Psicologia e Comportamento

Quando me afasto de tudo que me faz mal aprendo a amar o som dos meus passos

Não é fácil tomar a atitude de deixar para trás coisas e pessoas que já fazem parte de nossas vidas, uma vez que podemos não ter muita certeza se conseguiremos seguir sem eles. Somos, infelizmente, inseguros frente ao desconhecido e, muitas vezes, em vez de abraçar com disposição o que vem com ares oxigenados, prendemo-nos ao que está aqui com a gente, mesmo que em detrimento de nossa felicidade.

A gente acha que não vai conseguir respirar direito sem aquele amor, embora já se tenha tornado tudo o que seja oposto ao amor em si. A gente acha que não conseguirá sobreviver sem aquela amizade, mesmo que amizade de verdade ali nunca tenha existido. A gente acha que não encontrará outro emprego, ainda que nossa atual ocupação seja aviltante, desumana e mal remunerada. A gente se esquece de que existem tantos outros lugares, outras pessoas, outros momentos por aí.

O pior é que muitos de nós ainda nos sentimos na obrigação idiota de ter que dar satisfações a gente que não passa mais do que alguns minutos ao nosso lado e, mesmo assim, não se cansam de nos cobrar um parceiro, um casamento, um filho, uma carreira. Ainda sufocamos o tanto que temos dentro de nós sob as cobranças ultrapassadas de quem viveu conforme tudo o que lhe impuseram, menos de acordo com os próprios sonhos.

Quando tomamos a coragem de viver o que transborda de nossos corações, livrando-nos do que e de quem nos intoxica a alma, ainda que doa, mesmo que nos condenem, embora sintamos o temor do tatear-se no escuro, o gosto saboroso da libertação e do encontro com si mesmo compensará as caras feias e as acusações maldosas que teremos pela frente. Pois então o nosso sorriso espaçoso e verdadeiro nos desviará e nos distanciará de tudo o que for vazio, doloroso e falso.

Viver nem sempre será calmaria e tranquilidade, muito pelo contrário, os dias nos trarão muita decepção, muita dor e muitos obstáculos, tirando de nós inclusive o que nos era essencial, levando embora quem fazia o nosso sol brilhar. Daí a necessidade de não temermos levantar e seguir adiante, de mãos dadas com quem nos ama de volta, sozinhos que seja, mas sempre adiante, ao som harmonioso dos nossos passos nos levando a lugares melhores, a momentos mais preciosos, a encontros arrebatadores, longe de tudo e de todos que são âncoras emocionais. Delícia o som desses passos!

Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

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