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Adolescência e Família: vínculo que cura e salva, vínculo que adoece e exclui

A família é a estrutura que possibilita ao ser humano entrar mundo, mas, paradoxalmente, é a mesma que pode condená-lo à servidão, ao abuso ou mesmo à morte (real ou subjetiva). Não por acaso, Freud cria a sua psicanálise escutando os pacientes denunciarem abusos, traumas e intrigas familiares. Vista sob a ótica freudiana, a família não é um ninho seguro e amoroso que cuida e acolhe, mas, sobretudo, a fonte primeira de nossos traumas e sofrimentos.

A família é o maior adoecedor da psique das crianças e dos adolescentes

É por isso que a romantização da família é um erro. É ingênuo acreditar que ela seja boa em si. A melhor família é aquela que compreende seu componente perverso, e que, por isso, se ocupa em lançar os filhos para fora de si.

A família é uma espécie de mal necessário, que precisa ser superada por cada um no seu esforço de maturidade. O pai (simbólico/dominador) sempre precisará ser ‘morto’ por cada um e a cada vez. Este foi o argumento freudiano ao retomar o Édipo para falar da família nuclear. O Édipo nunca foi uma história bobinha sobre papai, mamãe e filhinho, como se interpreta por aí. Sendo assim, todo discurso que busca romantizar a família ou promover o resgate de um pai ideal – perfeito ou poderoso – segue o caminho contrário do movimento civilizatório, e facilita a perversão. Não por acaso os abusadores mais comuns de mulheres e crianças são os pais, padrastos, tios ou seus substitutos: padres, pastores, gurus ou líderes de qualquer espécie.

Não qualquer família, obviamente, mas a família ideal do patriarcado composta por pai/homem, mãe/mulher e filhos/heteronormativos. Tal família é considerada a fonte de todo o bem e toda a virtuosidade, cabendo a ela a tarefa de cuidar, inclusive, da educação sexual das crianças, ou até mesmo assumir a escolarização das mesmas, por meio do chamado ‘ensino domiciliar’. 

A escolarização de todas as crianças deve feita fora do núcleo familiar

Garantir que a escolarização de todas as crianças seja feita fora do núcleo familiar, não é apenas uma forma de democratizar o acesso ao ensino formal, é ainda mais básico: é proteção elementar contra a tendência familiar perversa, é civilizatório, é promotor de saúde mental e de segurança para nossas crianças.

A interdição do incesto – lei que funda a civilização – diz basicamente o seguinte: as questões relativas à sexualidade devem ser vivenciadas e aprendidas fora do núcleo familiar. E se compreendemos que sexualidade não é apenas sexo, mas todo laço feito fora das relações incestuosas, compreendemos a importância da escola como lugar social para a criança.

Papai e mamãe são aqueles que apresentam a criança ao mundo, o desejo deles nessa empreitada é importante e fundamental, mas é igualmente importante que tal criança seja endereçada para fora. E se ela não for endereçada (quem trabalha em qualquer política ou instituição que lida com a infância tem notícia de crianças ‘aprisionadas’ em famílias perversas, onde sofrem abusos de todo tipo), é necessário que seja resgatada pela sociedade; trata-se do pacto civilizatório assumido um dia. Papai e mamãe amam suas crianças na mesma medida em que podem subjugá-las, massacrá-las e adoecê-las. Lugar de toda criança é na escola, sim! Não pode haver nenhuma dúvida quanto a isso.

Texto de Rita Almeida, psicóloga e psicanalista com ênfase nos seguintes temas: psicanálise, saúde pública, saúde mental, educação, educação inclusiva, teorias da aprendizagem.

Leia mais: 10 maneiras de ensinar a criança a se defender de abusadores

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