Se você teve uma infância sem amor e suas necessidades emocionais não foram atendidas especificamente por sua mãe, você não está sozinha. Essa experiência é comum e os efeitos podem ser profundos e de longo prazo.

“Quando uma criança é negligenciada emocionalmente, rejeitada, sofre abusos físicos, psicológicos e/ou sexuais, a constante sensação de não ser amada tende a persistir e afetar todas as áreas da vida de sua vida”, diz a psicóloga clínica Carla Marie Manly, PhD de Santa Rosa, Califórnia.

Ela lembra que culpar seus pais ou família de origem por comportamentos destrutivos não é a ideia mais útil. “Mas há um grande benefício em entender e curar para não perpetuar o dano causado”.

Aprender os efeitos potenciais de uma infância sem amor é um ótimo lugar para começar. Então, o que acontece quando uma criança não se sente amada enquanto ela está crescendo?

1 – Ela desenvolve um estilo de apego inseguro

A teoria do apego pode nos ajudar a entender como nossos relacionamentos formativos quando crianças podem afetar, na vida adulta, a maneira como navegamos por conexões de afeto x apego inseguro.

“Quando a primeira experiência de apego de uma pessoa é não ser amada, isso pode criar dificuldade de proximidade e intimidade, criando sentimentos contínuos de ansiedade e evitando a criação de relacionamentos profundos e significativos quando adulta”, diz Nancy Paloma Collins , LMFT em Newport Beach, Califórnia.

Tanto Manly quanto Paloma Collins sugerem que um estilo de apego inseguro de uma infância sem amor pode impactar:

  • como você comunica suas emoções e necessidades
  • como você entende as emoções e necessidades de seus parceiros
  • como você responde ao conflito
  • como você se autorregula
  • como você lida com as suas expectativas de parceiros e relacionamentos
  • como você navega na vida, no trabalho e nos relacionamentos na idade adulta

2 – Tem uma inteligência emocional pouco desenvolvida

“Os cérebros das crianças são como esponjas. Elas veem, sentem e percebem os comportamentos, atitudes e energia dos pais. Se os pais não modelarem uma inteligência emocional saudável, seus filhos não desenvolverão uma inteligência emocional forte”, diz Manly.

Mesmo que sua mãe não tenha tido inteligência emocional para criá-la na infância, vale ressaltar que, apesar de você não ter culpa alguma disso, é responsabilidade sua cuidar de sua inteligência emocional, por si mesma e também para a quebra do ciclo.

3 – Tem o sentido de si mesma prejudicada

Quando a criança nasce a sua noção de ‘quem eu sou’ é a sua mãe. Ela não sabe que tem um corpo, um rosto e sentimentos. Tudo que ela é a sua mãe, só que agora está fora do abrigo do ventre, está ‘sozinha’ num mundo, sem saber quem é e o sente. E quando as mães não são capazes de ofertar amor genuíno e incondicional às suas filhas, danos duradouros podem se desenvolver durante o processo de construção de identidade da criança. Um senso de self (o eu)  prejudicado, geralmente se desenvolve quando uma criança se sente:

  • mal amada
  • indesejada
  • rejeitada
  • negligenciada física, mental, emocional, social…
  • abandonada
  • criticada cronicamente

Paloma Collins acrescenta que as mulheres que não se sentiram amadas quando criança também podem sentir que “não são boas o suficiente” na idade adulta.

4 – Não consegue confiar

“Problemas de confiança ” são outra consequência comum de não serem amadas por suas mães quando as meninas estão crescendo.

“As meninas que não são criadas em ambientes seguros, amorosos, respeitosos e consistentes tendem a crescer sentindo-se muito inseguras e desconfiadas”, explica Manly. Como resultado, elas tendem a enfrentar grande dificuldade em confiar em si mesmas e nos outros ao longo da vida.

“Esse profundo sentimento de desconfiança pode criar uma dinâmica de confiança em pessoas que não são confiáveis ​​e não confiar naquelas que são confiáveis. No outro extremo do espectro, pode acontecer que da criança criar fortes defesas que levam à incapacidade de confiar em qualquer pessoa”.

5 – Tem dificuldades em navegar pelos limites

Os limites são aprendidos. Portanto, se sua família de origem não modelou limites saudáveis, você pode não ter as habilidades para navegar por eles quando adulta.

De acordo com Manly, seus limites podem se tornar excessivamente porosos ou rígidos. Isso pode levar a você potencialmente a:

  • ser explorada
  • explorar os outros
  • manter-se sempre na defensiva
  • criar barreiras e sabotar possíveis relacionamentos saudáveis

“Elas também podem experimentar dependência emocional por alguém. O que pode significar que estão inconscientemente procurando ‘consertar’ a experiência de desamor da mãe”, acrescenta Paloma Collins.

6- Mesmo que não queira, sempre se envolve com amigos e parceiros tóxicos 

“As crianças que crescem em ambientes tóxicos necessariamente aceitam ambientes insalubres como ‘normais’”, diz Manly. Ao tentar lidar racionalizando o irracional, elas, na vida adulta, acreditam que você podem se sentir confortáveis e “em casa” em situações semelhantes e com pessoas tóxicas.

“A criança vai amadurecer e se tornar uma adulta que inconscientemente anseia pela dinâmica confortavelmente desconfortável e tóxica do ambiente familiar. Agora adulta, escolherá inconscientemente amigos e parceiros que pareçam palatáveis ​​e até saudáveis, mas que, em última análise, perpetuarão os padrões negativos testemunhados e vividos na infância”.

7 – É frequentemente dominada pelo medo de fracassar

De acordo com Manly, o medo do fracasso pode resultar de uma criação pautada por só ‘dar amor’ como forma de recompensa pela obediência inquestionável.

“Quando os pais de uma criança negam amor ou oferecem apenas críticas, a criança cresce se sentindo incrivelmente insegura nos níveis mais profundos. O medo do fracasso pode causar estragos na capacidade de uma criança – e de uma adulta – de assumir riscos saudáveis ​​e expandir pessoal e profissionalmente”.

8 – Alimenta sentimentos de isolamento

“Muitos tipos de ‘loba solitárias’ são na verdade adultas que aprenderam cedo na vida que confiar nos outros para o amor e a conexão não é seguro”, diz Manly.

“Esse sentimento profundamente enraizado de ‘estar sozinha no mundo’ muitas vezes cria hábitos inconscientes que persistem na idade adulta”, explica ela. Como resultado, elas tendem a se isolar ao longo da vida.

9 – Tem uma sensibilidade extrema

De acordo com Manly, extrema sensibilidade (ou insensibilidade) pode ocorrer quando as mães:

  • invalidam as experiências da criança
  • não modelam a sensibilidade emocional saudável
  • ignorara a importância da regulação e processamento emocional

“É claro que algumas crianças são naturalmente mais sensíveis do que outras, mas a sensibilidade extrema é muitas vezes o resultado da falta de sintonização do cuidador no início da vida”, acrescenta ela.

10 – Sente-se em constante conflito interior

“Quando as mães não modelam um comportamento estável, saudável, seguro e amoroso e suas filhas, elas, muitas vezes, crescem se sentindo cronicamente desestabilizadas e inseguras”, diz Manly.

Como adultas, elas podem parecer seguras ou confiantes. Mas o seu “conflito interno e insegurança muitas vezes criam perturbações intrapessoais e interpessoais significativas”.

11 – Tem mais propensão a desenvolver transtornos na saúde mental

Também é possível desenvolver problemas de saúde mental como resultado de crescer sem o amor da mãe.

Pesquisas sugerem que a negligência ou abuso emocional infantil pode ter impactos duradouros na saúde mental. Algumas condições de saúde mental que podem surgir de maus-tratos emocionais na infância incluem:

  • transtornos de ansiedade
  • depressão
  • sintomas dissociativos
  • transtorno por uso de substâncias
  • fobias e medos
  • transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

Dicas para a cura na idade adulta

Os efeitos de uma infância sem amor podem estar profundamente enraizados, mas podem ser curados. Algumas maneiras pelas quais você pode se curar de não se sentir amado quando criança incluem, mas não estão limitados a:

  • aprendendo seus gatilhos
  • engajar-se no trabalho da criança interior
  • praticando o autocuidado e o amor próprio
  • praticando o estabelecimento de limites
  • usando seu passado para aprender o que você faz e não quer na vida
  • diário ou leitura de livros interativos de autoajuda
  • reformulando positivamente crenças internalizadas (por exemplo, “eu sou uma filha não amada” para “eu mereço amor como um adulto”)
  • construir comunidade em grupos de apoio com pessoas que compartilham experiências semelhantes
  • ser paciente e gentil consigo mesma durante o seu processo de cura.

“Validar nossa criança interior e a dor que experimentamos quando crianças não é apenas curativo, mas fortalecedor. Confie no seu processo e aceite que a cura é contínua”, diz Paloma Collins.

A psicoterapia também pode ajudá-lo a se curar. Manly diz que terapias individuais são ideais para começar, mas a terapia em grupo é uma experiência bastante enriquecedora: “Quando um grupo é administrado por um clínico qualificado, os participantes se beneficiam da energia conectiva das experiências dos outros, ao mesmo tempo em que desfrutam de apoio profissional”.

Ela lembra que fazer psicoterapia pode ser desafiador, mas o resultado vale a pena. “Embora a jornada possa parecer longa e até impossível, você merece se curar de dentro para fora, para que possa viver sua melhor vida”.

 

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