Ryan Lochte no Rio de Janeiro. Foto: NBC

O quanto de verdade sobre si você é capaz de suportar? Estudo revela que não somos programados a dizer a verdade

Fomos feitos para dizer a verdade? Não quando a mentira é vantajosa, afirma o neurocientista Ming Hsu, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo ele, precisamos nos esforçar para permanecer honestos quando há chances de nos beneficiarmos à custa dos outros.

Nos últimos dias assistimos ao caso do nadador Ryan Lochte e o suposto assalto que ele e seus companheiros de equipe sofreram no Rio de Janeiro.  O Comitê Olímpico Americano repercutiu a versão de Ryan Lochte que disse que os quatro nadadores foram abordados ao sair de uma festa na Zona Sul por homens armados que se identificaram como policiais. Mas as investigações provaram que tudo não passou de uma versão fantasiosa, ou seja uma mentira. A intenção neste artigo não é discutir a moral dos nadadores, tampouco a ferida que deixaram no orgulho dos brasileiros. Pois estas discussões estão em todas as mídias com direito aos espetaculares memes e todo o espetáculo que a gente assiste mudando de canal em canal. Ler a reportagem inteira na UOL.  A Nossa proposta aqui é promover um debate acerca de:

Por que eles mentiram? Por que nós mentimos? Segundo Ming Hsu, nós não fomos programados para dizer a verdade

Para testar sua hipótese, Hsu e sua equipe selecionaram três grupos de voluntários: o primeiro com danos no córtex pré-frontal dorsolateral (região associada ao controle dos impulsos), o segundo com lesões em outras áreas cerebrais e o último sem problemas de saúde (grupo de controle). Então, participaram de dois jogos que envolviam tomar decisões financeiras (ganhar e doar dinheiro), mas somente um se relacionava com a honestidade.

No primeiro, tinham de escolher entre pegar US$ 10 e entregar US$ 5 ou o contrário. O outro era idêntico, exceto que, em vez de optar diretamente, o participante tinha de mandar uma mensagem (verdadeira ou não) para o destinatário dizendo a melhor alternativa. Então, do lado de lá, a pessoa escolheria entre as duas opções. O que estava em questão era o envio de uma informação mentirosa para o ganho pessoal.

Resultado: não houve diferença entre os voluntários no primeiro jogo. Já no segundo, que envolvia a honestidade, os pacientes com lesão no córtex pré-frontal dorsolateral estavam mais dispostos a enganar do que o restante para proveito próprio. “Os dados apontam uma relação causal entre essa região cerebral e o comportamento honesto”, argumenta Hsu. (Fonte)

Dizer a verdade faz bem à saúde

“Não levantarás falso testemunho”, reza o oitavo mandamento. Outrora esculpido em pedra, hoje ele não vale sequer o papel em que é impresso. É, acima de tudo, desrespeitado. Desde que Adão e Eva contaram a primeira mentira da história da Humanidade, o que vale mesmo em nossa espécie é a palavra não cumprida – nisso, psicólogos e sociólogos concordam. Todo ser humano trapaceia, mente e engana; e, diga-se de passagem, faz isso de forma corriqueira, resoluta, refinada e calculista. Você também, aliás! Ah, não? Então você diz com todas as letras ao dono da casa que aquela festa para a qual ele lhe convidou estava um tédio mortal?

É fato científico que engodos e mentiras são nossos companheiros constantes. Em 1997, por exemplo, o psicólogo Gerald Jellison, da Universidade do Sul da Califórnia, Estados Unidos, ouviu as conversas diárias de 20 pessoas submetidas a uma experiência e analisou as fitas gravadas em busca de inverdades. O resultado é acachapante para os amantes da verdade: do ponto de vista estatístico, mesmo os mais sinceros participantes disseram uma mentira a cada oito minutos. “Em geral, são apenas mentirinhas, mas, de todo modo, são o que são: mentiras”, avalia Jellison. Na opinião do psicólogo, procuramos constantemente desculpas para comportamentos que outros poderiam julgar inadequados. Assim, inventamos um engarrafamento como pretexto para um atraso, ainda que, sinceramente, não tivéssemos a menor intenção de ser pontual. Os maiores mentirosos revelados pela pesquisa de Jellison são pessoas com maior número de contatos sociais – vendedores, auxiliares de consultórios médicos, advogados, psicólogos e jornalistas.

Deixar de contar pelo menos três mentiras por semana ajuda a evitar sintomas físicos e psíquicos relacionados ao estresse, sugere um estudo da Universidade de Notre Dame, em Indiana. A psicóloga Anita Kelly  dividiu 110 pessoas entre 18 e 71 anos em dois grupos: instruiu o primeiro a evitar mentiras, inclusive as mais “inocentes”, como criar desculpas para faltar a compromissos. A cada sete dias, todos os voluntários responderam a um questionário de avaliação de sua saúde física e mental e foram submetidos a testes com detector de mentiras, o que ofereceu uma média de quantas vezes mentiram na semana.

Os resultados mostraram que, entre os participantes orientados a falar a verdade, três mentiras a menos equivaleram a quatro menos reclamações sobre tensão e melancolia e a três sobre dores de cabeça e de garganta. O interessante é que as pessoas do grupo de controle, que não sabiam o que os pesquisadores estavam analisando, também relatavam melhora na saúde geral – três mentiras a menos eliminavam duas reclamações de desconforto psíquico e uma de dores físicas. Segundo Anita, cada vez que mentimos, há aumento do nível de estresse: a glândula suprarrenal secreta hormônios, o coração acelera e a pressão sanguínea sobe. A frequência desse estímulo de “alerta” pode sobrecarregar o organismo e desencadear sinais de estresse. (Fonte)

Para conhecer mais

Telling Lies. Clues to Deceit the Marketplace, Politics, and Marriage. P. Ekman. Norton: W. W. & Company, 2001.

Brain Activity During Simulated Deception. An Event-Related Functional Magnetic Resonance Study. D. D. Langleben, et al., em: Neuroimage 15 (3), 2002, p. 727.

Lob der Halbwahrheit: Warum Wir so Manches Verschweigen. D. Nyberg. Frankfurt: Fischer Taschenbuch, 1999.

Die Lüge, das Salz des Lebens. P. Stiegnitz. Viena: Edition Va bene, 1997.

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