Psicologia e Comportamento

Carta aos pais que desprezam meu filho autista no parquinho

Eu vejo seus olhares no playground. Tenho plena consciência de que sou a mãe da “criança travessa”. Eu entendo que você está preocupado com a educação de seu filho quando meu filho se comporta de maneira perturbadora. Talvez você até seja um daqueles que já reclamaram com o síndico do prédio.

Eu mantenho minha cabeça baixa, respiro lentamente e tenho que economizar forças para conversar com o meu filho com um sorriso e acalmar as suas inquietações, enquanto espero a coordenadora da escola, o síndico, ou seja quem for, trazer mais uma lista de reclamações.

Meu filho é autista e luta para lidar com o movimento e o barulho. No passado, ele virou mesas e cadeiras tentando comunicar seu desconforto. Eu entendo que seu filho estava com medo. Meu filho também estava assustado – assustado a ponto de não conseguir mais controlar suas ações.

É provável que quando você lê notícias que a verba para a educação inclusiva foi cortada em todo o país, você pense que não foi afetado, mas é. Levamos mais de um ano, com a ajuda da escola, para conseguir um diagnóstico e um financiamento para dar algum suporte. Disseram-me que seria mesmo muito demorado. Eu tive que desistir do meu trabalho no processo.

Seus filhos são muito gentis com meu filho. Eu acho que eles poderiam te ensinar uma coisa ou duas. Se você reservar um tempo para conversar com meu filho, convidá-lo para um encontro ou para uma festa (ele não vai a muitas), você descobrirá que ele é bem-comportado e educado. Ele também é brilhante, engraçado, atencioso e interessante. Ele tem uma maneira revigorante e diferente de ver o mundo. Seus filhos sabem disso, talvez eles tenham mencionado isso, mas você não deve ter prestado atenção.

Não estou completamente sem aliados, alguns outros pais conversam comigo. Um deles uma vez perguntou se vocês falam comigo. Quando eu disse que não, ele balançou a cabeça lentamente e respondeu com sentimento: “Eles estão cheios de merda na cabeça”. Eu ri e repasso isso em minha mente quando preciso de consolo.

Além dos portões da escola, conheci outros pais de crianças autistas, marginalizados em diferentes playgrounds. Eles são um grupo inovador, resiliente e solidário, de todas as esferas da vida, e seus filhos têm muito a oferecer ao mundo. Tenho orgulho desta tribo secreta. Então você pode continuar a ignorar, reclamar e sussurrar. Mas o meu filho, apesar da sua discriminação, será incluído e aceito, porque autismo não é uma doença, é apenas um jeito de ser, quer você queira ou não.

Carta publicada no The Guardian, tradução e livre adaptação de Portal Raízes.

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