Psicologia e Comportamento

Se não me quis sob chuva, não apareça quando fizer sol

Caso sejamos nós deixados para trás por conta da covardia do parceiro, que não ficou para enfrentar junto o que poderia ter sido feito, teremos que esquecer e continuar, sem esperar de volta quem optou por seguir pelo outro lado, sozinho. Já era, já foi.

É tão fácil ser feliz e gostar das pessoas quando tudo vai bem, quando não há problemas, quando a grana não está curta, ou seja, muito da calmaria interior tem a ver com o tempo lá de fora. Por isso é que poucos relacionamentos, sejam eles de amizade, de trabalho, de amor, conseguem atravessar os piores momentos que toda e qualquer vida irá apresentar.

Nós não estamos acostumados a sofrer, pois, desde pequenos, vamos sendo poupados das dores físicas e emocionais, por parte, principalmente, de nossos pais. Nosso choro, desde a mais tenra idade, é entendido como uma poderosa força que nos livra de problemas. Vamos crescendo sob a proteção, muitas vezes exagerada, daqueles que nos guardam sob suas poderosas asas.

No tempo atual, principalmente, há muita superproteção em torno das crianças, muito provavelmente porque essa vida corrida obriga pais e mães a passarem muito tempo fora de casa, o que lhes deixa com sentimento de culpa, mesmo que inconscientemente. E, então, vão mimando os filhos exageradamente no pouco tempo juntos que lhes resta, preparando os adultos mimados que serão.

Muitas pessoas acabam se tornando adultos intolerantes com qualquer frustração com que se deparam, não conseguindo lidar com os inúmeros “nãos” que a vida se encarrega de nos trazer, inevitavelmente.

Em vez de tentar digerir a dor, com os sentimentos que se tem, recorre-se a pílulas, a bebidas ou a qualquer outra substância que amorteça os sentidos. Infelizmente, isso jamais será capaz de trazer amadurecimento e fortalecimento interior a qualquer pessoa.

Por isso é que, em vez de enfrentarmos a dor e a frustração com a cara limpa e a coragem de nossas verdades, muitos de nós acabamos por fugir ao que se coloca à nossa frente, desviando-nos do que deve ser encarado e resolvido, seguindo por outros caminhos, que apenas camuflam os problemas que continuarão ali, minando nossas forças e nos impedindo de crescer.

E é assim que muitos relacionamentos acabam terminando, mesmo quando ainda existe amor, mesmo quando há tanta coisa boa a ser partilhada, ainda que houvesse soluções que pudessem manter as pessoas juntas.

Muita gente prefere cair fora, desistir, partir para outra, porque dói manter as mãos entrelaçadas enquanto chove torrencialmente sobre nossas cabeças. E a gente rompe, anda para trás, deixa o outro sozinho, enquanto inutilmente acaba levando o problema, aqui dentro, aonde quer que estejamos indo.

Caso sejamos nós deixados para trás por conta da covardia do parceiro, que não ficou para enfrentar junto o que poderia ter sido feito, teremos que esquecer e continuar, sem esperar de volta quem optou por seguir pelo outro lado, sozinho. Já era, já foi.

Então será o momento de nos recompormos e de, novamente inteiros, partirmos em busca do verdadeiro amor de nossas vidas, um amor que nos acolherá com verdade e reciprocidade, faça chuva, faça sol. E assim será.

Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

Recent Posts

Neurobiologia do autoengano: o cérebro não interpreta a realidade apenas, ele também a constrói

Pare por um instante. Preste atenção na sua respiração agora e nessa calma fingida da…

4 dias ago

Eu ainda sou aquela criança que brincava na poça d’água como se navegasse num oceano

Eu estou sempre perdendo coisas. Quando eu preciso de caneta, não sei o que me…

2 semanas ago

Os postais propagandas de 1900 a 1914 que mostram como o machismo foi disseminado

A luta pelos direitos das mulheres se cruza, em diferentes momentos, com outras lutas por…

2 semanas ago

5 maneiras de desconstruir em si mesma o mito da mulher infalível – Com Gabor Maté

Quando o corpo diz basta: o adoecimento das mulheres e o mito do normal Por…

1 mês ago

As 10 Melhores Séries de Drama para Maratonar Agora

Quando o assunto é drama de qualidade, poucos gêneros conseguem prender a atenção como aquele…

1 mês ago

Sem acessibilidade para denunciar, o Estado se torna cúmplice da violência sofrida por mulheres com deficiência

Certas existências a história registra como extraordinárias, transformando-as em pontos de admiração da humanidade. Outras,…

2 meses ago