O que você está disposta a fazer por amor? O que você fez, na esperança de ser amada e cuidada? Algumas pessoas podem se lembrar que passaram por episódios bobos e embaraçosos; que enviaram mensagens de texto no meio da noite ou que fingiram gostar de Gilmore Girls…

Em meu trabalho como psicóloga clínica, tenho visto até onde as pessoas vão por amor, mesmo que o relacionamento seja prejudicial à elas. Chamamos isso de relacionamento emocionalmente abusivo. E isso, anteriormente, era um campo negligenciado na psicologia e também na sociedade. E embora o abuso emocional seja ilegal [em muitos países], não há definição clara e é muito difícil provar [esse tipo de abuso] numa ação judicial. Como provar um crime que não deixa marcas físicas e a única testemunha é vítima?

O abuso emocional é caracterizado por um comportamento sistemático, persistente, degradante, depreciativo…uma forma humilhante do seu parceiro controlar toda a sua vida social, suas decisões financeiras, suas amizades, suas relações com familiares, seus sonhos… manipulando e pressionando emocionalmente. Tal parceiro pode ser muito ciumento e exigir saber onde você está o tempo todo.

Sim, as mulheres são submetidas a este tipo violência […]. Talvez ela ouça constantemente que é estúpida, feia e incompetente, mas as ofensas também podem ser muito sutis e manipuladoras, por intermédio de declarações como: você não sabe de nada; você está louca; você não entende nada direito; você não sabe o que está dizendo… E a consequência disso tudo, ao longo do tempo, muitas vezes, é um alto nível de estresse emocional, ansiedade, depressão e até transtorno de estresse pós-traumático e risco iminente de suicídio.

Talvez você se pergunte por que uma pessoa teria interpretado esse tipo de relacionamento com amor ou que ela teria chegado à conclusão de não seria digna de amor e que, por isso, deveria ser grata por estar vivendo aquele tipo de abuso. Na minha opinião, a teoria do estilo de apego, oferece a melhor explicação. Deixe-me explicar melhor contando uma história de uma garotinha que cresceu numa família comum com um pai, uma mãe e um irmão.

Eles moravam numa casa bonita e os pais eram bem educados. Mas também é uma história sobre uma mãe que era doente mental e que foi internada várias vezes ao longo da infância da garotinha. A sua mãe sofria de depressão, ansiedade e mais tarde descobriu-se que ela tinha transtornos de personalidade. Assim, o pai era o principal cuidador e ele provia as necessidades básicas das crianças, mas emocionalmente ele era incompetente, uma vez que rebaixava e ridicularizava seus filhos sempre que eles demonstravam suas emoções. Então, a garotinha cresceu com um misto de admiração e ansiedade em relação ao seu pai.

Quando a menina tinha 5 anos, a sua mãe sofreu um acidente de trânsito muito grave e precisou ser hospitalizada. A garota estava como medo de que não fosse apenas um acidente de carro, mas que a sua mãe poderia ter provocado o acidente de propósito. Assim, quando o seu pai, logo depois, decidiu se divorciar, a menina sentiu que não poderia deixar sua mãe sozinha e ficou com ela.

Aos 5 anos, a garotinha já se sentia totalmente responsável por sua mãe e irmão, e disposta a deixar de lado suas próprias necessidades, se culpando pelo mau-humor e a separação de seus pais. Ela cresceu com um sentimento de não ser digna de amor. A teoria do apego errado diz que essa garotinha provavelmente repetirá esse padrão em todos os seus relacionamentos, deixando suas necessidades de lado e se culpando pelo mau-humor do parceiro e se sentindo grata por qualquer tipo de amor que receber, mesmo que venha cheio de abusos. Porque para essa garota, receber esse tipo de amor se torna um padrão comum.

Mas, por outro lado, quando vemos crianças cujos emoções, pensamentos e sentimentos são validados, acolhidos e respeitados de forma correta, elas crescerão independentes e confiantes, serão adultos com alta autoestima e a capacidade de criarem relacionamentos amorosos sadios.

Então podemos observar que tanto o apego errado e apego correto, se tornam estilos que são passados de geração para geração. A boa notícia e que você pode mudar a história, você pode quebrar o ciclo do apego errado, da aceitação de relacionamentos abusivos. Porque nem toda infância abusiva precisa terminar numa vida adulta abusiva. Eu realmente sinto que um relacionamento amoroso sadio é fundamental para uma vida significativa, mas alguns de nós, tiveram um ponto de partida (a infância) muito ruim. Aceitar isso pode ser muito doloroso, mas sem essa aceitação, sem o enfrentamento das verdades sobre si mesma, e ressignificação das angústias, é praticamente impossível ter relacionamentos satisfatórios e duradouros. E o que você precisa fazer para quebrar esse padrão é buscar ajuda qualificada. Em seu processo de autocura, você aprenderá a dizer ‘não’ ao velho padrão de abusos.

Excerto de uma fala da psicoterapeuta e instrutora de Mindfulness, Signe M. Hegestand, em palestra para TED. Hegestand tem focado em relações psicologicamente abusivas, porque – como ela mesma diz: “A violência psicológica é negligenciada, destrutiva e destruidora”. No outono de 2019, ela publicou um livro sobre seguir em frente após um relacionamento psicologicamente abusivo. Assista a palestra na íntegra, abaixo. Transcrição e livre adaptação da redação de Portal Raízes.

RECOMENDAMOS






As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.