Desde que as primeiras civilizações humanas criaram normas sociais rígidas baseadas em gênero, o machismo e a misoginia se enraizaram profundamente nas estruturas sociais e educativas. Em muitos casos, essas normas culturais foram transmitidas de forma transgeracional, moldando expectativas, papéis e comportamentos que, por vezes, naturalizam o domínio masculino e invisibilizam a violência simbólica, psicológica e física contra mulheres. A educação formal, longe de ser neutra, reproduziu muitas dessas hierarquias: livros, dinâmicas em sala de aula e interações cotidianas que, direta ou indiretamente, reforçam estereótipos — desde a divisão de tarefas domésticas entre meninos e meninas até a representação das mulheres nos conteúdos curriculares.

É contra essa herança histórica que emergem hoje esforços de inovação curricular em várias partes do mundo, para ensinar não só biologia ou matemática, mas também relações humanas baseadas em respeito, consentimento e igualdade.

O Reino Unido e a atualização do currículo escolar 

No Reino Unido, o governo publicou em 2025 uma nova orientação estatutária para o currículo de Relacionamentos, educação sexual e saúde (Relationships, Sex and Health Education – RSHE), que entrará em vigor em 1º de setembro de 2026. Essa atualização amplia a abordagem tradicional de educação sexual e de relacionamentos para incluir temas como desenvolvimento de relações saudáveis, respeito entre os sexos, compreensão de consentimento, prevenção de violência, desafios no ambiente digital e como reconhecer comportamentos abusivos ou misóginos desde a infância.

A orientação oficial destaca a importância de equipar os alunos com ferramentas para compreender como construir relações baseadas em respeito, não apenas no contexto íntimo mas no convívio social como um todo. Ela também enfatiza que esse ensino seja adequado à idade e sensível aos desafios atuais, incluindo o impacto de conteúdos nocivos online e a cultura que pode alimentar atitudes discriminatórias.

Os conteúdos abordarão temas como consentimento, limites pessoais, atitudes misóginas e comportamento online. O objetivo é ensinar principalmente meninos a identificar comportamentos abusivos e desenvolver relações mais saudáveis desde cedo. As aulas também vão tratar da influência negativa de figuras online e promover o pensamento crítico entre os jovens. Professores receberão treinamento específico para lidar com os novos temas em sala de aula.

O contexto brasileiro: violência de gênero e feminicídio

No Brasil, a questão da violência contra a mulher ainda é gravíssima e profunda. Dados oficiais mostram que os feminicídios — homicídios motivados pela condição de gênero — continuam em níveis elevados. Em 2024, foram registrados cerca de 1.450 casos de feminicídio no país, o que equivale a uma média de quase quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero.

Outros levantamentos apontam que apenas no primeiro semestre de 2025 já foram contabilizados 718 feminicídios, com cerca de 187 estupros por dia, mostrando que a violência letal e não letal segue sendo uma realidade que não pode ser ignorada.

Esses números refletem não apenas a extrema violência física, mas também a persistência de padronizações de gênero historicamente construídas que alimentam atitudes de posse, controle, desprezo e objetificação das mulheres. Isso está em consonância com análises internacionais que mostram a violência de gênero como um continuum — indo desde agressões simbólicas e psicológicas até atos fatais.

Educação e transformação cultural

O exemplo britânico nos convida a pensar: se um currículo escolar pode ensinar desde cedo o valor do respeito, da igualdade e do pensamento crítico frente a comportamentos prejudiciais, por que isso ainda não é uma estratégia prioritária no Brasil? A educação que se limita à transmissão de conteúdos técnicos ou históricos perde a chance de ser uma força transformadora das relações sociais.

A implementação de temas como consentimento, respeito mútuo, desconstrução de estereótipos e compreensão crítica do ambiente digital pode contribuir para a prevenção da violência antes que ela se enraíze. Inserir isso como um eixo transversal nas escolas brasileiras — aliado a políticas públicas de formação docente — poderia não apenas proporcionar habilidades socioemocionais aos estudantes, mas também desafiar as normas culturais prejudiciais que sustentam a violência de gênero.

Como isso poderia ser aplicado no Brasil

Um programa eficaz no Brasil teria que:

  1. Treinar educadores para lidar com temas sensíveis de forma empática, crítica e culturalmente disponível, considerando desigualdades regionais e sociais.
  2. Integrar a temática nos componentes curriculares, de maneira articulada com áreas como língua portuguesa, história, sociologia e ética, para que o respeito e a igualdade sejam ensinados tanto como conhecimento quanto como prática relacional.
  3. Combinar ações educacionais com políticas públicas de proteção e acesso à justiça, incluindo serviços de acolhimento, redes de apoio e mecanismos que responsabilizem perpetradores de violências.
  4. Promover programas de educação parental, para que a desconstrução de normas machistas não fique restrita à escola, mas permeie os lares e comunidades.

Essa não seria uma solução mágica, mas um passo necessário na direção de uma cultura que vê a igualdade de gênero não como tópico político controverso, mas como princípio fundamental de convivência humana.

Conclusão

Quando olhamos para o Reino Unido e vemos um currículo que combina educação psicoemocional, relacional e moral com o ensino acadêmico tradicional, percebemos uma oportunidade: a educação pode e deve ser um meio de prevenção, não apenas de transmissão. No Brasil, onde a violência de gênero ainda ceifa vidas todos os dias, a escola pode ser um lugar de sementeira de respeito, cuidado e responsabilidade social. O desafio é complexo, mas o potencial de transformação é imenso: e começa com a coragem de olhar para a educação como uma força de humanização.

CAPA – Bridget Phillipson: Secretária de Estado para Educação e também Ministra das Mulheres e Igualdades (Secretary of State for Education and Minister for Women and Equalities) do governo britânico. Foi ela quem assinou e apresentou oficialmente a nova orientação RSHE, anunciando e defendendo as atualizações no Parlamento, destacando a importância de abordar temas contemporâneos como relações saudáveis e respeito nas escola.

Fontes pesquisadas

  • Guidance on Relationships, Sex and Health Education (RSHE) – GOV.UK (Reino Unido). RSHE statutory guidance (UK Government)
  • Declarações parlamentares sobre RSHE e prevenção de violência contra mulheres. (Hansard)
  • Dados oficiais de feminicídio no Brasil – Ministério da Justiça e Segurança Pública. (Agência Brasil)
  • Levantamentos do Mapa Nacional da Violência de Gênero – Senado Federal (2025). (Senado Federal)
  • Estatísticas globais de violência de gênero da ONU (UNODC / ONU Mulheres). (As Nações Unidas em Brasil)
  • UNESCO e diretrizes globais sobre educação em sexualidade e igualdade de gênero. (unesco.org)





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