“Einstein, John Lennon, Gillian Lynne, Steve Jobs. Você conhece pelo menos três desses personagens que mudaram histórias, cada um na sua área. O que eles têm em comum? Infâncias difíceis, rebeldia, problemas na escola. Steve Jobs dizia: ‘Na terceira série nós basicamente destruíamos o professor. Nós deixávamos cobras na sala e explodíamos bombas’.
Einstein demorou para falar, e seu apelido na época era ‘dopado’. O diretor da sua escola disse aos pais que ele ‘seria medíocre em qualquer coisa que fizesse’. John Lennon era ‘um menino brilhante, mas impossível’, diziam os professores. Foi punido várias vezes por ‘atrapalhar as aulas, brigar e provocar’. Não tinha interesse nas matérias.
E a mulher? Ela é Gillian Lynne. Na infância era desatenta e inquieta, não parava sentada, atrapalhava as aulas, péssimas notas. A escola pediu que a mãe a levasse ao médico. Depois de observar a criança, o médico lhe pediu que esperasse, pois ele precisava falar com sua mãe lá fora. Ligou o rádio e saiu. Pediu que a mãe observasse a filha pela fresta da porta: ela fazia piruetas, dançando ao som do rádio. O diagnóstico: sua filha não é doente, é uma bailarina.
Ele prescreveu dança! Resultado: a mãe deu espaço para a vocação da filha, que se tornou uma bailarina famosa e coreógrafa de grandes musicais (Cats, Fantasma da Ópera e outros).
Agora imaginem essas crianças hoje. Sem espaço e praças para brincar, indo a shopping em vez de parque. Confinadas em casa. Mergulhadas em telas, passivas, hipnotizadas. Passando o dia sentadas, em escolas integrais com pouco recreio e atividade física ou artes, fazendo tarefas. Comendo ultraprocessados e açúcar em enorme quantidade. E claro, com todos esses fatores, ainda mais difíceis: irritadas, desatentas, hiperativas, sem foco, engordando, insones…
Estariam talvez tomando ‘remédios’ para seu comportamento. Remédios que, se necessários para alguns, para outros fazem mal, porque normatizam um “mau” comportamento que na verdade é a reação a uma infância opressiva.
Vamos ficar atentos a quem são nossos filhos e o que querem nos dizer com seu comportamento. E aceitá-los como são. Em vez de medicalizá-los, oferecer uma infância melhor, mais rica em conexão, brincar criativo, natureza e afeto”.
Texto extraído da página oficial de Daniel Becker, pediatra, mestre em Saúde Pública pela FIOCRUZ, ex pediatra do Médicos sem Fronteiras na Tailândia e um dos criadores do Programa de Saúde da Família.
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