Desde os primeiros dias de vida, antes mesmo da palavra e da memória narrativa, o ser humano organiza o mundo a partir das experiências emocionais que vive. A psicanálise nos ensina que não é apenas o que acontece, mas como somos recebidos no que sentimos, que estrutura a forma como passamos a existir no mundo. Melanie Klein, ao aprofundar o estudo das relações iniciais com os objetos primários, deixou claro que o cuidado, a presença e a resposta emocional do outro constroem o alicerce da confiança, da segurança interna e da capacidade de lidar com angústias futuras.
No Brasil, onde muitas famílias convivem com jornadas exaustivas, desigualdades sociais e uma cultura historicamente marcada pela desvalorização da infância enquanto etapa emocionalmente complexa, falar de apego seguro e validação emocional não é um luxo teórico, é uma urgência ética, social e clínica. Crianças que não encontram acolhimento para suas emoções tendem a crescer acreditando que sentir é perigoso, exagerado ou inadequado. É nesse ponto que o trabalho de psicólogos contemporâneos como Rafa Guerrero ganha relevância, ao traduzir conceitos profundos da teoria do apego em práticas acessíveis ao cotidiano de famílias e educadores.
A construção emocional da infância, segundo Rafa Guerrero
Rafa Guerrero é psicólogo clínico e educacional espanhol, doutor em Educação, com ampla atuação nas áreas de apego, desenvolvimento emocional, infância, adolescência e parentalidade. Diretor do centro Darwin Psicólogos, em Madrid, ele se tornou uma referência internacional por sua capacidade de comunicar temas complexos de forma clara, responsável e fundamentada cientificamente.
Em seus livros, entrevistas, podcasts e cursos, Guerrero insiste em um ponto central. A infância não é apenas uma fase de preparação para a vida adulta. Ela é, em si mesma, estruturante. A forma como uma criança é cuidada emocionalmente determina como ela confiará, se vinculará e regulará suas emoções ao longo da vida.
Guerrero explica que o apego seguro se constrói quando a criança percebe, de forma repetida e consistente, que suas emoções são reconhecidas, nomeadas e acolhidas por um adulto disponível. Não se trata de atender todos os desejos, mas de responder às necessidades emocionais com presença, previsibilidade e empatia. Quando isso acontece, a criança internaliza uma sensação profunda de segurança. Ela aprende que o mundo pode ser um lugar confiável e que suas emoções não são ameaças, mas sinais legítimos do que acontece dentro dela.
Em entrevistas e falas públicas, ele ressalta que crianças emocionalmente validadas desenvolvem maior capacidade de autorregulação, empatia, tolerância à frustração e autoestima. Por outro lado, quando as emoções são constantemente minimizadas, ignoradas ou ridicularizadas, a criança tende a desenvolver insegurança emocional, dificuldades de vínculo e, mais tarde, problemas de ansiedade, impulsividade ou retraimento afetivo.
Essa visão dialoga diretamente com a psicanálise kleiniana, que compreende o mundo interno como um espaço moldado pelas primeiras experiências de cuidado. O adulto que valida não elimina a dor da criança, mas a ajuda a ser simbolizada, pensada e integrada.
10 maneiras práticas de construir um ambiente de apego seguro e validação emocional
A seguir, apresento práticas concretas, possíveis e profundamente transformadoras, inspiradas no trabalho de Rafa Guerrero e alinhadas à compreensão psicanalítica do desenvolvimento emocional.
1. Responder ao choro como comunicação, não como problema
Quando um bebê ou uma criança chora, ela está dizendo algo sobre seu estado interno. Aproximar-se, acolher e responder com calma ensina que pedir ajuda é seguro. Exemplo cotidiano: ao ouvir o choro durante a noite, o adulto se aproxima, fala com voz tranquila e oferece contato físico, mostrando que a criança não está sozinha em sua angústia.
2. Nomear emoções ajuda a organizá-las
A criança precisa de palavras emprestadas até conseguir construir as suas próprias. Exemplo cotidiano: diante de uma birra, o adulto diz “você está bravo porque queria continuar brincando”, ajudando a criança a compreender o que sente.
3. Validar não é concordar, é reconhecer
A validação emocional não significa permitir tudo, mas reconhecer o sentimento antes de orientar o comportamento. Exemplo cotidiano: “Eu entendo que você está frustrado. Mesmo assim, não podemos bater.”
4. A previsibilidade gera segurança interna
Rotinas estáveis organizam o mundo emocional da criança. Exemplo cotidiano: horários regulares para dormir, comer e brincar criam uma sensação de continuidade e proteção.
5. A presença vale mais que longas explicações
Muitas vezes, a criança precisa mais do adulto disponível do que de discursos educativos. Exemplo cotidiano: sentar ao lado da criança após um conflito, sem pressa de corrigir, apenas estando ali.
6. Ensinar pelo exemplo é a forma mais eficaz
A criança aprende observando como o adulto lida com suas próprias emoções. Exemplo cotidiano: o adulto verbaliza “estou irritado agora, vou respirar para me acalmar”.
7. Acolher o medo sem ridicularizar
O medo infantil é real para quem o sente. Exemplo cotidiano: diante do medo do escuro, o adulto reconhece o sentimento e oferece companhia, em vez de desqualificar.
8. Incentivar a autonomia com base segura
O apego seguro não prende, ele sustenta. Exemplo cotidiano: permitir que a criança tente se vestir sozinha, estando por perto caso precise de ajuda.
9. Escutar o dia da criança com interesse genuíno
A escuta constrói autoestima emocional. Exemplo cotidiano: perguntar como foi o dia e ouvir sem interrupções, celulares ou julgamentos.
10. Reparar vínculos após conflitos
Errar faz parte do vínculo. Reparar é o que o fortalece. Exemplo cotidiano: após perder a paciência, o adulto conversa, reconhece o erro e reafirma o afeto.
Considerações finais
Cuidar emocionalmente de uma criança não significa protegê-la de toda dor, mas acompanhá-la enquanto ela aprende a sentir, pensar e existir. O que Rafa Guerrero nos lembra, com clareza e responsabilidade, é que a segurança emocional não nasce da perfeição parental, mas da disponibilidade afetiva constante.
No contexto brasileiro, onde tantas infâncias perpassam por ausências, pressões e silenciamentos emocionais, promover o apego seguro é um ato de reparação social. Cada criança que aprende que suas emoções importam se torna um adulto mais capaz de amar, confiar e conviver.
A psicanálise já nos ensinou que o mundo interno se constrói nos primeiros encontros. Cabe a nós decidir se esses encontros serão marcados pelo medo ou pela confiança. E essa escolha começa, sempre, no cotidiano mais simples.
Fontes e referências consultadas
- Rafa Guerrero, página oficial e biografia profissional
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Educación emocional y apego (Edição atualizada)
Manual prático que explora o que são emoções, apego e como promover vínculos seguros com estratégias para educadores e pais; disponível em formato físico e ebook em espanhol. -
El desarrollo emocional de tu hijo: Cuentos desde la teoría del apego
Obra em que sentimentos e a teoria do apego são explicados através de histórias e narrativas para facilitar a compreensão de adultos e crianças. -
Trauma: Niños traumatizados, adultos con problemas
Aborda o impacto dos traumas na infância e como eles podem repercutir na vida adulta, com explicações teóricas e casos práticos. - Podcast com Rafa Guerrero sobre apego e educação emocional – Kenso Podcast, Episódio 245
- Entrevistas sobre tipos de apego e desenvolvimento emocional – Infobae Espanha
- Teoria do apego e desenvolvimento emocional infantil: John Bowlby; Mary Ainsworth
- Psicanálise das relações objetais – Melanie Klein

