A restrição ao uso de celulares e dispositivos eletrônicos conectados à internet nas escolas brasileiras reacendeu um debate urgente sobre os impactos dessas tecnologias na saúde mental, no aprendizado e na qualidade das relações humanas. Mais do que uma decisão administrativa, a medida reflete um movimento respaldado por pesquisas científicas, experiências internacionais e dados alarmantes sobre o sofrimento psíquico de crianças e adolescentes.
No Brasil as normativas do Ministério da Educação, em consonância com legislações estaduais e municipais aprovadas ao longo de 2024 e 2025, passaram a orientar sobre restrição do uso de celulares e dispositivos eletrônicos conectados à internet em escolas no Brasil.
A medida se baseou em pesquisas e estudos científicos que relacionam o uso desses dispositivos a prejuízos na saúde mental e física de crianças e adolescentes, como aumento da depressão, ansiedade, sintomas psicossomáticos, automutilação e distorção da imagem (principalmente entre as meninas), além da piora no aprendizado e na concentração.
Um dos principais argumentos a favor da proibição é o efeito viciante das redes e o impacto do uso excessivo no ambiente escolar, tanto nas relações entre alunos e professores quanto no aprendizado.
Depois de um ano de vigência da lei federal que restringe o uso de celulares nas escolas brasileiras, começam a surgir sinais concretos de mudança no cotidiano escolar tanto no Brasil quanto em experiências relatadas no exterior.
No Brasil, dados de pesquisas com alunos, professores e gestores indicam que a maior parte dos estudantes relata maior atenção em sala de aula, mais socialização e menos interrupções causadas por aparelhos, com percentuais especialmente elevados nos anos iniciais do ensino fundamental; também há relatos de diminuição de comportamentos como bullying virtual e de relatos de melhoria no desempenho em disciplinas como matemática e português em algumas redes escolares.
Dados de levantamentos nacionais apontam uma redução no uso de celulares dentro das escolas desde a implementação da lei, com queda significativa no tempo de conexão em ambiente educacional. Autoridades educacionais, como o Ministério da Educação, estão promovendo pesquisas para avaliar de forma mais sistemática esses efeitos um ano após a regulamentação, destacando avanços no engajamento pedagógico e menos distrações.
Em vários países onde políticas de restrição ou proibição do uso de celulares nas escolas foram implementadas, começam a surgir resultados concretos, mas variados dependendo do contexto e da forma como a medida é realizada.
Na Inglaterra, estudos mostram que escolas que baniram os celulares observaram aumentos nos resultados de testes, com estudantes de menor desempenho beneficiando-se ainda mais, sugerindo ganhos modestos em aprendizagem após a proibição, especialmente ao longo do tempo.
Na Holanda, um levantamento oficial indicou que 75% das escolas relataram melhoria na concentração dos alunos e cerca de dois terços notaram um clima social mais positivo após a proibição. Em países como Espanha e Noruega, pesquisas apontam também para melhorias nos resultados escolares e na redução de casos de bullying, embora os efeitos variem por grupo de estudantes.
Na Austrália, uma pesquisa em Nova Gales do Sul encontrou redução nas distrações e relatos de melhora no aprendizado após restrições amplas. Em contrapartida, revisões e alguns estudos, incluindo na Irlanda e no Reino Unido, mostram que as políticas por si só nem sempre resultam em melhorias claras no bem-estar ou desempenho, e que em muitos contextos os efeitos são mistos ou dependem de como a proibição é combinada com outras estratégias educativas e de suporte.
Países como França, Dinamarca, Itália, Finlândia e Chile adotaram ou anunciaram restrições mais amplas, em parte para favorecer foco, interação social e proteção ao desenvolvimento dos estudantes, mas os dados empíricos ainda estão se consolidando à medida que essas medidas avançam.
No atendimento psicológico de crianças, adolescentes e adultos, percebo que apenas o fato de ter o celular por perto, nas mochilas ou bolsas, por exemplo, já gera uma ansiedade de verificar mensagens e curtidas no Instagram, tirando o foco da conversa e/ou do aprendizado. A sensação é de quase sempre estar em outro lugar.
Recentemente, ouvi de uma jovem, no consultório, que precisou desinstalar todas as mídias sociais porque não conseguia estudar nem se concentrar. Ela ficava o tempo todo checando as notificações e, mesmo com o celular longe do seu alcance, pensava no aparelho e nas mensagens que estavam chegando. Imaginem esse cenário no ambiente escolar.
Professores e os próprios alunos já relatam dificuldades em ler textos longos, terminar um livro, interpretar informações e estabelecer relações mais complexas. No mundo digital atual, estão acostumados a experiências passivas e curtas, como os “short vídeos”, que oferecem satisfação imediata por meio da liberação de dopamina ao “rolar” o “feed”, por exemplo.
Os smartphones funcionam como “inibidores de experiências”, pois oferecem tantos estímulos atrativos que reduzem ou afastam outras formas de vivência, como o contato com conteúdos escolares que exigem mais atenção, tempo e concentração. Experiências em países onde a proibição já funciona, como França, Dinamarca, Itália, Suíça e Canadá, mostram melhoras significativas nos níveis de aprendizado, concentração, interação social e qualidade do ambiente escolar.
A presença dos celulares na escola – antes da restrição – alterava a dinâmica dos recreios e intervalos, momentos valiosos de conexão entre colegas, de troca de experiências, conversas e brincadeiras, como correr e se esconder. Os olhos estavam voltados para as telas, em vez da conexão olho no olho, a mais alta tecnologia que o ser humano desenvolveu: a capacidade de criar vínculos afetivos e sociais.
Brincar é um recurso essencial para que as crianças elaborem emoções, lidem com frustrações, aprendam regras e compreendam seus próprios sentimentos ao se relacionarem entre si.
O psicólogo americano Jonathan Haidt, autor do livro “A Geração Ansiosa” (best-seller pelo New York Times), aponta para uma reconfiguração da infância, antes baseada no brincar, para uma infância centrada no celular. Segundo ele, isso acarreta quatro prejuízos fundamentais: privação social, privação de sono, atenção fragmentada e vício.
Haidt conduziu um estudo extenso nos EUA, de 2010 aos dias atuais, demonstrando que o aumento significativo de doenças mentais em adolescentes, como ansiedade, depressão e até suicídio, coincide com a chegada dos smartphones com câmera frontal (selfies), internet ilimitada e redes sociais.
Infelizmente, no Brasil, a situação é semelhante. De acordo com uma pesquisa publicada pela Folha de São Paulo em 31/05/2024, com base nos dados da Rede de Atenção Psicossocial, pela primeira vez na história o número de casos de ansiedade e depressão em crianças e adolescentes superou o de adultos, o que é extremamente preocupante.
Embora não seja possível atribuir o surgimento de transtornos mentais a uma única causa, é significativo que a piora nos índices de saúde mental tenha ocorrido no período de popularização dos smartphones, redes sociais e jogos online.
Outro aspecto fundamental apontado no livro é que os adolescentes, ao chegarem à puberdade, tornam-se socialmente inseguros e vulneráveis à pressão do grupo, o que os torna mais suscetíveis aos mecanismos viciantes das redes sociais em troca de pequenas doses de dopamina.
Se os próprios adultos têm dificuldade em limitar ou reduzir o uso da internet – e muitos já se consideram “viciados” –, imaginem as crianças e jovens, cujo córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelo autocontrole, ainda não está totalmente desenvolvido.
Daí a importância da proibição dos celulares nas escolas. Se não há autorregulação interna, a norma, a regra externa, pode auxiliar. No entanto, mesmo com a exclusão dos smartphones no ambiente das salas de aula, é necessário trabalhar com jovens e crianças para o uso consciente e responsável da tecnologia, essencial para a vida de todos. As possibilidades de inovação são inúmeras, com avanços espetaculares na medicina, no comércio, nos serviços, nos atendimentos online e no ensino a distância.
A educação digital e midiática deve auxiliar alunos, escolas, famílias e instituições no desenvolvimento do pensamento crítico sobre o uso dos aparelhos eletrônicos.
Desejo um ano letivo de muitos aprendizados e conexões de
Texto de Ana Carolina Amorim Almeida, psicóloga, psicanalista, psicopedagoga, palestrante e idealizadora do evento “Carol Convida”.
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