Nas últimas duas décadas, a literatura científica consolidou um consenso incômodo: crianças e adolescentes estão se movendo menos do que o necessário para um desenvolvimento saudável.

Um dos marcos mais robustos desse diagnóstico é o estudo liderado pela Organização Mundial da Saúde, publicado na revista The Lancet Child & Adolescent Health, que analisou dados de aproximadamente 1,6 milhão de jovens em 146 países.

O resultado é consistente e alarmante: mais de 80% dos adolescentes no mundo não atingem o nível mínimo recomendado de atividade física, definido como ao menos 60 minutos diários de intensidade moderada a vigorosa.

No contexto brasileiro, estimativas derivadas desses mesmos parâmetros apontam índices ainda mais elevados de insuficiência de atividade física, frequentemente situados em torno de 80% a 84%. Esses números aparecem tanto em análises epidemiológicas quanto em relatórios institucionais, sendo frequentemente retomados por veículos como a Organização Pan-Americana da Saúde e por estudos observacionais conduzidos no país.

Embora variações metodológicas existam, a tendência é inequívoca: há um deslocamento progressivo do comportamento infantil e juvenil em direção à inatividade.

É importante, no entanto, qualificar o conceito. A maior parte dessas pesquisas não descreve uma geração completamente imóvel, mas sim insuficientemente ativa.

Trata-se de uma distinção técnica relevante. O problema não é apenas a ausência total de movimento, mas a redução sistemática de experiências corporais capazes de sustentar saúde metabólica, regulação emocional e integração psicossocial.

Paralelamente, cresce o corpo de evidências que associa esse padrão a transformações ambientais e culturais. Revisões recentes indicam que fatores como urbanização, insegurança nos espaços públicos, mudanças nos modelos familiares e, sobretudo, a expansão do uso de dispositivos digitais, reconfiguram o cotidiano infantil. Instituições como a American Academy of Pediatrics e a Sociedade Brasileira de Pediatria têm reiterado que o tempo excessivo de tela, quando não mediado, está associado a prejuízos no sono, na atenção, na regulação emocional e nos padrões de atividade física.

No entanto, a leitura puramente comportamental ou biomédica desse fenômeno é insuficiente. Os dados são sólidos ao descrever o que está acontecendo, mas dizem menos sobre o que isso significa em termos de constituição subjetiva, vínculos e modos de existir. Entre o corpo que se move menos e a mente que se estimula mais, abre-se um campo de tensão que exige interpretação para além da estatística. É nesse intervalo entre evidência e sentido que este artigo se insere.

A geração sedentária: entre o corpo imóvel e a psique saturada

Há um equívoco inicial: chamar essa geração de sedentária como se fosse apenas uma questão física.

O corpo parou, mas a mente nunca esteve tão hiperestimulada. A criança de hoje não está “em repouso”. Ela está: excitada, capturada, hiperconectada.

Na linguagem psicanalítica, há um deslocamento do investimento libidinal:

  • antes, no corpo e no mundo externo
  • agora, na imagem, na tela, no estímulo contínuo

O que se perde não é apenas movimento. Perde-se experiência sensório-motora integrada, fundamental para a constituição do eu.

A infância colonizada pelo estímulo contínuo

O que a ciência chama de sedentarismo, a psicanálise pode ler como: dificuldade de simbolizar o vazio. A tela ocupa o espaço que antes era do: tédio; do brincar livre; da imaginação..

Sem esse intervalo, o psiquismo não metaboliza. A criança não cria. Ela consome. E isso altera: a atenção; tolerância à frustração; capacidade de espera.

Estudos mostram que atividade física melhora inclusive cognição e socialização. Logo, não se trata apenas de corpo. Trata-se de estrutura psíquica.

Famílias exaustas e o paradoxo do cuidado

A narrativa simplista culpa os pais. Isso é reducionista. A realidade é outra: jornadas longas; cidades inseguras; ausência de espaços públicos; exaustão emocional.

Nesse prisma a tela torna-se: regulador emocional; babá digital; mediador de silêncio. E isso não é descuido. É estratégia de sobrevivência psíquica de toda atual estrutura familiar.

Neurodivergência: quando o problema muda de natureza

Para crianças neurodivergentes (como no Transtorno do Espectro Autista ou TDAH), a questão é mais complexa.

A tela não é apenas risco. Pode ser: fonte de regulação sensorial; previsibilidade; interesse restrito estruturante

Mas há riscos específicos: hiperfoco digital; isolamento social ampliado; menor engajamento corporal

Especialistas defendem equilíbrio, não proibição. A intervenção precisa ser: gradual, estruturada, adaptada ao perfil neurológico

O sedentarismo como sintoma social

Os dados epidemiológicos delineiam um fenômeno coletivo consistente. No plano da experiência vivida, porém, o que se configura é mais profundo: uma geração que se afasta do contato direto com o real. Há menos corpo em ação, menos chão percorrido, menos mundo experimentado. Em seu lugar, instala-se uma mediação contínua que substitui a experiência pela representação, o encontro pela imagem, a presença pela distância.

Esse deslocamento não é neutro. Ele incide sobre a própria constituição do sujeito. O corpo, que deveria ser via de exploração, vínculo e simbolização, passa a ocupar um lugar secundário diante de estímulos já prontos, que não exigem elaboração, apenas resposta. O brincar, que antes articulava fantasia, conflito e criação, cede espaço a conteúdos que chegam acabados, reduzindo a possibilidade de transformar a experiência em sentido.

Nesse cenário, o desenvolvimento deixa de ser apenas uma sequência biológica ou comportamental e passa a refletir as condições de mediação que organizam a relação com o mundo. Quando a experiência direta é rarefeita, também se fragiliza a capacidade de imaginar, narrar e integrar afetos. O sujeito passa a habitar mais as imagens do que as próprias vivências.

Não se trata, portanto, apenas de sedentarismo. Trata-se de uma inflexão na forma de existir: uma mudança na maneira como o indivíduo se inscreve no mundo, constrói sentido e aprende a ler a própria experiência.

A responsabilidade do estado 

Nesse contexto, o papel do Estado, da escola e da sociedade não pode ser reduzido a recomendações comportamentais, pois o que está em jogo é a própria arquitetura da experiência humana contemporânea.

O Estado organiza o possível ao definir políticas urbanas, educacionais e de saúde que podem ampliar ou restringir o acesso ao corpo, ao encontro e ao espaço público.

A escola, por sua vez, não é apenas transmissora de conteúdo, mas mediadora de mundo; quando privilegia desempenho em detrimento da experiência, também contribui para a abstração da vida concreta.

Já a sociedade, atravessada por lógicas de aceleração, produtividade e hiperestimulação, produz sujeitos mais adaptados ao consumo de imagens do que à construção de sentido. Nesse entrelaçamento, o sedentarismo deixa de ser um hábito individual e se revela como expressão de uma cultura que, ao mesmo tempo em que oferece múltiplas conexões, fragiliza a presença.

A responsabilidade, portanto, é difusa e estrutural: trata-se de reconfigurar não apenas práticas, mas os próprios ambientes simbólicos e materiais onde o sujeito se constitui.

O que dizem especialistas: 10 caminhos possíveis

Baseado em recomendações da OMS, estudos científicos e políticas públicas:

  1. Garantir mínimo de 60 minutos diários de atividade física
  2. Reduzir tempo de tela, especialmente recreativo
  3. Estimular brincar livre não estruturado
  4. Reforçar educação física de qualidade nas escolas
  5. Criar ambientes urbanos seguros para brincar
  6. Incentivar atividades em grupo (impacto social positivo comprovado)
  7. Envolver família nas rotinas ativas
  8. Integrar tecnologia de forma positiva (apps de saúde, intervenções digitais)
  9. Adaptar estratégias para crianças neurodivergentes
  10. Políticas públicas intersetoriais (educação, saúde, urbanismo)

A própria OMS enfatiza que o problema exige ação multissetorial

Entre o movimento e o sentido

Os dados são duros. Mas o fenômeno é mais profundo. Não estamos apenas criando corpos parados.

Estamos criando subjetividades mediadas. A criança que não corre, muitas vezes também: não elabora; não simboliza; não experimenta o mundo em sua densidade.

E, no entanto, não há culpados simples. Há uma estrutura cultural que potencializa tudo ao mesmo tempo em que castra o indispensável: a vida social.

Talvez a saída não esteja apenas em “tirar a tela”. Mas em devolver à criança: o tempo; o corpo; o encontro; o tédio fértil. Porque é na experiência do tédio que nasce desejo da criatividade. E sem desejo, nem o corpo se move.

Fontes pesquisadas: 






Clara Dawn é romancista, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante com o tema: "A mente na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: [email protected]