não há o microscópio de ter razão contra a má vista? São considerações inúteis? Bem o sei. São ilusões da consideração? Concedo. Que coisa, porém, é esta que nos mede sem medida e nos mata sem ser? E é nestes momentos, em que nem sei se o tempo existe, que o sinto como uma pessoa, e tenho vontade de dormir.”
Bernardo Soares / Fernando Pessoa, em “Livro do Desassossego”
Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

Maravilhosa Sra Maisel: Quem você é quando para de ser o que os outros esperam?

Disponível na Prime Vídeo, Maravilhosa Sra. Maisel (Marvelous Mrs. Maisel) 2017, não é apenas uma…

2 dias ago

O gatilho acontece no presente. Mas quem reage é a criança ferida ainda inscrita no seu sistema nervoso

O trauma emocional pode ser compreendido como uma experiência psíquica que ultrapassa a capacidade de…

4 dias ago

“Uma criança não pode abrir ou fechar a porta do consentimento. Ela não alcança a maçaneta” – Com Neige Sinno

Durante séculos, a infância foi compreendida muito mais como um território de autoridade adulta do…

4 dias ago

O Despertar do Teko: Por uma Educação que Acolha a Existência – Com Sandra Benites

A educação brasileira atravessa uma crise que vai além dos índices escolares, dos rankings e…

7 dias ago

Viver em um gênero que não te conforta só para o conforto alheio, é uma covardia consigo mesmo

A história da humanidade é, fundamentalmente, a história da nossa busca por um contorno. Desde…

1 semana ago

Japão cria Ministério da Solidão para prevenir mortes solitárias entre as pessoas idosas

O século XXI nos impõe um paradoxo civilizatório: nunca estivemos tão hiperconectados e, ao mesmo…

2 semanas ago