Historicamente, o conceito de “infância” como uma fase distinta da vida é uma construção relativamente recente. Até o século XVII, como descreve o historiador Philippe Ariès em sua obra clássica “História Social da Criança e da Família” , as crianças eram vistas como “pequenos adultos”, compartilhando vestimentas, trabalhos e conversas sem qualquer filtro protetivo. Foi apenas com o Iluminismo e a modernidade que a sociedade passou a compreender a criança como um ser em desenvolvimento, exigindo um espaço de resguardo e cuidado. No entanto, no Brasil e no mundo contemporâneo, assistimos a um fenômeno de “re-adultização”. Sob o manto da modernidade e da hiperconectividade, a fronteira entre o mundo infantil e o adulto torna-se perigosamente tênue, manifestando-se de forma insidiosa em práticas como o estímulo ao “namoro infantil”.
Sob a ótica da psicanálise clássica, a infância é protegida pelo que Sigmund Freud denominou “período de latência”. Esta fase, que ocorre aproximadamente entre os seis anos e a puberdade, é um hiato fundamental onde as pulsões sexuais são sublimadas em prol do aprendizado, da criatividade e da socialização. Quando adultos incentivam “namoros” entre crianças, eles provocam um curto-circuito nesse processo. A energia que deveria estar voltada para a construção da subjetividade e para o brincar é precocemente canalizada para uma performance de sexualidade adulta para a qual a criança não possui maturidade biológica nem emocional.
O sociólogo Neil Postman, em sua tese “The Disappearance of Childhood” (A Desaparição da Infância), já alertava que a exposição indiscriminada ao conteúdo adulto — intensificada hoje pelas redes sociais — eliminaria os segredos que separavam as gerações. No Brasil, observamos isso na ascensão dos “mini-influenciadores”, crianças que mimetizam comportamentos, vocabulário e dilemas amorosos de adultos para gerar engajamento. Essa espetacularização transforma etapas vitais de crescimento em conteúdo descartável, onde o “namoro de brincadeirinha” é usado como um adereço para o deleite estético dos seguidores, ignorando o impacto psíquico da perda da privacidade e da espontaneidade.
A American Psychological Association (APA), em um de seus estudos mais abrangentes (Report of the APA Task Force on the Sexualization of Girls), demonstra que a imposição de padrões de sexualidade adulta a crianças está diretamente ligada ao aumento de taxas de ansiedade, depressão e distúrbios de imagem corporal. Ao tratar o “namoro” como algo lúdico, os responsáveis podem estar, inadvertidamente, validando a ideia de que o valor da criança reside em sua capacidade de atrair ou de estar em um relacionamento, fragilizando a construção de sua autoestima e de seus limites corporais.
Muitas vezes, a “brincadeira” de namoro revela mais sobre as carências e o narcisismo dos adultos do que sobre os desejos da criança. A psicoterapeuta Marie-France Hirigoyen discute como a sociedade contemporânea frequentemente utiliza o outro — inclusive os filhos — como um espelho para sua própria satisfação. Projetar uma vida amorosa em uma criança é uma forma de violência simbólica: retira-se dela a alteridade (o direito de ser diferente do adulto) para transformá-la em um objeto que encena uma comédia romântica para o entretenimento familiar.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é enfática em seus manuais: criança precisa de tempo, de ócio e, acima de tudo, de brincar de forma desinteressada. O Marco Legal da Primeira Infância e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no Brasil reforçam o dever da família e do Estado em zelar pela dignidade desses sujeitos. Brincar de “namorar” não é uma brincadeira simbólica saudável, como brincar de “casinha” ou de “médico”, pois o namoro pressupõe uma intenção sexual e uma exclusividade possessiva que pertencem ao universo da maturidade, e não à exploração lúdica do mundo.
Respeitar a infância é, antes de tudo, um ato de alteridade. É compreender que a criança habita um tempo diferente, onde um abraço é apenas um abraço e a amizade é a forma mais pura de conexão. Não precisamos de “namorados” de 7 anos; precisamos de crianças que corram, que se sujem, que questionem e que não tenham pressa de crescer. Ao protegermos o tempo de latência e o direito ao brincar, estamos preservando a saúde mental de futuros adultos. Que possamos ser os guardiões dessa fronteira, permitindo que a infância seja o território sagrado da descoberta, livre das projeções e das pressões do mundo maduro.
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