“Os cidadãos são contra essa democracia em que a classe política se apropria da representação”

Manuel Castells, sociólogo espanhol, explica a dinâmica dos movimentos sociais. E analisa, de forma comparativa, as manifestações atuais no Brasil e ressalta relevante perspectiva sobre a utilização de espaços que deveriam ser públicos, mas se tornam privados a partir do momento em que passa objetivar o comércio em detrimento do lazer e o congraçamento social:

“Todos esses movimentos, como os movimentos sociais na história, são, sobretudo, emocionais. Não são pontualmente reivindicativos, não é o transporte. São, em algum momento. Então ao sentir a possibilidade de estarem juntos, de que existem muitas pessoas que pensam a mesma coisa fora do âmbito institucional. Então surge a esperança de que se pode fazer algo diferente, o quê, não se sabe, mas certamente não é o que há.  Por certo é outra coisa. Recordo-lhes que os cidadãos do mundo, em sua grande maioria, não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não estão contra a democracia. Estão contra essa prática de democracia que consiste em que a classe política se apropria da representação e não presta contas em momento algum.

De forma que justifica qualquer coisa em função dos interesses do Estado e à classe política. Ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos, culturais, aos que sim, querem respeito. Não respeitam os cidadãos, e isso é o que sentem os cidadãos. Não é a minha opinião, digo, é isso que os cidadãos pensam, ‘que não os respeitam’. Então quando há qualquer pretexto que possa unir, em uma reação coletiva, aí se concentra todo o resto. Aí aparece toda a indignação sobre todos os motivos que cada pessoa tem com relação à forma como a sociedade, em geral, mas representada sobretudo pelas instituições políticas, os trata. Junto a isso, há algo mais”. Manuel Castells

Os espaços públicos não são públicos, são privados

Christian Schloe
Christian Schloe

“Quando falo de espaço público, é o espaço justamente em que… um espaço público é um espaço onde o público se reúne e não é outra coisa. Esse espaço, nesses momentos, é o espaço físico, o espaço espaço urbano, mas também é o espaço da internet, o ciberespaço. E é a conjunção dos dois que cria um espaço público autônomo.  Mas o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade de sociabilidade pessoal, do contato físico das pessoas na grande metrópole está sendo negada, constantemente.  Há uma destruição sistemática do espaço público da cidade, está se transformando em espaço comercial. Os shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando o público, ou seja, a interação das pessoas, ao redor de funções comerciais e de consumo. E isso as pessoas rejeitam.

Vejam que interessante é o caso da Praça Talkin e do Parque Gezi, em Istambul. Faz meses que estão protestando por causa da destruição do último parque no centro histórico da cidade, para quê? Para construir um shopping center com um complexo turístico dedicado aos turistas, negando aos jovens o espaço que podiam ter para relacionar-se com a natureza. Mas também para reunir-se, para existir como tal. Portanto, é a negação do direito básico à cidade, como disse Lefèvre, há muito tempo, ‘é o direito a poder reunir-se e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir e sem ter que pedir licença à autoridade. Por isso, do espaço protegido de liberdade na internet, tenta-se extrapolar a lógica da liberdade na internet, à liberdade no espaço público urbano. E não posso opinar sobre um movimento que não conheço em São Paulo, este momento, mas tem algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos e esse é um elemento fundamental em todas as mobilizações que observei no mundo”. Manuel Castells

TEXTO DEManuel Castells
FONTEFronteiras do Pensamento
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