A história das mulheres é, em muitos aspectos, a história de aprender a existir. Entre séculos de silenciamentos e papéis impostos, muitas foram ensinadas a duvidar de si mesmas, a calibrar o próprio valor pelo olhar do outro e a esconder o que sentem para caber na moldura social do aceitável. A autoestima feminina, nessa perspectiva, não é apenas um afeto; é uma construção histórica, um gesto político e um movimento interno que começa na relação primária com a mãe, passa pelo espelho do mundo e se revela na coragem de ocupar o próprio corpo sem pedir licença.
Do ponto de vista psicanalítico, o amor próprio não nasce pronto. Ele é resultado das primeiras experiências de acolhimento e frustração, da forma como a criança aprendeu a sobreviver às faltas e a lidar com suas partes que não foram vistas, nomeadas ou reconhecidas. Para as mulheres, esse processo é atravessado por expectativas culturais: ser forte, mas dócil; ser assertiva, mas não demais; ser cuidadora, mas silenciosa sobre as próprias dores.
Quando uma mulher inicia o caminho do autoconhecimento, ela não está apenas olhando para dentro; está, na verdade, desfazendo nós seculares e reconstruindo sua narrativa em primeira pessoa. É uma jornada de desfazer fantasmas e aprender, como diria Clarissa Pinkola Estés, a correr com os lobos internos sem se desculpar por existir inteira.
É nesse contexto que a frase de Viola Davis ressoa como um manifesto íntimo:
“Eu não sou perfeita. Às vezes eu não me sinto bonita. Às vezes eu não quero matar dragões. Às vezes o dragão que estou matando sou eu mesma. Mas, merda!, eu valho a pena. Eu não tenho que barganhar pelo meu valor. E eu não devo isso a ninguém. Porque eu já saí do útero da minha mãe valiosa. Hoje eu sei que o meu valor não é recompensa, é origem”.
Há aqui uma síntese brilhante da luta feminina por identidade e pertencimento. O dragão interno é a autocrítica feroz, os traumas, a fome de reconhecimento, o medo de não ser suficiente. E, ainda assim, ela afirma: “eu valho”.
Viola Davis não fala de um lugar teórico. Ela fala da vida. De uma infância marcada pela fome, pela pobreza, pelo racismo e pela violência, e de uma adolescência em que a invisibilidade parecia uma sentença. No entanto, a arte lhe deu um idioma para as dores que ainda não tinham nome.
No livro Em Busca de Mim, ela faz aquilo que poucas autobiografias têm coragem: contar a verdade sem polir, sem romantizar a miséria e sem transformar sofrimento em decoração motivacional. Viola não narra uma jornada linear de superação, e sim um processo. Ela enfrenta a criança ferida, a mulher desacreditada, a atriz rejeitada, a vergonha acumulada na pele, nos cabelos, no corpo, na cor.
Em entrevistas e palestras, ela insiste em um ponto fundamental: encontrar-se é um ato diário. É uma decisão que inclui confrontar o espelho, reconhecer fantasmas, ressignificar memórias e permitir que a própria voz ocupe o espaço que sempre lhe foi negado. Em sua fala, ecoa a convicção de que autoestima não é ornamento, mas sobrevivência.
E foi exatamente por isso que sua autobiografia se tornou tão essencial para mulheres do mundo inteiro: porque ela nomeia o inominável, legitima o indizível e devolve dignidade às partes que a sociedade costuma esconder.
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