“Você diz que faria tudo pelos seus filhos. Mas faria terapia, aprenderia sobre diálogo e arrumaria sua própria bagunça para que isso não mais respingasse neles?”

Esta frase, que circula como um sopro de lucidez nas redes sociais, toca em uma ferida aberta da parentalidade contemporânea: a diferença entre o sacrifício externo e a transformação interna. Frequentemente, pais e mães orgulham-se de “dar a vida” pelos filhos, referindo-se a privações materiais, noites sem sono ou jornadas duplas de trabalho.

No entanto, a pergunta que a frase nos faz é muito mais profunda e desconfortável. Ela nos questiona sobre a disposição de enfrentar nossos próprios fantasmas, traumas e padrões automáticos para que eles não se tornem a herança emocional da próxima geração.

Espelho da Parentalidade

A Dra. Shefali Tsabary, psicóloga clínica e autora do aclamado livro “Pais e Mães Conscientes: Como transformar nossas vidas para empoderar nossos filhos” defende que nossos filhos não são projetos a serem moldados, mas espelhos que refletem nossas partes mais esquecidas e feridas. Para Tsabary, a parentalidade não é uma relação hierárquica de “quem ensina” para “quem aprende”, mas uma jornada espiritual onde o filho é o mestre que nos obriga a despertar.

Em sua obra, ela ressalta que o maior presente que podemos dar a uma criança não é uma educação de elite ou bens materiais, mas a nossa própria presença consciente. Quando a frase do card nos questiona se “arrumaríamos nossa própria bagunça”, ela ecoa exatamente o pensamento central de Tsabary: se não lidarmos com nossa “bagunça” (nossos traumas não resolvidos, nossa necessidade de controle e nossas carências), acabaremos projetando tudo isso em nossos filhos, exigindo que eles curem dores que não são deles.

O Mito da Mãe Perfeita: O Peso do Ideal Inalcançável

Um dos grandes problemas do maternar contemporâneo é a persistência do paradigma da “mãe ideal”. Vivemos em uma era de hiperinformação, onde manuais de “parentalidade positiva” e fotos esteticamente perfeitas no Instagram criam uma pressão esmagadora. O desafio aqui não é apenas a sobrecarga física, mas a sobrecarga moral. A mãe contemporânea sente que deve ser a profissional de sucesso, a esposa dedicada, a educadora lúdica e a gestora emocional da casa, tudo isso sem perder a paciência. Esse ideal inalcançável gera um sentimento crônico de insuficiência, o que nos afasta da consciência e nos joga no modo de sobrevivência.

A Invisibilidade do Cuidado e o Burnout Parental

Outra problemática central reside na invisibilidade do trabalho de cuidado. Embora a sociedade exalte a maternidade de forma romântica, ela falha em oferecer estruturas reais de suporte. O resultado é o crescimento alarmante do Burnout Parental [2]. Quando estamos exaustos, perdemos a capacidade de diálogo e caímos na reatividade. Arrumar a “própria bagunça” torna-se impossível quando mal temos tempo para respirar. O sistema cobra que a mulher seja múltipla, mas a pune pela exaustão que essa multiplicidade causa.

A Tirania da Performance e a Infância Terceirizada

Estamos inseridos em um paradigma sociocultural que valoriza a performance. Queremos filhos que sejam “os melhores”, que falem três línguas e sejam emocionalmente estáveis, muitas vezes para suprir nossas próprias frustrações de ego. Essa busca por resultados transforma a infância em uma corrida de obstáculos e a parentalidade em uma gestão de metas. O desafio é romper com essa lógica e entender que o desenvolvimento humano não segue planilhas de Excel, mas ritmos internos que exigem paciência e, acima de tudo, a aceitação de quem nós e nossos filhos realmente somos.

O Cenário Brasileiro: Entre a Solidão e a Sobrevivência

No Brasil, a discussão sobre “arrumar a própria bagunça” ganha contornos de urgência social. Segundo dados da FGV, o país conta com mais de 11 milhões de mães solo [3]. Para essas mulheres, a “rede de apoio” é muitas vezes uma miragem, e a sobrevivência financeira precede qualquer possibilidade de introspecção.

Além disso, o mercado de trabalho brasileiro ainda é punitivo com a maternidade: cerca de 60% das mães estão fora da força de trabalho [4] ou enfrentam dificuldades severas de reinserção. No cenário nacional, a “bagunça” a ser arrumada não é apenas individual, mas coletiva e estrutural. Falar em terapia e autoconhecimento em um país com abismos de desigualdade exige que reconheçamos que a saúde mental materna é um direito político, e não apenas um luxo individual.

10 Maneiras de Ser Você Mesma Sendo Múltipla

Para navegar entre tantos papéis sem se perder de si, é preciso estratégia e, principalmente, autocompaixão:

1. Estabeleça Limites Inegociáveis: Defina momentos do dia onde você não é “mãe” nem “profissional”, apenas você.

2. Pratique a Vulnerabilidade: Admita para seus filhos e para si mesma quando não souber o que fazer. Isso humaniza a relação.

3. Reivindique seus Desejos: Ter interesses, hobbies e sonhos que não incluam os filhos é vital para não sobrecarregá-los com a função de serem seu único sentido de vida.

4. Filtre a Informação: Desconecte-se de perfis que geram comparação e culpa. A sua realidade é o seu único parâmetro válido.

5. Busque sua Rede Real: Troque a perfeição das redes sociais pelo apoio real de amigos e familiares que aceitam sua imperfeição.

6. Ressignifique a Culpa: Entenda que a culpa é um mecanismo de controle social. Substitua-a pela responsabilidade consciente.

7. Priorize o Autocuidado Mental: Terapia não é gasto, é investimento na saúde emocional de toda a linhagem familiar.

8. Aprenda a Dizer Não: Você não precisa dar conta de tudo. Escolha suas batalhas e aceite que algumas bolas vão cair.

9. Cultive a Identidade Além do Maternar: Lembre-se de quem você era antes dos filhos e honre essa mulher.

10. Pratique o Perdão Diário: Perdoe-se pelas falhas do dia. Amanhã é uma nova oportunidade de ser consciente.

Conclusão: O Encontro com a Própria Sombra

Do ponto de vista psicanalítico, a frase do card nos convida a um encontro com a nossa sombra. Todos carregamos conteúdos inconscientes — desejos não realizados, raivas reprimidas e carências da nossa própria infância — que, se não forem integrados, acabam sendo “atuados” na relação com nossos filhos. O “respingar” mencionado no card é, na verdade, a transmissão transgeracional do trauma.

Quando escolhemos fazer terapia e “arrumar nossa bagunça”, estamos interrompendo um ciclo de repetição. Não se trata de ser um pai ou uma mãe perfeito — a perfeição é, inclusive, um obstáculo ao desenvolvimento saudável, pois impede que a criança aprenda a lidar com a realidade. O que se busca é ser um adulto em processo, alguém que assume a responsabilidade por sua própria subjetividade. Ao cuidarmos da nossa saúde mental, liberamos nossos filhos da pesada tarefa de nos fazer felizes ou de nos validar. Amar, no sentido mais profundo e ético, é oferecer ao outro o espaço para ser quem ele é, e isso só é possível quando nós mesmos temos a coragem de ocupar o nosso lugar no mundo.






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