8 motivos para você incluir estas 20 escritoras em suas melhores leituras

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Quantos livros escritos por mulheres você tem na sua estante? Você sabe quem foi a primeira mulher a publicar um romance no Brasil? Você se lembra de algum filme cujo enredo ou roteiro foi escrito por uma mulher? Quando alguém lhe pedir para citar 5 escritores brasileiros, dentre os mais famosos, alguma escritora entrará na sua lista? Quando você pensa em lindas poesias, quantas delas foram escritas por mulheres? Quando você ouve a palavra literatura brasileira, quantas escritoras lhe vêm na lembrança?

É possível que até hoje você não tenha se dado conta do quanto o machismo cultural é passado de geração a geração de forma natural, e é por conta disso, que as mulheres, não somente as escritoras, mas em todas as artes, são tratadas como inferiores em suas produções. As mulheres lutam por reconhecimento em todas as áreas existentes, e o meio artístico é um dos que deve um reparo histórico à todas elas.

Da sina de precisar de um pseudônimo para ser levada a sério

Muitas escritoras contemporâneas usam pseudônimos ambíguos – como nomes sem gênero ou iniciais seguidas de um sobrenome – para evitar ideias pré-concebidas sobre suas obras. Mesmo autoras de best-sellers, como J.K. Rowling (Harry Potter), E.L. James (50 tons de cinza) e Gillian Flynn (Garota exemplar) contam em entrevistas que, por vezes, acreditam que as vendas dos seus livros serão melhores caso mantenham uma identidade neutra.

O recurso para ser aceita, não é de agora. Entre o início do século 19 e meados do século 20, para fugir de uma leitura estereotipada sobre a escrita das mulheres – ou mesmo para desafiar o preconceito que empurrava autoras para longe de atividades criativas e literárias – muitas escritoras e artistas preferiam (ou eram forçadas a) assinar suas obras com nomes neutros ou masculinos. Das irmãs Brontë à criadora da primeira heroína dos quadrinhos, conheça algumas dessas mulheres.

Estas 8 autoras que usaram pseudônimo masculino para serem lidas representam 8 bons motivos para você incluir escritoras em sua lista de leituras

Durante os séculos 18 e 19, diz Vasconcelos, cristalizou-se o papel da mulher como primordialmente mãe e esposa dentro da família burguesa.

“A esposa era a responsável pelo mundo doméstico, da porta da casa para dentro. Muitas delas não tinham sequer acesso à educação formal. E toda mulher que tinha algum tipo de ambição para além disso era um ponto fora da curva.”

Mulheres que desejavam se tornar escritoras de romances publicavam com pseudônimos ou mesmo anonimamente, a partir do século 18. A mais famosa delas é a inglesa Jane Austen. A capa de seu primeiro romance, Orgulho e Preconceito, diz apenas: “Um romance, em três partes. Escrito por uma dama”.

Um projeto brasileiro da empresa HP quer estimular a leitura dessas e de outras autoras com novas capas, que mostram seus nomes reais. “Queríamos reimprimir a História, que, por diversos motivos, não trataram bem essas autoras”, disse à BBC Brasil Keka Morelle, diretora de criação do projeto Original Writers (Escritoras originais, em tradução livre). Os livros das autoras do século 19 e do início do século 20, principalmente europeias, estão disponíveis no site Gutenberg Project – um projeto que oferece, gratuitamente, mais de 50 mil obras de domínio público.

No Brasil, muitas escritoras também usaram o recurso do pseudônimo ou do livro anônimo pelos mesmos motivos, segundo a professora de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Constância Lima Duarte.

A maioria destas escritoras, no entanto, apenas começa a ser descoberta, segundo Duarte. Uma delas é Maria Firmina dos Reis, autora do romance Úrsula (1859), considerado por alguns historiadores como o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira. Sua assinatura, no entanto, dizia apenas “uma maranhense”.

A lista abaixo é o elenco de 8 autoras que usaram pseudônimo masculino para serem lidas, e elas representam 8 bons motivos para você incluir escritoras em sua lista de leituras. Confira:

1 – Amandine Dupin (1804 – 1876), assinava, George Sand – Romancista, articulista e memorialista, Amandine Dupin escreveu mais de 80 livros, entre eles Lélia (1833), Indiana (1832) e a autobiografia História da minha vida (1856), publicada no Brasil pela editora Unesp. Em quase todos eles, a autora assinou como George Sand, um nome que chegou a ser colocado, por Fiódor Dostoiévski, no “primeiro lugar nas fileiras dos escritores novos”. Precursora do feminismo na França, Dupin esteve presente nas principais rodas culturais de sua época, e era amiga de Franz Liszt, Honoré de Balzac, Eugène Delacroix, Pierre Lerroux e Victor Hugo. Hoje, finalmente reconhecida, é considerada uma das maiores autoras francesas do século 19.

2 – Eugénie-Caroline Saffray (1829 – 1885), assinava, Raoul de Navery – A francesa Eugénie-Caroline Saffray começou a escrever aos 20 anos, após perder o marido, Eugene Jean Baptiste Chervet. Fez sua estreia com alguns textos em prosa e poesia focados na religião católica, todos sob o pseudônimo feminino de Marie David – mas suas primeiras experiências foram consideradas “medíocres” pela crítica. Mulher e viúva, Saffray decidiu adotar, a partir de 1860, um nom de plume masculino para conseguir publicar-se: Raoul de Navery, nome de seu avô. Sob esta alcunha, conseguiu uma recepção melhor para seus romances, que incluem La Fille sauvage (1902).

3 – Nair de Tefé (1886 – 1981), assinava, Rian – A brasileira Nair de Tefé era pintora, pianista, cantora, atriz e caricaturista. É lembrada, além de sua veia artística, por ter sido uma das primeiras mulheres a usar calças compridas no Brasil – além de ter sido primeira-dama do país entre 1913 e 1914. No Palácio do Catete, organizava saraus em que introduzia a música popular de Chiquinha Gonzaga, Catulo da Paixão Cearense e outros compositores. Mesmo sendo uma mulher à frente do seu tempo, Nair utilizava um nome interessante para publicar suas caricaturas nos jornais da época: Rian – que, além de ser “Nair” de trás pra frente, também tem som semelhante à palavra francesa para “nada”, rien.

4 – As irmãs Brontë, assinavam, Os irmãos Bell – Consideradas as três das maiores escritoras inglesas, as irmãs Charlotte (1816 – 1855), Emily (1818 – 1848) e Anne Brontë (1820 – 1849) começaram a carreira literária usando nomes falsos – Currer, Ellis e Acton Bell, respectivamente – e assim publicaram, em 1847, seus romances Jane Eyre, Morro dos Ventos Uivantes e Agnes Gray. A própria Charlotte afirmou, em uma carta, que as irmãs não gostavam de revelar que eram mulheres “porque, como nossa forma de escrever e pensar não era o que se chama de ‘feminino’, tínhamos a impressão de que seríamos vistas com preconceito enquanto autoras”.

5 – Mary Ann Evans (1819 – 1880), assinava, George Eliot – Mais conhecida como George Eliot, Mary Ann Evans era poeta, romancista e tradutora. O pseudônimo masculino, para ela, era uma forma não só de ganhar notoriedade mais rápido, mas também de proteger sua vida íntima, já que Evans teria se relacionado com um homem casado. Seu romance Middlemarch: um estudo da vida provinciana (1871), considerada a sua obra prima, foi descrito por Virginia Woolf em um artigo de 1919 como “um dos poucos romances ingleses para adultos”.

6 – Violet Paget (1856 – 1935), assinava, Vernon Lee – A britânica Violet Page escreveu sobre arte, estética, viagens e, ainda, produziu ficção sobrenatural – seus contos fantasmagóricos vitorianos são repletos de subtextos lésbicos, crossdressers e episódios sexuais. Feminista declarada, ela precisou assinar como Vernon Lee para publicar sua obra, que abrange desde livros de análise sobre a arte renascentista italiana até obras memorialísticas como The spirit of rome (1906). “O nome que escolhi contém partes dos nomes do meu pai e do meu irmão, combinadas às minhas iniciais: H.P. Vernon-Lee. Tem a vantagem de não parecer nem feminino nem masculino”, ela escreveu em uma carta de 1875.

7 – Victoire Leódile Béra (1824 – 1900), assinava, André Léo – Romancista, jornalista, militante feminista e socialista, a francesa Victoire Leódile Béra escreveu artigos, romances, contos e ensaios políticos, sempre sob a proteção do pseudônimo André Léo, uma junção dos primeiros nomes de seus filhos gêmeos. Em 1867, ganhou notoriedade ao escrever La Coopération, uma espécie de defesa da criação de sindicatos de trabalhadores. Pouco depois, Béra criaria, já assinando com seu nome real, a Associação para o Melhoramento da Educação das Mulheres e, em 1868, publicaria um texto sem título, em que defendia a igualdade de gênero – um documento que, hoje, é considerado fundamental para a primeira onda feminista na França.

8 – June Tarpé Mills (1912 – 1988), assinava, Tarpé – A estadunidense June Tarpé Mills estudou arte e se tornou designer de moda. Mas, nos anos 1930, começou a se interessar por quadrinhos – uma mídia que, na época, servia apenas para contar histórias de super heróis masculinos, como Spirit, de Will Eisner; e o Super Homem, de Jerry Siegel e Joe Shuster. Era um mundo dominado por personagens e autores homens, mas mesmo assim Mills conseguiu um espaço para si assinando apenas com seu nome do meio, Tarpé, para esconder seu gênero. Assim, ela criou diversos personagens até hoje pouco conhecidos, como Daredevil Barry Finn e The Purple Zombie – e, em 1941, desenhou e publicou a primeira heroína dos quadrinhos, Miss Fury.

+20 escritoras para você incluir na sua lista: desde as clássicas às contemporâneas

Se na sua estante de livros há poucas obras de escritoras, esta lista é para você enriquecer suas leituras e valorizar a arte incrível destas mulheres. Nós listamos apenas 20, mas a lista pode, e deve, ser muito maior.  Caso queira a parte 2 desta lista, deixe sua sugestão de autoras, nos comentários.

Da literatura clássica:

  1. Jane Austen, inglesa (1775-1817). Sugestão de leitura: Orgulho e preconceito (1813); Emma (1815); Persuasão (1818) – póstuma.
  2. Maria Firmina dos Reis, brasileira (1822-1917). Sugestão de leitura:Úrsula (1859); Gupeva (1861)
  3. Virginia Woolf, inglesa (1882-1941). Sugestão de leitura: Mrs. Dalloway (1925); Orlando (1928); As ondas (1931).
  4. Clarice Lispector, ucraniana naturalizada brasileira (1920-1977). Sugestão de leitura: Perto do coração selvagem (1943); A maçã no escuro (1961); A paixão segundo G. H. (1964); A hora da estrela (1977).
  5. Silvina Ocampo, argentina (1903-1993). Sugestão de leitura: Viaje olvidado (1937); A fúria e outros contos (2019) – reunião de seus principais contos em edição brasileira.
  6. Florbela Espanca, portuguesa (1894-1930). Sugestão de leitura:Livro de mágoas (1919); Livro de sóror saudade (1923); Charneca em flor (1931).
  7. Maya Angelou, americana (1928 – 2014). Sugestão de leitura: Eu sei por que o pássaro canta na gaiola; A vida não me assusta; Carta a minha filha
    Carta a minha filha.
  8. Cora Coralina, brasileira, (1889 – 1985). Sugestão de leitura: Estórias da Casa Velha da Ponte; Meu Livro de Cordel; Vintém de Cobre – Meias confissões de Aninha.
  9. Emily Brontë, inglesa (1818-1848). Sugestão de leitura: Poems (1846); O morro dos ventos uivantes (1847).
  10. Mary Shelley, inglesa (1797 – 1851). Sugestão de leitura: Frankenstein ou o Prometeu Moderno (1818); Mathilda (1819); Valperga: ou, a Vida e as Aventuras de Castruccio, o Príncipe de Lucca (1823).

Contemporâneas:

  1. Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana (1977). Sugestão de leitura: Hibisco roxo (2003); Meio sol amarelo (2006); Americanah (2009).
  2. Lygia Fagundes Telles, brasileira (1923). Sugestão de leitura: Antes do baile verde (1970); Seminário dos ratos (1977); Mistérios (1981); Invenção e memória (2000).
  3. Nélida Piñon, brasileira, (1937). Sugestão de leitura: Tempo das frutas (1966); O calor das coisas (1980); A camisa do marido (2014).
  4. Conceição Evaristo, brasileira, (1949). Sugestão de leitura: Insubmissas lágrimas de mulheres (2011); Olhos d’água (2014); História de leves enganos e parecenças (2016).
  5. Clara Dawn, brasileira, (1975). Sugestão de leitura: O Cortador de Hóstias (2015); Alétheia (2008); Sófia Búlgara e o Tabuleiro da Morte (2012); Artur, o grande urso (2013).
  6. Natália Borges Polesso, brasileira (1981). Sugestão de leitura: Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013); Amora (2016).
  7. Ryane Leão, brasileira, (1989). Sugestão de leitura: Tudo Nela Brilha e Queima (2017); Jamais peço desculpas por me derramar (2019).
  8. Rainvow Rowell, americana (1973). Sugestão de leitura: Anexos (2011); Eleanor & Park (2013); Ligações (2014).
  9. Tati Bernardi, brasileira (1979). Sugestão de leitura: Depois a louca sou eu (2016); A menina da árvore (2019); Homem-objeto e outras coisas sobre mulher (2018).
  10. Jenny Han, norte-americana (1980). Sugestão de leitura:Para todos os garotos que já amei (2014); P.S.: Ainda amo você (2015); Agora e para sempre, Lara Jean (2017).

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