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“O trauma moldou meu peso num caos do qual nem a magreza poderia me salvar” – Roxane Gay

“O trauma moldou meu peso num caos do qual nem a magreza poderia me salvar. Eu comia para me sentir segura, para não ser tocada. Aprendi a habitar um corpo que revelava o que tantos preferem não enxergar”.

Essa frase, escrita a partir das experiências descritas por Roxane Gay em seu livro: “Fome: Uma autobiografia do meu corpo”, ecoa o grito silenciado de tantas mulheres que viveram violências sexuais na infância e na adolescência. O livro é um testemunho visceral sobre como o trauma pode moldar não apenas a mente, mas o corpo, a relação com o alimento, com a autoestima, com o outro e com o mundo.

Roxane Gay, escritora haitiano-americana, é conhecida por suas obras que entrelaçam feminismo, identidade, sexualidade e traumas. Em Fome, ela desnuda sua história de abuso sexual aos 12 anos e como essa experiência transformou a forma como ela passou a habitar seu corpo. Com uma linguagem sensível e corajosa, Gay narra como a comida se tornou refúgio e prisão, e como seu corpo foi sendo moldado por camadas de dor, medo e sobrevivência.

O impacto devastador dos traumas na infância e adolescência

O abuso sexual infantil é uma violência que rompe não apenas a integridade física, mas também a estrutura psíquica do sujeito em formação. Na perspectiva psicanalítica, esse tipo de trauma precoce invade o psiquismo infantil antes que ele tenha recursos simbólicos para processar a experiência, gerando marcas inconscientes profundas.

Corpo: palco do sofrimento

O corpo da vítima torna-se lugar de memória traumática. Alteram-se a percepção corporal, os limites do prazer e da dor, o apetite, o sono e o movimento. Em muitos casos, transtornos alimentares surgem como tentativas inconscientes de controle sobre um corpo que foi violentado. A culpa, muitas vezes introjetada pela vítima, corrói sua autoestima e altera sua construção identitária. “Sou errada”, “Sou suja”, “Fui culpada” são fantasias inconscientes que persistem, mesmo quando a consciência reconhece a vitimização.

A vergonha e o medo de julgamento afastam a vítima da convivência social. Estabelecer vínculos afetivos pode ser desafiador, especialmente quando o afeto foi associado à violência. Raiva, tristeza, medo e culpa se misturam, provocando estados de angústia constante. A vítima pode desenvolver transtornos como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtornos dissociativos e fobias.

Cinco formas de cuidar de si após um trauma

O trauma não elaborado pode conduzir a vítima a recorrer a drogas, automutilação, distúrbios alimentares ou tentativas de suicídio, como forma de anestesiar ou dar fim ao sofrimento insuportável. Destacamos aqui, 5 formas de cuidar de si após um trauma:

1. Psicoterapia: Buscar acolhimento profissional é essencial. A psicanálise, por exemplo, possibilita que a dor encontre simbolização e elaboração.

2. Grupos de apoio: Compartilhar com quem passou por experiências semelhantes pode trazer sensação de pertencimento e validação.

3. Expressão artística: Escrever, desenhar, dançar ou cantar são formas potentes de expressar o que não pode ser dito diretamente.

4. Cuidado corporal amoroso: Movimentos como yoga, dança livre ou terapias corporais ajudam a reconectar com o corpo de forma gentil.

5. Respeito ao tempo psíquico: Não existe prazo para curar uma ferida emocional. O tempo da psique não é o tempo do relógio.

Como ajudar quem está atravessando o trauma

  • Escute sem julgar: Não minimize, não duvide, não interrogue.
  • Acolha com empatia: Frases como “sinto muito por você ter vivido isso” ajudam mais do que conselhos.
  • Incentive a busca por ajuda: Profissionais especializados podem oferecer um caminho de elaboração e cuidado.
  • Esteja presente: Sua presença constante é mais importante do que qualquer solução imediata.

A necessidade urgente de uma mudança cultural

Vivemos numa sociedade que sexualiza corpos femininos desde a infância, que silencia vítimas e que glorifica padrões de beleza inatingíveis. Romper com esses paradigmas é fundamental para prevenir abusos, acolher vítimas e permitir que cada pessoa possa habitar seu corpo sem culpa, vergonha ou dor.

Corpos gordos, corpos marcados, corpos que falam em silêncio precisam ser escutados com respeito e humanidade. A beleza é plural, e a saúde emocional passa pela escuta das dores que moldaram cada corpo.

Conclusão: escutar o corpo com os ouvidos da alma

Na escuta psicanalítica, compreendemos que o corpo todo fala o que a boca silenciou. Ele lembra o que a mente tentou esquecer. Escutar o corpo com empatia, sem julgamentos, é um caminho para a cura.

Roxane Gay nos ensina que é possível nomear a dor, mesmo que aos pedaços. E que há coragem em se mostrar vulnerável, em compartilhar a história do corpo que se tornou autobiografia. Que cada pessoa possa ser acolhida no tempo de sua dor, no ritmo de sua reconstrução, e no respeito à sua própria história.

Fontes e leituras recomendadas

Portal Raízes: porque a saúde psicoemocional começa nas raízes da infância.

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

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