Poucas experiências sensoriais são tão imediatas quanto o olfato. Em segundos, um perfume pode nos transportar à infância, recuperar uma lembrança aparentemente esquecida ou provocar uma sensação de conforto difícil de explicar. Isso acontece porque o sistema olfativo mantém conexões estreitas com áreas cerebrais ligadas à emoção e à memória. Antes mesmo de identificarmos conscientemente um aroma, ele já pode ter despertado uma reação afetiva.

Por essa razão, o perfume é muito mais do que um acessório de beleza. Pode funcionar como assinatura de identidade, gesto de autocuidado, marcador de uma fase da vida ou fonte de segurança emocional. Em alguns casos, porém, a relação com as fragrâncias ultrapassa o prazer estético: pesquisar, desejar e comprar novos frascos passa a ocupar um espaço crescente na vida psíquica, até se tornar uma necessidade difícil de controlar.

A neurociência, a psicologia e a teoria do apego ajudam a compreender essa passagem. Nossa relação com os perfumes nasce da interação entre memória, aprendizagem, cultura, identidade e circuitos de recompensa. Entender esses mecanismos permite distinguir a apreciação saudável de um vínculo marcado pela dependência emocional ou pelo consumo compulsivo. É nessa fronteira entre prazer sensorial e obsessão que este artigo se concentra.

O olfato, a emoção e a memória

O olfato ocupa uma posição singular entre os sentidos. Os estímulos olfativos mantêm conexões diretas com regiões como a amígdala, o hipocampo e o córtex piriforme. A amígdala participa da avaliação emocional das experiências; o hipocampo, da formação e da recuperação de memórias autobiográficas. Quando um aroma familiar mobiliza essas estruturas, o cérebro não recupera apenas um fato: pode reconstruir parte da atmosfera emocional em que ele foi vivido.

Assim, o perfume usado por um familiar, o cheiro de uma casa antiga, o aroma de uma flor presente na infância ou uma fragrância adotada em uma fase marcante podem desencadear recordações surpreendentemente vívidas. Esse efeito ficou conhecido como Fenômeno de Proust, em referência à passagem de “Em Busca do Tempo Perdido” na qual o sabor e o aroma de uma madeleine mergulhada no chá despertam lembranças da infância. Pesquisas posteriores mostraram que os odores são especialmente eficazes na evocação de memórias autobiográficas carregadas de emoção.

Isso não significa, entretanto, que existam aromas universalmente ligados à felicidade, à tristeza ou à segurança. O significado emocional de um perfume depende da história individual. Uma nota que transmite acolhimento a alguém pode ser indiferente ou desagradável para outra pessoa. Quando escolhemos uma fragrância, portanto, não reagimos apenas às suas moléculas aromáticas, mas também às histórias que aprendemos a associar a elas.

O cérebro aprende a gostar e a desgostar de cheiros

As preferências olfativas não nascem prontas. Elas são construídas pela combinação de predisposições biológicas, experiências afetivas e contexto cultural. Desde o início da vida, o cérebro associa odores a estados emocionais. O cheiro da pele de quem cuida, das roupas, da casa e dos alimentos compartilhados em momentos de proteção integra uma rede de memórias que pode permanecer ativa por muitos anos.

Esse mecanismo é chamado de aprendizagem associativa. O cérebro registra não apenas o aroma, mas também o ambiente, as pessoas presentes, os sons, as sensações corporais e as emoções daquele momento. Por isso, um perfume raramente evoca uma lembrança isolada; com frequência, recupera uma experiência inteira.

A cultura também molda nossas escolhas. Diferentes sociedades relacionam certas notas à limpeza, à sensualidade, à elegância, à espiritualidade ou à sofisticação. Essas representações passam a compor nosso repertório psicológico e influenciam preferências muitas vezes percebidas como espontâneas. O estado emocional do presente também interfere: em períodos de estresse, alguém pode procurar aromas associados à tranquilidade; quando busca disposição, pode preferir fragrâncias percebidas como frescas ou estimulantes. Não se trata de regra fixa, pois as respostas variam amplamente entre indivíduos.

A escolha de um perfume, portanto, não revela de modo simples uma personalidade imutável. Ela expressa uma interação dinâmica entre memória, cultura, contexto e necessidades emocionais. Mais do que moléculas, o cérebro escolhe significados.

Apego: quando um aroma transmite segurança

Se a neurociência explica como os odores alcançam rapidamente os centros emocionais do cérebro, a Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby, ajuda a compreender por que algumas fragrâncias adquirem valor afetivo tão profundo. Segundo essa teoria, os primeiros vínculos com os cuidadores participam da formação das maneiras pelas quais buscamos proteção, conforto e segurança ao longo da vida.

Bowlby não tratou especificamente dos perfumes. Ainda assim, é plausível considerar que os odores presentes nas primeiras experiências de cuidado se tornem parte do repertório sensorial associado à proteção. O cheiro de uma pessoa, de uma roupa ou do ambiente familiar pode ser incorporado como componente da experiência de acolhimento. Mais tarde, fragrâncias semelhantes talvez despertem tranquilidade sem que a pessoa consiga explicar conscientemente o motivo.

O aroma, nesse caso, não produz sozinho a emoção. Ele funciona como pista sensorial para reativar experiências armazenadas pelo cérebro. Isso explica por que um mesmo perfume pode parecer “aconchegante” para alguém e causar indiferença ou desconforto em outra pessoa: cada resposta depende das associações construídas ao longo de uma história singular.

A função emocional dos objetos

O pediatra e psicanalista Donald Winnicott formulou o conceito de objeto transicional. Na infância, um cobertor, pano, brinquedo ou ursinho pode oferecer segurança diante da ausência temporária da figura cuidadora. O objeto não a substitui, mas ajuda a criança a suportar a separação enquanto desenvolve autonomia emocional.

Com o amadurecimento, esses objetos costumam perder sua importância original, mas continuamos recorrendo a elementos externos que favorecem a autorregulação. Embora Winnicott nunca tenha classificado fragrâncias como objetos transicionais, um perfume pode, em certas circunstâncias, exercer função simbolicamente semelhante. Uma fragrância recebida de alguém importante, usada em momentos decisivos ou associada a pertencimento e proteção pode tornar-se um recurso emocional.

Isso não representa necessariamente dependência. Escolher um perfume antes de uma entrevista, apresentação ou encontro pode ser um modo saudável de organizar a experiência e fortalecer a confiança. O aroma atua como marcador psicológico de continuidade: ajuda a pessoa a reconhecer a própria identidade em situações desafiadoras. Nesse contexto, deixa de ser apenas cosmético e passa a integrar a experiência subjetiva.

A atenção se torna necessária quando a fragrância deixa de apoiar a autonomia e passa a substituí-la. Se alguém acredita que só conseguirá enfrentar uma situação com determinado perfume, ou sente desconforto intenso diante da possibilidade de ficar sem ele, o objeto pode ter assumido uma função excessiva. Isso não basta para indicar um transtorno, mas revela que o perfume já não apenas amplia o bem-estar: começa a limitar os recursos internos de enfrentamento.

Essa mudança costuma ser gradual. O interesse estético pode transformar-se, aos poucos, em tentativa repetida de aliviar ansiedade, insegurança, vazio ou sofrimento. Para entender essa passagem, é preciso observar também o sistema cerebral de recompensa.

O prazer da compra e a antecipação da recompensa

O sistema de recompensa reúne estruturas envolvidas na motivação, na aprendizagem e na atribuição de valor às experiências, entre elas a área tegmental ventral, o núcleo accumbens e o córtex pré-frontal. A dopamina, frequentemente chamada de “neurotransmissor do prazer”, tem uma função mais complexa: participa sobretudo da antecipação da recompensa, da motivação para agir e do aprendizado de comportamentos que já produziram resultados positivos.

Por isso, o momento mais excitante nem sempre é o uso do perfume, mas o processo anterior à compra: conhecer lançamentos, assistir a resenhas, comparar notas, visitar lojas, imaginar a fragrância e esperar a encomenda. O cérebro aprende a obter satisfação não apenas com o objeto, mas com sua expectativa. É comum que a euforia da busca diminua pouco depois de o frasco entrar na coleção.

Esse movimento se relaciona à adaptação hedônica. Experiências inicialmente prazerosas tornam-se familiares, e a motivação pode se deslocar para uma novidade capaz de renovar o estímulo. A pessoa espera meses por um perfume, usa-o intensamente por alguns dias e logo começa a pesquisar o próximo.

Nada disso, isoladamente, caracteriza doença. Hobbies e coleções podem oferecer prazer, conhecimento, sociabilidade e expressão pessoal. O problema surge quando a satisfação deixa de estar no uso consciente das fragrâncias e passa a depender da aquisição contínua. Comprar torna-se uma estratégia de regulação emocional: a ansiedade diminui, o vazio parece recuar e a espera oferece excitação. Como o efeito é passageiro, uma nova compra se torna necessária, fortalecendo um ciclo difícil de interromper.

Colecionismo ou comportamento compulsivo?

Colecionar perfumes não é, por si só, um problema psicológico. O colecionador pode estudar história, composição, matérias-primas, perfumistas, evolução das fragrâncias, design dos frascos e patrimônio cultural. A aquisição é planejada e integrada a um interesse legítimo, como ocorre com livros, moedas, obras de arte ou instrumentos musicais.

A preocupação aparece quando a coleção deixa de ser orientada pelo interesse e passa a ser governada por urgência emocional. A diferença não está apenas na quantidade de frascos, mas na liberdade de escolher, nas consequências das compras e na função que elas desempenham.

Relação saudável e Sinais de alerta

A compra é planejada e cabe no orçamento. Há gastos impulsivos, dívidas ou prejuízo ao orçamento familiar.

As fragrâncias são usadas, estudadas e apreciadas. Muitos frascos são acumulados sem uso e logo perdem o interesse.

Não comprar não causa sofrimento intenso. Surge ansiedade, irritação ou sensação de vazio quando a compra não ocorre.

O perfume expressa identidade e prazer. A aquisição serve principalmente para aliviar tristeza, solidão ou insegurança.

As compras são tratadas com transparência. Há culpa, arrependimento, ocultação de gastos ou mentiras à família.

Nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir que exista compulsão. Eles indicam, contudo, que a relação com o consumo merece atenção, sobretudo quando se repetem e provocam sofrimento.

Como preservar uma relação saudável com a perfumaria

Observar a função da compra é mais útil do que impor regras rígidas sobre o tamanho de uma coleção. Antes de adquirir uma fragrância, vale perguntar se o desejo nasce da curiosidade e do prazer ou de uma urgência para silenciar uma emoção desagradável. Adiar a decisão por alguns dias permite perceber se o interesse permanece quando a ansiedade diminui.

Outra prática importante é deslocar o foco da aquisição para a experiência. Reencontrar fragrâncias já existentes, registrar as memórias que evocam, comparar sua evolução na pele ou compartilhar impressões com outros apreciadores pode ampliar o prazer sem exigir uma compra constante. A coleção volta, assim, a ser fonte de conhecimento e sensibilidade, em vez de simples sucessão de novidades.

Convém reconhecer os gatilhos criados pelo ambiente digital. Resenhas, lançamentos frequentes, edições limitadas e imagens de grandes coleções podem produzir sensação de escassez ou inadequação. Reduzir essa exposição não significa abandonar o hobby, mas recuperar distância para decidir. Quando a pessoa consegue tolerar o desejo sem agir imediatamente, o perfume permanece uma escolha.

Por fim, emoções difíceis não precisam ser tratadas como falhas pessoais. Se comprar se tornou a principal forma de lidar com tristeza, solidão ou ansiedade, buscar outras fontes de apoio — relações, descanso, atividades significativas ou acompanhamento profissional — pode enfraquecer o ciclo de compensação. O cuidado está em preservar o prazer sem entregar ao objeto a responsabilidade de sustentar sozinho o equilíbrio emocional.

Quando os cheiros viram obsessão

A obsessão raramente começa de forma abrupta. Em geral, mistura-se ao entusiasmo e à curiosidade pelo universo da perfumaria. Aos poucos, a pessoa dedica horas à pesquisa de lançamentos, organiza a rotina em torno das compras, acompanha resenhas de maneira compulsiva e sente frustração intensa quando não consegue adquirir uma novidade. O objeto deixa de ocupar apenas uma prateleira e passa a organizar a vida emocional.

É nesse contexto que pode aparecer a oniomania, termo empregado para descrever um padrão persistente de compras compulsivas associado a sofrimento psicológico, prejuízo financeiro ou impactos sociais e familiares. Sua classificação diagnóstica ainda é discutida, mas o aspecto central não é a quantidade de produtos: é a perda progressiva do controle sobre o impulso de comprar.

Na perfumaria, esse padrão pode surgir quando a aquisição deixa de atender ao interesse genuíno e se torna uma tentativa recorrente de aliviar emoções desagradáveis. O circuito costuma seguir uma sequência: tensão emocional, compra, alívio temporário, culpa ou vazio e nova necessidade de comprar. Quanto mais ele se repete, mais automático tende a se tornar, independentemente da utilidade real dos perfumes adquiridos.

Quando há comprometimento financeiro, conflitos, ocultação das compras, sofrimento ou incapacidade de interromper o comportamento, pode ser importante procurar um profissional de saúde mental. O objetivo não é condenar o interesse por perfumes, mas recuperar a liberdade de escolha e compreender as necessidades emocionais às quais o consumo passou a responder.

Perfume, identidade e self estendido

Outro elemento essencial é a construção da identidade. Russell Belk formulou o conceito de self estendido, segundo o qual os objetos que possuímos podem se tornar extensões simbólicas de quem somos. Eles narram nossa história, expressam valores, marcam pertencimentos e comunicam aspectos da personalidade.

Os perfumes ocupam lugar singular nesse processo porque acompanham o indivíduo de forma invisível. Não apenas são vistos ou guardados: são sentidos no corpo e no espaço, participando da maneira como a pessoa percebe a própria presença. A frase “esse perfume sou eu” revela que certas fragrâncias integram a narrativa pessoal, evocando conquistas, relações, viagens e fases marcantes.

Colecionar pode, assim, ser uma forma legítima de preservar memórias, celebrar experiências e produzir significado. O problema começa quando a identidade deixa de se expressar por meio dos objetos e passa a depender deles. Se o valor pessoal é medido pela quantidade de frascos, pelo acesso a lançamentos ou pela expansão permanente da coleção, o perfume deixa de representar quem a pessoa é e se transforma em tentativa de preencher o que ela sente faltar.

Considerações finais

Nossa relação com os perfumes revela, sobretudo, a capacidade humana de atribuir significado às experiências sensoriais. Uma fragrância pode ser marcador autobiográfico, elo entre passado e presente, símbolo de pertencimento, recurso de autorregulação e forma de expressão da identidade.

A neurociência mostra a proximidade entre olfato, memória e emoção. As teorias do apego ajudam a compreender por que alguns aromas adquirem valor afetivo. Winnicott oferece uma lente para pensar a função simbólica de segurança desempenhada por certos objetos, enquanto a psicologia do consumo alerta para o risco de transformar o perfume em compensação permanente para o sofrimento.

Entre o prazer e a obsessão existe uma fronteira sutil. O perfume pode ser memória, arte, identidade e afeto; pode enriquecer a experiência cotidiana e acompanhar momentos importantes. Entretanto, quando deixa de ampliar a existência e passa a compensar aquilo que falta internamente, talvez seja hora de olhar menos para o frasco e mais para a história que ele representa. Essa reflexão não diminui o valor da perfumaria; ao contrário, ajuda a preservar sua dimensão artística, afetiva e verdadeiramente livre.

A pergunta central não é apenas “qual perfume usamos?”, mas “que necessidade emocional buscamos atender ao escolhê-lo?”. É nessa resposta, sempre singular, que o cheiro deixa de ser apenas fragrância e revela sua dimensão psicológica.

Fontes e leituras recomendadas

  • Odor Memory: Review and Analysis — Rachel S. Herz e Trygg Engen
  • The Role of Odor-Evoked Memory in Psychological and Physiological Health — Rachel S. Herz
  • Neuroimaging Evidence for the Emotional Potency of Odor-Evoked Memory
  • The Proust Effect: Scents, Food, and Nostalgia
  • Como obras fundamentais para aprofundamento, destacam-se “Attachment and Loss”, de John Bowlby; “Playing and Reality”, de Donald W. Winnicott;
  • “Possessions and the Extended Self”, de Russell Belk; e “In Search of Lost Time”, de Marcel Proust.





Soraya Rodrigues de Aragão
Soraya Rodrigues de Aragão é psicóloga, psicotraumatologista e escritora. Estudou Psicologia na Universidade de Fortaleza- UNIFOR e na Università Maria Santissima Assunta- LUMSA. Equivalência do curso de Psicologia na Itália resultando em Mestrado. Especialista em Psicotraumatologia pela A.R.P. de Milão. Especialista em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde pela Sociedad Espanola de Medicina Psicosomatica y Psicoterapia- SEMPyP Especialista em Psicoterapia Breve de Casais pela SEMPyP e Universidad San Jorge. Curso superior universitário em Transtornos de personalidade- FA e Universidad Catolica San Antonio de Murcia. Curso Superior universitário em acompanhamento e intervenção terapêutica em processos de luto- FA e Universidad Catolica San Antonio de Murcia. Curso Universitário em dependência emocional- Fa e Euneiz. Especializanda em Transtornos de personalidade pela SEMPyP e Universidade San Jorge. Autora dos livros: Fechamento de ciclo e renascimento- Este é o momento de renovar a sua vida, Liberte-se do Pânico, Supere desilusões amorosas e pertença a si mesmo e do livro infantil Talita e o Portal.