Dizem os mais velhos que os jovens são o futuro. Mas talvez o Chorão estivesse mais certo quando cantou que “o jovem no Brasil nunca é levado a sério”. A impressão que tenho é que, em pleno século XXI, nunca fomos tão cobrados e, ao mesmo tempo, tão desmerecidos.
Tenho 25 anos e faço parte da chamada geração Z. Cresci ouvindo que nós, os nascidos na era da internet, temos tudo à disposição. A justificativa costuma ser sempre a mesma: “Vocês já nasceram com o celular na mão. Não fazem porque não querem”.
É curioso. Nunca foi tão fácil encontrar textos, reportagens e análises tentando explicar por que a minha geração seria ansiosa, frágil, imediatista ou preguiçosa. Mas eu me pergunto: quantas dessas análises realmente escutam quem faz parte dela? Quantas dão voz aos próprios jovens, em vez de apenas falar sobre eles?
As gerações que vieram antes da nossa cresceram cercadas por um roteiro relativamente claro. Estudar, conseguir um bom emprego, encontrar o amor da vida, casar, comprar uma casa, ter filhos, conquistar estabilidade financeira e, de preferência, alcançar tudo isso antes dos 30 anos. Como diria Galvão Bueno, “a regra era clara”.
Esse roteiro fez sentido para muita gente. Para outras pessoas, nem tanto. E talvez o maior conflito entre gerações esteja justamente aí: ele deixou de funcionar como promessa universal, mas continua sendo tratado como obrigação.
Quando muitos jovens não conseguem ou simplesmente não desejam seguir esse caminho, a conclusão costuma ser rápida: somos irresponsáveis, acomodados ou imaturos.
No entanto, a realidade parece mais complexa. Pesquisas recentes apontam que, em diversos países, a geração Z consome menos álcool do que as anteriores. Outros estudos indicam que os jovens também iniciam a vida sexual mais tarde ou mantêm relações sexuais com menor frequência do que gerações passadas. Evidentemente, esses dados não representam todos nós, mas mostram que alguns estereótipos talvez mereçam ser revistos.
Ao contrário da caricatura do “sexo, drogas e rock and roll”, muitos jovens parecem estar mais preocupados em encontrar um trabalho que não os adoeça, relações menos superficiais e uma existência que faça algum sentido.
Isso não significa que sejamos melhores do que quem veio antes. Significa apenas que herdamos um mundo diferente.
Também herdamos conquistas importantes das gerações anteriores: mais acesso à educação, à informação, à tecnologia e a debates que antes sequer existiam. Mas herdamos, igualmente, um mundo mais acelerado, desigual e emocionalmente exausto. Crescemos ouvindo que poderíamos ser tudo o que quiséssemos, ao mesmo tempo em que aprendíamos, pelas redes sociais, que nunca parecíamos suficientes.
Talvez seja mais confortável culpar a internet por todos os nossos problemas do que admitir que a educação emocional recebeu muito menos atenção do que deveria.
Muitos de nós aprendemos cedo que ganhar presentes era mais fácil do que receber tempo. Que boas notas importavam mais do que boas conversas. Que produtividade valia mais do que vulnerabilidade.
É claro que essa não é a história de toda família. Mas é a experiência de muitos jovens da minha geração.
Somos, em muitos casos, crianças que cresceram sem dar trabalho e que, justamente por isso, aprenderam a lidar sozinhas com dores que nunca souberam nomear.
Alguns encontram apoio na terapia. Outros recorrem aos amigos. Há quem encontre na arte um caminho. E há, infelizmente, quem busque nos vícios ou em outras formas de anestesia um jeito de suportar o peso de existir.
Porque existir, hoje, não é simples. É tentar construir uma identidade em um mundo que muda depressa demais. É lidar com crises econômicas, mudanças climáticas, hiperconectividade, relações líquidas e expectativas quase impossíveis de cumprir.
Como, então, se torna adulto? Fiz essa pergunta muitas vezes durante a terapia. Quase toda sessão eu dizia à minha psicóloga que não me sentia adulta. Isso apesar de já ser formada, pagar minhas próprias contas e morar sozinha.
Curiosamente, ela também fazia parte da geração Z. Nunca me ofereceu uma resposta definitiva. Dizia apenas que talvez não existisse uma fórmula. Talvez fôssemos, de alguma maneira, crianças grandes tentando aprender a ocupar um lugar que ninguém nos ensinou exatamente como ocupar.
Hoje penso que ela tinha razão. Talvez não exista um único jeito de ser adulto. Talvez estejamos tentando construir um modelo que ainda não existe porque o modelo anterior já não responde completamente às perguntas do presente.
Provavelmente alguns leitores dirão que este texto é exagerado. Que minha geração reclama demais. Que somos fracos ou “mimizentos”.
Se isso acontecer, talvez apenas confirme aquilo que me motivou a escrever. Não porque toda crítica à geração Z seja injusta. Nós também erramos, adiamos decisões, nos perdemos e, muitas vezes, confundimos liberdade com insegurança. Mas reduzir toda uma geração a estereótipos talvez diga mais sobre quem observa do que sobre quem está sendo observado.
No fim das contas, não queremos um mundo sem responsabilidades. Queremos apenas descobrir como viver em um mundo que já não cabe nos roteiros que herdamos.
E talvez a maior tarefa da minha geração não seja repetir o passado, mas escrever um futuro que faça sentido para ela — sem desprezar quem veio antes, mas também sem fingir que o mundo continua o mesmo.