Em um discurso que ressoa com a urgência dos desafios contemporâneos, Michelle Obama, advogada, escritora e ex-primeira-dama dos Estados Unidos, proferiu palavras que se tornaram um manifesto para o empoderamento feminino:

“Eu gostaria que as mulheres pudessem falhar tanto quanto os homens e ainda assim permanecessem bem. A gente assiste todos os dias homens falhando e, apesar disso, seguem crescendo. É frustrante vê-los cometendo erros graves que não lhes furtam o sucesso, enquanto nós nos submetemos a padrões insanos, muitas vezes impostos por nós mesmas, umas às outras.

Muitas de nós conseguem, enfim, fazer parte do banquete. Mas, depois de tanto esforço para ocupar esse lugar, tornamo-nos excessivamente gratas por estarmos ali e mesmo insatisfeitas hesitamos em virar a mesa.

E isso não é uma acusação. Para muitas, apenas sentar-se à mesa já exigiu uma travessia árdua. Então nos agarramos ao lugar, tentando apenas sobreviver.

No entanto, talvez tenha chegado o momento de assumir riscos pelas nossas meninas. Talvez seja preciso aceitar perder algo no caminho. Permanecer apenas defendendo o próprio assento não bastará para que elas possam ser tudo o que são capazes de ser. (Michelle Obama, Cúpula United State of Women – 2018 – ADAPTAÇÃO)

A fala de Michelle Obama, carregada de uma honestidade brutal, não é apenas um desabafo, mas um convite à reflexão profunda sobre a persistência das desigualdades de gênero em pleno século XXI. Apesar dos avanços inegáveis, a mulher ainda se vê enredada em uma teia de expectativas e pressões que limitam sua liberdade de ser, de errar e de ascender. Por que, afinal, em uma era de tanta informação e suposta igualdade de direitos, a luta feminina ainda é tão árdua? Por que o machismo ainda permeia estruturas sociais, políticas e econômicas, tornando a vida das mulheres, em suas diversas realidades, um constante desafio?

Por Que a Luta Continua no Século XXI?

O século XXI, com toda a sua promessa de progresso e equidade, ainda se depara com a teimosa persistência de amarras invisíveis que tolhem o pleno desenvolvimento feminino. A discussão sobre o lugar da mulher na sociedade e na política, que deveria ser um resquício do passado, ainda é uma realidade premente. O machismo estrutural, muitas vezes velado, manifesta-se em microagressões diárias, na disparidade salarial, na sub-representação em cargos de liderança e na violência de gênero que assola o mundo.

Dados da ONU e de outras organizações internacionais reiteram que, embora haja avanços, a paridade de gênero está longe de ser alcançada. A UNESCO, por exemplo, aponta a persistência de desigualdades de gênero na indústria criativa, com acesso desigual ao trabalho decente, remuneração justa e posições de liderança. A pandemia de COVID-19, inclusive, agravou essa situação, com mulheres perdendo empregos mais facilmente ou sofrendo redução de vencimentos.

A luta não é apenas por direitos legais, mas por uma mudança cultural profunda que desconstrua séculos de patriarcado e permita que as mulheres sejam vistas e valorizadas em sua totalidade, sem a necessidade de provar constantemente seu valor ou de se conformar a padrões irrealistas.

A Interseção de Gênero e Classe no Brasil

No Brasil, a complexidade da luta feminina é intrinsecamente atravessada pela desigualdade de classe, raça e etnia. A realidade de uma mulher rica é drasticamente diferente da de uma mulher pobre, especialmente quando consideramos as mulheres negras e indígenas. Enquanto algumas mulheres têm acesso a educação de qualidade, redes de apoio e oportunidades profissionais, outras enfrentam a dupla ou tripla jornada de trabalho, a precarização do emprego, a falta de acesso a serviços básicos e a violência em suas mais diversas formas.

A feminização da pobreza é um fenômeno alarmante no país, onde as mulheres, particularmente as chefes de família, são desproporcionalmente afetadas pela escassez de recursos.

O trabalho de cuidado, essencial para a sociedade, recai majoritariamente sobre mulheres, pobres e, muitas vezes, negras, evidenciando a imbricação das desigualdades de gênero, classe e raça. A luta por empoderamento, nesse contexto, não pode ser homogênea; ela exige políticas públicas e ações afirmativas que considerem as especificidades de cada grupo, buscando desmantelar as barreiras que impedem a ascensão social e econômica das mulheres.

Melhores países para as mulheres

Embora o cenário global ainda apresente desafios significativos, existem países que se destacam no caminho para a equidade de gênero, oferecendo modelos e inspirações. Os países nórdicos, como Suécia e Islândia, frequentemente lideram os rankings de empoderamento feminino, com altos índices de representação política, igualdade salarial e acesso a serviços de bem-estar social. A Suécia, por exemplo, foi considerada o país com maior índice de empoderamento feminino pela ONU, seguida de perto pela Islândia.

Esses países demonstram que o empoderamento feminino não é apenas uma questão de justiça social, mas também um motor para o desenvolvimento econômico e social. Políticas como licença parental igualitária, creches acessíveis, cotas de gênero em conselhos administrativos e investimentos em educação e saúde para mulheres são pilares fundamentais para a construção de sociedades mais justas e prósperas. A experiência desses lugares nos ensina que a mudança é possível, mas exige um compromisso contínuo de governos, empresas e da sociedade civil para desmantelar as estruturas patriarcais e promover a igualdade em todas as esferas da vida.

Conclusão: O Imperativo da Coragem e da Solidariedade

A fala de Michelle Obama ressoa como um chamado à coragem: a coragem de falhar, de ocupar espaços, de questionar e de transformar. A luta pelo empoderamento feminino no século XXI é multifacetada e exige uma compreensão aprofundada das interseções de gênero, classe e raça. Não se trata apenas de garantir direitos formais, mas de criar um ambiente onde todas as mulheres, independentemente de sua origem, possam florescer plenamente, sem as amarras invisíveis da perfeição ou o peso da gratidão por um lugar que lhes é de direito. A solidariedade entre as mulheres e o engajamento de toda a sociedade são imperativos para construir um futuro onde a equidade não seja uma utopia, mas uma realidade vivida por todas.






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