Psicologia e Comportamento

Se você tem coração de ferro, parabéns! O meu sangra todo dia

Você liga e seu filho não atende, o coração dispara. Seu telefone toca e aparece no visor o nome da escola, seu coração quase para. Sua irmã não chegou em casa na hora combinada, falta o ar. Seu noivo não responde uma mensagem, você se preocupa. Sua mãe passa mal e você perde o chão. Seu pai não está bem, você sente-se mal.

Provavelmente não sou a única que prevejo coisas ruins e sinto calafrios quando, simplesmente, alguém que amo não atende um telefonema ou não responde uma mensagem. Só quem ama se importa. Em estar presente, em ver o outro feliz, em saber se já chegou, se já comeu, que horas volta. Em chegar mais rápido em casa para jogar conversa fora, comprar uma barra de chocolate que o outro adora ou apenas fazer uma visita relâmpago para ganhar aquele abraço aconchegante.

O amor, queridos, é bom. Mas é também uma fonte de dor inesgotável. É fonte de saudade, de desavenças, de desentendimentos, de controvérsias, de preocupações, de expectativas, de conciliações, de consensos, ponderações e muito aprendizado. Porque só quem ama se importa. Com o que o outro sente, o que o outro deseja, o que o outro fala.

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”. José Saramago

Cuidamos dos nossos amigos, familiares e amores, mesmo que, por vezes, de maneira sufocante, não por eles, mas por nós mesmos. Seria possível viver sem essas pessoas que povoam nossas vidas, fazem parte da nossa jornada e estão conosco todos os dias? Ainda que todos os dias não sejam presencialmente, 24h por dia?

Imagine como seria encantadora a vida se não nos importássemos com nada nem ninguém? Não conheceríamos o desespero, nem com um familiar internado no hospital nem com uma ligação não atendida. Nem nos preocuparíamos nunca em avisar coisa alguma. Se a pessoa amada traiu, mentiu, não apareceu, caiu, passou mal, também não iria significar coisa alguma. Seríamos indiferentes. E viveríamos uma liberdade inigualável. Mas é possível viver sem se importar? Sem ter a quem amar? Sem ter com quem se preocupar?

As pessoas que amamos vão sofrer, se frustrar, adoecer, morrer e nos trair. Independente da nossa vontade e de todo amor e cuidado que dedicamos a elas. E, inevitavelmente, sofreremos com isso. E, ao mesmo tempo em que amar nos faz sofrer, amar nos torna humanos. Faz-nos perceber o quanto somos pequenos diante do mundo e de todos os seus acontecimentos. Porque, demonstrando nosso total egoísmo, cuidamos deles por nós mesmos.

“O outro é uma complementaridade que nos torna a nós maiores, mais inteiros, mais autênticos. Essa é a minha própria vivência”. José Saramago

Quem amamos e por quem choramos até nos afogar em nossas próprias lágrimas e ver o corpo desidratar e doer? Mas a dor nos faz vivos. E nos dá forças para recomeçar. Seja lá o que isso venha a significar. E, amando os outros e a nós mesmos, conseguimos nos colocar no lugar das pessoas que nem sequer conhecemos. Ou nunca vimos. Porque só quem ama se importa.

Por mais que amar, às vezes, cause sofrimento ou nos sufoque, a vida seria desoladora se não tivéssemos com quem nos importar. E se não existisse alguém que se importasse conosco. Porque é o amor que faz a vida valer a pena.

Texto de Giseli Rodrigues 

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

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