A escritora, psiquiatra e palestrante, Ana Beatriz Barbosa, em entrevista ao site A Tribuna, nos convida a cultivar filhos resilientes e com propósito. Em vez de oferecer tudo, devemos oferecer desafios, presença real, tempo de qualidade e alfabetização emocional. A criança bem preparada, orientada e com vivência emocional saudável terá força para lidar com um mundo em constante mudança e encontrará sustentação na própria capacidade criativa, curiosa e conectada ao que faz sentido.
Compreendemos que um dia você idealizou que daria para o seu filho tudo o que você não teve na sua infância e juventude, e, por isso, luta muito financeiramente para que não lhe falte coisa alguma. Assim, você tenta barganhar a sua ausência afetiva, com presentes.
Tentar barganhar a sua presença com um presente é um jeito covarde de ofender a inteligência emocional da criança. Entenda, é a sua presença que é um presente para a criança e não o contrário. Mesmo porque você não pode se esquecer de dar ao seu filho algo que, possivelmente, você também não teve: ‘tempo para estar junto‘.
É importante compreender que ao presentear uma criança com seu tempo, você está lhe ofertando uma coisa de valor inestimável. Com este gesto você dize que a ama, que a valoriza e que gosta muito de desfrutar da companhia dela.
Dedicar tempo às crianças não significa dar-lhes o celular, abrir um vídeo ou um
jogo no tablet ou ligar a televisão no seu canal favorito. Tampouco, é
auxiliar nas tarefas escolares, ou um beijo de boa noite, ou sentar-se para dar conselhos e repreensões. Dedicar tempo à criança é entender a diferença entre dedicar atenção obrigatória à ela e criar tempo livre para estar ela.
Quando você dedica tempo para estar com uma criança, ela descobre que você deu a ela algo que não se pode recuperar, ou seja, algo de muito valor que foi dedicado especialmente à ela.
A infância é uma das etapas mais importantes da vida em que o tecido da nossa
evolução está entrelaçado. Assim, as crianças estão imersas em milhares de
mudanças que às vezes os adultos nem percebem e que, portanto, perdemos se
não estivermos atentos.
Educar e compartilhar momentos “em fogo lento” significa respeitar seus ritmos,
dando-lhes espaço para se desenvolverem, sem pular etapas, crescendo e
evoluindo sem o estresse e a exigência que geramos em torno deles.
Essa perspectiva educacional é baseada na filosofia slow, que manifesta a
necessidade de privilegiar um ritmo de vida mais calmo, promovendo assim a
maturidade, a evolução e a criação de vínculos a partir da progressão natural da
criança, sem pressa.
Isto é conseguido apoiando a criança em cada passo, não forçando seus
estágios evolutivos e oferecendo oxigênio psicológico à sua educação,
esquecendo-se da marcação e impregnação de cada pequeno aprendizado,
toda demonstração de afeto e a cada coleção de motivos.
A pressa é nossa pior conselheira. Ela é responsável por roubar os momentos
mais preciosos e os mais maravilhosos detalhes da magia da infância. Agora, se
pararmos para pensar, talvez possamos remediar isso.
Alguns pais substituem suas presenças por atribuições, encarregando os filhos
de compromissos para preencher o tempo que eles não podem (ou não querem)
dedicar, então inscrevem seus filhos nos mais variados cursos. Talvez nem se
deem conta do que estão perdendo em não ver o passo a passo do crescimento
dos filhos.
Deveres, arrumar a casa, tomar banho, futebol aos seis, aniversários às oito,
jantar às dez … O dia todo a correr … e a galope. O que queremos alcançar com
isso? Nossos filhos estão gostando? Estamos conscientes do que estamos
perdendo e do que estamos fazendo com que eles percam?
Provavelmente não. Devemos fazer o exercício de refletir se oferecemos tempo
aos nossos filhos, se brincarmos com eles o suficiente e se organizarmos o seu
dia a dia reservando momentos em que nos dedicamos exclusivamente a eles e
a nós em conjunto.
Assim, é importante que:
Tudo isso são coisas que não demandam muito do nosso tempo se quisermos
mesmo fazer. Mas é bom se programar para passar um tempo maior juntos.
Não deixemos que a criação de nossos filhos seja marcada pela pressa ou
maus hábitos que existem hoje. O melhor presente não é o centro de comando
dos desenhos de moda ou os mais recentes bonecos da Disney. O melhor
presente é compartilhar com eles o bem mais precioso que existe na vida e que
nunca retorna: o tempo.
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