Psicologia e Comportamento

Se a IA transforma corpos humanos em objetos de escárnio, isso não diz nada sobre avanço tecnológico, mas diz tudo sobre o declínio civilizatório humano

Nos últimos meses, uma série de reportagens publicadas na imprensa nacional e internacional tem acendido um alerta preocupante. Ferramentas de inteligência artificial vêm sendo utilizadas para manipular imagens de pessoas reais, criando montagens sexualizadas, degradantes ou íntimas sem qualquer consentimento. Em muitos casos, basta uma fotografia comum para que corpos sejam “despidos” digitalmente, inseridos em contextos falsos e expostos em plataformas digitais como se fossem reais.

Essas notícias ganharam ainda mais gravidade ao revelarem que mulheres comuns, figuras públicas e até crianças e adolescentes têm sido vítimas desse tipo de violação. As imagens circulam rapidamente, muitas vezes antes de qualquer moderação, gerando danos emocionais profundos e difíceis de reparar. Mais do que falhas tecnológicas, esses episódios escancaram um problema ético, social e humano que precisa ser discutido com seriedade.

É nesse cenário que se insere a reflexão a seguir. Mais do que falar sobre tecnologia, ela nos convida a olhar para o adoecimento social que se manifesta quando corpos, identidades e subjetividades passam a ser tratados como matéria-prima descartável no ambiente digital.

Vivemos um tempo em que a inteligência artificial amplia possibilidades extraordinárias, mas também escancara, de forma inquietante, aquilo que há de mais adoecido em nossa sociedade. O uso dessa tecnologia para manipular imagens, despir corpos de adultos e crianças e inseri-los em contextos falsos, degradantes e violentos não pode ser tratado como um simples desvio tecnológico ou uma provocação irresponsável. Trata-se de uma forma contemporânea de violência, silenciosa e profundamente invasiva, que fere a dignidade, a identidade e a saúde mental de pessoas reais.

Quando a violação não é apenas digital

Quando alguém tem sua imagem manipulada dessa maneira, não ocorre apenas uma violação digital. O que se rompe é a sensação básica de segurança sobre o próprio corpo e sobre a própria existência. Mesmo sendo uma imagem falsa, o impacto emocional é verdadeiro e, muitas vezes, devastador. A pessoa perde o controle sobre sua própria narrativa e passa a conviver com o medo constante da exposição, do julgamento e da revitimização. O que está em jogo não é apenas o que foi feito com a imagem, mas o que isso produz na subjetividade de quem foi violado.

Esse tipo de prática revela menos sobre a tecnologia em si e muito mais sobre quem a utiliza. Por trás dessas manipulações, há uma combinação perigosa de desejo de controle, objetificação do outro e ausência de limites éticos. Pessoas deixam de ser reconhecidas como sujeitos com história, vínculos e sentimentos e passam a ser tratadas como objetos moldáveis, disponíveis para satisfazer impulsos, fantasias ou interesses financeiros. O ambiente digital, marcado pelo anonimato e pela sensação de impunidade, acaba por enfraquecer freios morais e favorecer comportamentos que dificilmente seriam sustentados em contextos presenciais.

Os impactos psíquicos e o risco para crianças e adolescentes

Os impactos na saúde mental das vítimas são profundos. Ansiedade, depressão, retraimento social, vergonha intensa e sintomas traumáticos aparecem com frequência. A sensação de que a própria imagem pode circular indefinidamente, fora de qualquer controle, gera um estado contínuo de ameaça psicológica. Não se trata de um medo passageiro, mas de uma experiência que compromete a confiança no mundo, no outro e em si mesmo.

No caso de crianças e adolescentes, os danos são ainda mais graves. Estamos falando de um psiquismo em formação, de identidades que ainda estão se organizando e de uma relação com o próprio corpo profundamente atravessada pelo olhar do outro. Quando esse olhar é violento, invasivo e desumanizador, as marcas podem comprometer autoestima, limites corporais, confiança e vínculos afetivos ao longo da vida. Diante disso, a pergunta deixa de ser individual e se torna coletiva: que tipo de proteção real estamos oferecendo às nossas crianças no ambiente digital?

O sofrimento enriquece mercado

A situação se torna ainda mais alarmante quando esse tipo de violência passa a ser explorado como mercado. Há quem produza, divulgue e comercialize esse conteúdo, transformando sofrimento humano em mercadoria. Essa lógica predatória revela uma sociedade que, em certos contextos, parece perder completamente a capacidade de empatia. O outro deixa de ser humano e passa a ser apenas um meio para obtenção de lucro, cliques ou poder simbólico.

Esse fenômeno não afeta apenas as vítimas diretas. Ele corrói a confiança coletiva, fragiliza as relações sociais e produz um ambiente de medo e silenciamento. Quando qualquer imagem pode ser forjada, passamos a desconfiar do que vemos, do que compartilhamos e até da nossa própria existência no espaço digital. A normalização desse tipo de abuso transmite uma mensagem perigosa: a de que a dignidade humana pode ser relativizada, negociada ou descartada.

A tecnologia, em si, não é o problema. Ela apenas amplia aquilo que já existe. O risco real surge quando os avanços técnicos caminham mais rápido do que nossa capacidade ética, emocional e social de lidar com eles. Usar inteligência artificial para violar corpos, imagens e subjetividades revela a urgência de falarmos menos apenas sobre inovação e mais sobre responsabilidade, empatia e limites.

Mais do que leis eficazes, precisamos de educação digital, de apoio psicológico às vítimas e de uma cultura que não naturalize o abuso em nenhuma de suas formas. No fim das contas, essa discussão nos convoca a uma pergunta essencial, que não pode mais ser adiada: que tipo de sociedade estamos construindo quando o sofrimento de pessoas reais se transforma em entretenimento ou produto?

A inteligência artificial não cria monstros sozinha. Ela apenas revela, com uma transparência assustadora, aquilo que escolhemos ser quando ninguém está olhando.

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Violence and mental health.
  • UNICEF. Proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
  • American Psychological Association (APA). Psychological impact of image-based abuse and digital exploitation.
  • SaferNet Brasil. Violência online, exploração de imagens e saúde mental.
  • Zuboff, S. The Age of Surveillance Capitalism.
  • Bauman, Z. Vida líquida.

 

Cid Vieira

Cid Vieira é educador parental, especializando em Parentalidade Positiva.

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