A medicalização da infância se tornou um dos temas mais inquietantes da contemporaneidade. Em um contexto social marcado por excesso de estímulos, pressões de desempenho, escolarização precoce e pouca tolerância às diferenças, comportamentos historicamente reconhecidos como parte da infância passaram a ser, com frequência crescente, enquadrados como transtornos. Crianças inquietas, questionadoras, imaginativas, dispersas ou pouco adaptadas a modelos rígidos de ensino são cada vez mais vistas sob a ótica do diagnóstico e da intervenção medicamentosa.

É importante deixar claro desde o início que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, é reconhecido pela literatura médica como um transtorno do neurodesenvolvimento. No entanto, o que tem sido amplamente questionado por pesquisadores, educadores e profissionais da saúde mental não é a existência do transtorno, mas a forma como ele vem sendo diagnosticado, interpretado e tratado, especialmente na infância.

Dados epidemiológicos indicam que o TDAH afeta cerca de 5 por cento das crianças no mundo, com variações conforme critérios diagnósticos, metodologia de pesquisa e contexto cultural. Ainda assim, observa-se um crescimento expressivo no número de diagnósticos e, sobretudo, no uso de medicamentos psicoestimulantes, levantando preocupações legítimas sobre possíveis excessos, banalização diagnóstica e redução da complexidade do sofrimento infantil a explicações exclusivamente biológicas.

A medicalização da infância e o deslocamento do sofrimento para o campo médico

A medicalização da infância pode ser compreendida como um processo pelo qual questões sociais, educacionais, familiares e culturais são deslocadas para o campo médico, passando a ser tratadas prioritariamente como problemas biológicos. Dificuldades de aprendizagem, agitação, ansiedade, tristeza, desatenção e comportamentos considerados inadequados ao ambiente escolar são, muitas vezes, rapidamente convertidos em diagnósticos clínicos, acompanhados de prescrições medicamentosas.

Esse fenômeno tem produzido o que diversos autores descrevem como uma verdadeira epidemia de diagnósticos. Sensações e experiências humanas comuns, especialmente na infância, passam a ser enquadradas como sintomas patológicos, enquanto o espaço da normalidade e da diversidade comportamental se estreita progressivamente. O resultado é uma infância cada vez menos tolerada em sua espontaneidade e singularidade.

A expansão diagnóstica também está associada a interesses econômicos e institucionais. A medicalização tornou-se um mercado altamente lucrativo, impulsionado pela indústria farmacêutica, que investe fortemente na difusão da ideia de que transtornos mentais e comportamentais possuem soluções essencialmente medicamentosas. Essa lógica reforça a crença de que o sofrimento humano pode e deve ser eliminado por meio de fármacos, em vez de compreendido em sua complexidade subjetiva e contextual.

O movimento internacional Stop DSM e a crítica ao modelo estatístico

Nesse cenário, surge o movimento internacional Stop DSM, iniciado em 2011 e articulado em diferentes países, incluindo Brasil, Argentina e Espanha. Formado por profissionais das áreas da saúde mental, educação e ciências humanas, o movimento questiona o uso do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como ferramenta hegemônica e quase exclusiva para o diagnóstico do sofrimento psíquico.

Uma das principais críticas ao DSM é sua base estatística e categorial, que tende a fragmentar a experiência humana em listas de sintomas, desconsiderando a história de vida, o contexto social e a singularidade subjetiva. Ao longo de suas edições, o manual ampliou significativamente o número de transtornos descritos, reduzindo o espaço da normalidade e ampliando as fronteiras do que pode ser considerado patológico.

O psiquiatra Allen Frances, coordenador do DSM IV e posteriormente um de seus críticos mais contundentes, alertou para os riscos dessa expansão diagnóstica. Segundo ele, nas últimas décadas, houve um aumento expressivo nos diagnósticos de TDAH, autismo e transtorno bipolar infantil, muitas vezes sem critérios clínicos rigorosos, contribuindo para tratamentos desnecessários e potencialmente prejudiciais. Frances não nega a existência desses transtornos, mas questiona o uso indiscriminado e inflacionado dos diagnósticos.

Compreendendo o TDAH para além do rótulo

O TDAH é descrito como um transtorno que envolve dificuldades persistentes de atenção, impulsividade e, em alguns casos, hiperatividade. Esses comportamentos podem interferir no aprendizado, na socialização e na autoestima da criança, especialmente quando não compreendidos ou acolhidos adequadamente pelos adultos.

Pesquisas indicam que o transtorno está associado a alterações em circuitos neurais relacionados às funções executivas, ao controle emocional e à motivação, com influência de fatores genéticos e ambientais. Exposição pré-natal a substâncias tóxicas, condições adversas na gestação, baixo peso ao nascer e fatores psicossociais também são considerados elementos de risco.

No entanto, é fundamental diferenciar o transtorno propriamente dito de manifestações comportamentais próprias do desenvolvimento infantil. Nem toda criança inquieta, distraída ou criativa apresenta um transtorno. Quando critérios diagnósticos são aplicados sem uma análise cuidadosa do contexto familiar, escolar e emocional, corre-se o risco de rotular e patologizar experiências normais da infância.

Psicoestimulantes e o uso crescente do metilfenidato

O metilfenidato, conhecido comercialmente como ritalina, é o medicamento mais utilizado no tratamento do TDAH. Trata-se de um psicoestimulante que atua aumentando a disponibilidade de dopamina nas sinapses cerebrais, mecanismo semelhante ao de outras substâncias estimulantes.

O consumo desse medicamento cresceu de forma significativa nas últimas décadas, tanto no Brasil quanto em outros países. Embora estudos indiquem benefícios em casos bem diagnosticados e acompanhados, há também evidências de efeitos adversos, especialmente quando o uso ocorre de forma prolongada, sem acompanhamento rigoroso ou fora de indicações clínicas estritas.

A pediatra e pesquisadora Maria Aparecida Affonso Moysés, da Unicamp, tem sido uma das vozes mais críticas em relação à medicalização da infância. Em entrevistas e publicações, ela alerta para o risco de se silenciar crianças questionadoras, criativas e sensíveis por meio da medicação, comprometendo a construção de subjetividades críticas e a possibilidade de futuros diferentes. Para a pesquisadora, o que está em jogo não é apenas o comportamento da criança, mas o tipo de sociedade que estamos produzindo.

Medicalização como resposta a um problema cultural

O uso excessivo de medicamentos na infância reflete, em grande parte, um problema cultural e social. A vida contemporânea impõe aos pais jornadas exaustivas, insegurança econômica e pouco tempo de convivência. A escola, por sua vez, frequentemente opera com modelos padronizados que não acolhem as diferenças individuais. Nesse contexto, a criança inquieta passa a ser vista como um problema a ser corrigido, e não como um sujeito em desenvolvimento.

A ausência de espaços públicos, de tempo livre, de brincadeira espontânea e de convivência comunitária contribui para o aumento das tensões emocionais na infância. Quando todas essas questões falham em ser elaboradas coletivamente, a solução rápida e socialmente aceita tende a ser a medicação.

O papel da família e a importância do acolhimento

O ambiente familiar exerce papel fundamental no desenvolvimento emocional da criança. Mensagens constantes de inadequação, punições incoerentes e falta de escuta podem fragilizar o autoconceito infantil e intensificar comportamentos defensivos.

É essencial que a família compreenda que muitos comportamentos não são voluntários, mas expressões de dificuldades internas. Regras e disciplina são importantes, mas precisam ser flexíveis, ajustadas às necessidades da criança e sustentadas por afeto, previsibilidade e coerência.

Participação em grupos de apoio, estabelecimento de rotinas, clareza de papéis parentais, incentivo à autonomia, valorização da autoestima e presença afetiva consistente são estratégias fundamentais para o cuidado emocional da criança.

Atividades físicas, artísticas e a música como alternativas terapêuticas

Diversos estudos apontam que atividades físicas, artísticas e lúdicas produzem efeitos positivos sobre a atenção, a autorregulação emocional e a socialização. Jogos de tabuleiro, atividades criativas, esportes coletivos, práticas corporais ligadas à respiração, como yoga e natação, ajudam a canalizar a energia, melhorar o foco e reduzir a ansiedade.

A musicoterapia tem se destacado como recurso terapêutico eficaz para crianças e adolescentes com dificuldades de atenção. Atividades musicais estimulam múltiplas áreas do cérebro, favorecendo memória, concentração, coordenação motora e expressão emocional. O ritmo, em especial, auxilia na organização espaço temporal e na regulação da impulsividade.

A música também fortalece a autoestima, amplia a comunicação não verbal e oferece um espaço seguro para a elaboração emocional. Ao integrar corpo, emoção e cognição, a musicoterapia contribui para um desenvolvimento mais saudável e equilibrado.

Considerações finais

A discussão sobre TDAH e medicalização da infância exige cuidado, responsabilidade e profundidade. Não se trata de negar a existência de transtornos nem de demonizar a medicina, mas de questionar práticas que reduzem a complexidade da infância a rótulos e prescrições rápidas.

Proteger a infância significa garantir espaço para a diversidade, para o brincar, para o erro, para a criatividade e para a construção subjetiva. Uma sociedade que silencia suas crianças corre o risco de empobrecer seu próprio futuro.

Fontes pesquisadas:

  • Ritalina Bula;
  • Unicamp;
  • Carta Capital;
  • Mundo das drogas;
  • DSM-5
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Uso de metilfenidato no Brasil e dados de consumo de psicotrópicos. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa
  • American Psychiatric Association. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed. Arlington: APA, 2013. Informações gerais disponíveis em: https://www.psychiatry.org
  • Frances, A. Saving Normal: An Insider’s Revolt Against Out-of-Control Psychiatric Diagnosis. New York: HarperCollins, 2013. Entrevistas e artigos disponíveis em: https://www.psychologytoday.com
  • Moysés, M. A. A. A institucionalização invisível da infância. Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Entrevistas e publicações disponíveis em: https://www.unicamp.br

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Clara Dawn é romancista, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante com o tema: "A mente na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: [email protected]