Toda perda não parece que foi ontem, parece que está acontecendo agora. Parece que a dor é de hoje. Não há como condenar a demora na recuperação. Não há como julgar que o enlutado está por muito tempo preso à despedida, que já precisa retomar a normalidade.

Não existe maneira de apressar o processo. É a readaptação de existir a partir de uma ausência. Quem carrega um morto dentro de si é obrigado a nascer de novo. Os olhos mudam. A rotina muda. A relação com os familiares e amigos muda. Não tem como desligar uma chave e seguir como se nada tivesse acontecido.

Só a indiferença neste caso é patológica. A partida pressupõe um amadurecimento que envolva humildade e resiliência. O que eu farei com o tempo que sobra quando um afeto vai embora? Aquele tempo que era dedicado a quem morreu não encontra substituto ou modo de ser preenchido.

Trata-se de uma longa reabilitação para fundar um novo lugar no mundo, pois uma ocupação amorosa virou tempo vago. É como se aposentar sumariamente de uma pessoa, de um cuidado, de uma biografia, de uma cadeia de conversas e encontros.

Tanto que às vezes a vontade é parar de se emocionar e até de amar. Há quem não queira, nos primeiros meses da morte, ter surpresas, fazer descobertas nem criar lembranças felizes para não alterar a ordem da memória, para não apagar a hierarquia da saudade.

Não acredito que no luto você deva viver um dia de cada vez. Tal métrica corresponde a uma visão otimista e ingênua sobre o assunto. A verdade é que se deve enfrentar uma hora de cada vez.

Os dias da licença médica não traduzem a realidade. O ritmo de prantear é absolutamente particular. Você pode chorar gritando ou calado, pode chorar se confessando ou não tocando no assunto, pode chorar procurando a multidão ou preservando o isolamento. Nem por isso significa que vem sofrendo mais ou menos.

Ao se quebrar um braço, são exigidas seis semanas de gesso para recolocá-lo na posição original. E quando se quebra a alma? Não podemos regular o ciclo do sofrimento alheio pelo nosso relógio, inclusive porque a dor transporta o enlutado para um outro fuso horário, para outro continente, para outra cultura da sensibilidade. Se você ainda não sabe o que é perder alguém, não condene a duração de nenhuma saudade.

(Texto de Fabrício Carpinejar – Publicado originalmente no Jornal Zero Hora, Porto Alegre – RS em 17/02/2022)

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