A gente (ainda) quer ser amado

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Tenho quase 40 anos e minha filha um pouco mais de cem dias. Ela precisa de todos os cuidados do mundo e eu…também.

Troco muitas das suas infinitas fraldas; acordo três ou mais vezes durante a madrugada para amamentá-la (durante o dia faço livre demanda quando estou em casa e sempre estou em casa); brinco o tempo todo; a embalo nos braços, pela casa, à espera de um atrasado arrotinho que lhe alivie os incômodos; canto músicas; danço; leio dezenas de matérias diárias sobre como ser uma mãe suficientemente boa (devoro Winnicott e Freud, obviamente) e estou em três grupos de amigas que discutem a maternidade.

Amo tanto que não sei mais o que é existir sem sentir tamanho medo. Tenho pavor que ela caia, sufoque, engasgue, tenha dor, tenha reação às vacinas, demore para tomar as vacinas, pegue gripe, sinta tristeza, sinta sem saber o que sente e fique angustiada. Nunca mais dormi sem estar, em algum lugar muito sensível e ágil da minha mente, completamente acordada.

Então, quando você me visitar, lembre que minha filha tem amor 24 horas por dia, o maior deles: o meu. Já eu, ando meio esquecida, relegada. Acho que se alguém me abraçar na rua, desmorono em lágrimas. Se alguém me elogiar “você é uma boa mãe, vai ficar tudo bem”, trago para morar comigo.

Ganhei seis armários de roupas para minha filha, mas ainda espero meu presente de aniversário de pessoas próximas e especiais. “Ah mas você agora é mãe, não pode pensar como uma menina!” De onde tiram que deixamos de ser carentes e meio infantis só porque parimos outro ser carente e infantil?

Passamos a infância e a adolescência desesperados por amor. Daí você tem um filho e… isso não muda em nada. Ainda queremos muito ser queridos pelas outras pessoas.

Nossa, quantas olheiras! Seu cabelo tá caindo? Vixe, que cara de cansada! Essas são as frases que me recepcionam onde vou.

Minha mãe acha que não tenho o jeito perfeito de dar banho em minha filha (nem o de trocar suas fraldas, ou colocá-la para arrotar, ou escolher as roupinhas para dias frios, ou fazer cosquinhas, ou conversar com ela, ou cuidar do seu sono… e a lista é infinita). Meu marido me incentiva a sair de casa por uma ou duas horinhas mas passa boa parte delas me mandando mensagens falsas-fofas, ao estilo “amorzinho, você demora?”. Minha sogra vive insinuando que minha filha está com fome (mesmo que ela tenha acabado de mamar demasiadamente a ponto de empurrar o bico do meu seio com a língua). Será que alguém pode APENAS me dizer: “Você tem feito um bom trabalho e está tudo bem!”? (essa segunda parte deveria ser repetida o tempo todo para uma lactante, caso o mundo fosse um lugar melhor de se viver). Se opinião fosse boa não existiriam tantos filhos únicos.

Quando cheguei da maternidade com minha filha, recebi de uma tia um email cujo título dizia “morte súbita de bebês, como evitar”. E a vontade de responder “morte súbita de parentes, como não evitar”? Estou cercada de gente que não fez terapia e cansei de achar que isso é problema meu. Passei boa parte da vida contracenando com loucos, ora por empatia, ora por semelhança. No momento, estou ocupada sendo sã o máximo que consigo. É uma tarefa cansativa justo numa fase sem descansos.

Daria o mundo para a minha filha ainda que ela não me sorrisse tanto, mas para a minha sorte, ela passa o dia lançando olhares carinhosos e gargalhadinhas pra mim. Isso significa que estou fazendo um bom trabalho. E que vai ficar tudo bem. E que ela me ama. Vejam você, minha filha tem só quatro meses e já entendeu tudo.

por – Tati Bernardi, paulistana de 39 anos, é escritora, cronista e roteirista de cinema e televisão. Este é o seu primeiro Dia das Mães, ao lado da Rita.

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