Neurociência afirma que livre-arbítrio não existe, somos escravos do cérebro

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A cultura diz que temos 100% de livre-arbítrio, que somos donos de nossas escolhas e escravos das consequências. Mas na verdade, estudos sugerem que, não é a nossa mente que manda a mensagem para o cérebro e a partir daí o cérebro responde com ações; é o cérebro que faz a escolha do que vamos fazer, aproximadamente, meio segundo antes de acharmos que estamos decidindo por nós mesmos. Em suma: a nossa mente recebe a decisão do seu cérebro e não o contrário como se acreditava.

Novas pesquisas sugerem que o que cremos ser escolhas conscientes são decisões automáticas tomadas pelo cérebro. O homem não seria, assim, mais do que um computador de carne. A crença no livre-arbítrio tem reflexos bastante concretos no “mundo real”. A maneira como a lei atribui responsabilidade às pessoas ou pune criminosos, por exemplo, depende da ideia de que somos livres para tomar decisões, e portanto devemos responder por elas. Mas a vitória do livre-arbítrio nunca foi completa. Nunca deixaram de existir aqueles que acreditam que o destino está escrito nas estrelas, é ditado por Deus, pelos instintos, ou pelos condicionamentos sociais. Recentemente, o exército dos deterministas – para usar uma palavra que os engloba – ganhou um reforço de peso: o dos neurocientistas. Eles são enfáticos: o livre-arbítrio não é mais que uma ilusão. E dizem isso munidos de um vasto arsenal de dados, colhidos por meio de testes que monitoram o cérebro em tempo real.

Se for assim, o que muda de fato? 

“Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”. Carl Jung

Em um estudo clássico publicado há quase 20 anos, os psicólogos Dan Wegner e Thalia Wheatley (capa) fez uma proposta revolucionária: conseguiram mapear a existência de atividade cerebral antes que a pessoa tivesse consciência do que iria fazer. Ou seja, o cérebro já sabia o que seria feito, mas a pessoa ainda não. Seríamos como computadores de carne – e nossa consciência, não mais do que a tela do monitor.

O psicólogo Benjamin Libet, em 2008, fez um experimento onde mostrou uma região do cérebro envolvida em coordenar a atividade motora apresenta atividade elétrica uma fração de segundos antes dos voluntários tomarem uma decisão – mostrando assim que a atividade cerebral precede e determina uma escolha consciente de modo involuntário, “autômato”.

Em junho de 2011, no periódico científico PLoS ONE, o pesquisador Stefan Bode e sua equipe realizaram exames de ressonância magnética em 12 voluntários, divididos em 2 grupos. E eles foram submetidos há dois testes. Antes do teste, o grupo A leu um texto que induzia a acreditar em livre-arbítrio e o grupo B, induzido a não acreditar em livre-arbítrio. Nos dois testes existiam a opção de colar. E a forma de colar era apertando um botão que dava as respostas corretas. Mas eles foram instruídos a não colar, que tentassem resolver as questões por si mesmos. Terminado o teste, foi analisado a porcentagem de cola. O grupo que foi induzido a acreditar em livre-arbítrio colou muito mais que o grupo que foi induzido a não acreditar. Entretanto, ambos os grupos não tinham a menor consciência disso. A leitura do texto influenciou a forma como o cérebro deles deveria funcionar sem que eles tivessem consciência dessa influência.

Podemos alimentar o nosso cérebro com boas informações acerca do que necessitamos para que ele decida o que é melhor para nós?

Como o cérebro já se encarregou de decidir o que fazer – e o ato está feito -, é preciso contextualizar a situação. É aí que entra a nossa consciência. Ela também é um produto da atividade cerebral, que surge para dar coerência às nossas ações no mundo. O cérebro toma a decisão por conta própria e ainda convence seu ‘dono’ que o responsável foi ele.

Em outras palavras: quando você pensa e toma decisões pontuais, tem a sensação de que um eu consciente e racional, separado do cérebro, segura as rédeas de sua vida.

Mas “a sensação de que existe um eu, que habita e controla o corpo, é apenas o resultado da atividade cerebral que nos lança no autoengano de que somos nós quem escolhemos, conquanto a escolha que fizemos foi alimentar nosso cérebro com informações acerca de algo e a partir desse algo, o cérebro toma decisões por nós”, diz Michael Gazzaniga, um dos maiores expoentes da neurociência da atualidade

Segundo Gazzaniga, o cérebro humano fabula o tempo todo. A invenção de pequenas histórias para explicar nossas escolhas seria uma maneira sagaz de estruturar nossa experiência cotidiana. Essa estrutura narrativa tem um significado importante na evolução humana.

“Criar histórias sobre as nossas ações pode ser útil para quando nos depararmos com situações similares no futuro. É assim que iremos decidir como agir, relembrando resultados anteriores”, diz. Ou seja, funcionamos na base do acerto e do erro, e da cópia do comportamento de pessoas próximas – principalmente nossos familiares. “Por isso a educação das crianças é tão importante. É um momento em que o cérebro absorve uma grande carga de informações e está sendo moldado, criando parâmetros para saber como se portar, como viver em sociedade”.

Em síntese: se você precisa tomar uma decisão importante, antes pondere em silêncio e depois passe a fornecer ao seu cérebro leituras sobre o assunto e, eis o livre-arbítrio, o seu cérebro decidirá por uma opção mais relevante.

 

Fontes pesquisadas: Estudo de Adam Bear, doutor em psicologia da Universidade Yale, New Haven, publicado originalmente em Scientific American;  Livro Como a Mente Funciona – de Steven Pinker, psicólogo dea Universidade Harvard; Estudo da Mente da Universidade da Califórnia – de Michael Gazzaniga; Revista Veja, edição de 6 de maio de 2016, por Aretha Yarak; Entrevista com Thalia Wheatley (veja abaixo). (Com traduções e livre adaptações de Portal Raízes)

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