Durante décadas, as pontuações nos testes de inteligência aumentaram de uma geração para outra. Hoje em dia, em muitos países desenvolvidos, este efeito se inverteu e os millennials são a primeira geração a ter um QI menor que dos seus pais. E as telas possuem uma responsabilidade incontestável nessa pesquisa.

A atual loucura digital é um veneno para um cérebro em desenvolvimento. Tudo o que fazemos muda a estrutura e função de nosso cérebro. Em resposta ao uso das telas, certas regiões relacionadas ao processamento de sinais visuais se espessam. Inversamente, as redes linguísticas experimentam atrasos no amadurecimento.

A orgia digital arrasa as bases mais essenciais de nossa humanidade

A orgia digital atual está arrasando as bases mais essenciais de nossa humanidade: a linguagem, a concentração, a capacidade de memória, a criatividade, a cultura (no sentido de um corpo de conhecimento que permite compreender e pensar o mundo).  Isto me irrita profundamente.

Quando você coloca telas (tablets, computadores, smartphones, etc.) nas mãos de uma criança ou adolescente, elas quase sempre escolhem as recreações mais vazias. Estes conteúdos têm efeitos deletérios claramente identificados com o desenvolvimento somático (por exemplo, obesidade, maturação cardiovascular), emocional (ansiedade, agressividade) e cognitivo (linguagem, concentração). Vários estudos comprovam, além disso, que o QI diminui quando o tempo de uso das telas recreativas aumenta.

Qual é melhor atividade para o desenvolvimento de uma criança?

Não são telas com certeza. Mas sim, pessoas e ações. As crianças precisam de palavras, sorrisos, abraços. Precisam se entediar, sonhar, brincar, imaginar, correr, tocar, manipular, contar e ouvir histórias. Precisam olhar o mundo que as cerca e interagir com ele. No coração destas necessidades, a tela é uma corrente de gelo que congela o desenvolvimento.

Qual é o tempo ideal de tela para crianças?

O tempo de recreação diante da tela (fora da escola e as tarefas) para novas gerações é extravagante. São quase 3 horas diárias para as crianças de 2 anos, quase 5 horas para os escolares de 8 anos e mais de 7 horas para os adolescentes. Isto significa que entre os 2 e os 18 anos, que é o período mais crucial de desenvolvimento, dedicam a estas práticas o equivalente a 30 anos escolares.

A idade importa. Antes dos 6 anos, o ideal é zero telas. Quanto mais cedo as crianças são expostas, mais severos são os impactos. A partir dos 6 anos, se os conteúdos são os adequados e caso se respeite o sono, meia hora por dia, sem influência negativa detectável.

Qual a esperança?

É como o aquecimento global: “está começando a se mostrar”. Nossos filhos têm problemas de atenção, linguagem, memorização, agressividade. Espero que a tomada de consciência estabeleça as bases de uma política de prevenção verdadeiramente protetora.

É importante refletir que:

A base de consumo de telas para crianças é puramente capitalista. Sempre que o assunto é dinheiro, não importa o impacto na saúde: tabaco, remédios, alimentação, pesticidas, aquecimento global, telas, a lista é longa. O pior de tudo isso é ver o desenvolvimento dos nossos filhos devastado desta maneira. Bem, não o de todos. Os altos executivos das indústrias digitais têm especial cuidado em proteger seus filhos dos produtos que eles nos vendem.

Fala de Michel Desmurget, diretor de pesquisa no Instituto Nacional da Saúde e Pesquisa Médica da França em entrevista é de Ima Sanchís, publicada por La Vanguardia em 19/09/2020. Baseando-se em dados de pesquisas, Michel Desmurget nos alerta: “Quanto mais os países investem em tecnologias da informação e comunicação (TICs) aplicadas à educação, mais baixo o rendimento dos estudantes. Quanto mais tempo os alunos passam com estas tecnologias, mais pioram suas qualificações”. É o que ele explica em La fábrica de cretinos digitales.

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