Literatura

Clarice Lispector: “Minha coragem, inteiramente possível, me amedronta”

Se eu me demorar demais olhando Paysage aux Oiseaux Jaunes(Paisagens com Pássaros Amarelos, de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade.

O hábito que temos de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um apoio para as mãos. Então reconheço que há poucos homens livres. Olho de novo a paisagem e de novo reconheço que covardia e liberdade estiveram em jogo.

A burguesia total cai aos se olhar Paysage aux Oiseaux Jaunes. Minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Começo até a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. E que a possibilidade, a que é verdadeiramente, não é pra ser explicada a um burguês quadrado. E à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá perder a coragem, estará perdendo a liberdade. Les Oiseaux Jaunesnão pede sequer que o entenda: esse grau é ainda mais liberdade: não ter medo que não ser compreendido.

Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E, antes de aprender a ser livre, eu aguentava – só para não ser livre.

Clarice Lispector em “Medo da libertação” – extraído de “A Descoberta do Mundo”.

Paysage aux Oiseaux Jaunes

 

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

Sem acessibilidade para denunciar, o Estado se torna cúmplice da violência sofrida por mulheres com deficiência

Certas existências a história registra como extraordinárias, transformando-as em pontos de admiração da humanidade. Outras,…

3 semanas ago

Grupos antivacinas devem perder o direito de ter filhos – Com Leandro Karnal

O professor Leandro Karnal em  entrevista ao Poucas, falou sobre as negações de grupos de…

4 semanas ago

Uma pessoa não prospera com um cérebro em ameaça constante: ela apenas sobrevive

Uma pessoa não prospera com um cérebro em ameaça constante. Ela apenas sobrevive. Se olharmos…

1 mês ago

Agosto Lilás: Em que Lugar do Mundo uma Mulher está Realmente Segura?

Em que Lugar do Mundo uma Mulher está Realmente Segura? A formulação dessa indagação carrega,…

1 mês ago

AGOSTO LILÁS: O autoextermínio entre as mulheres vítimas de violência doméstica

"Você sabia que os feminicídios e os suicídios representam 83% da causa de morte entre…

1 mês ago

Tire o Tablet e o Celular do seu Filho e dê a ele um Instrumento Musical – Alvaro Bilbao

O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao, especialista em desenvolvimento cerebral infantil e autor do livro "O…

1 mês ago