Chamar um homem de “afeminado” nunca foi apenas um rótulo comportamental. É um mecanismo histórico de controle. A socióloga Raewyn Connell, referência mundial nos estudos de gênero, chama isso de masculinidade hegemônica, um modelo dominante que define o que é ser homem de verdade e rebaixa todas as outras formas possíveis de masculinidade.
Nesse modelo, a emoção é sentida como fraqueza, o cuidado é compreendido como feminilidade e qualquer nível de sensibilidade pode se tornar uma ameaça.
Não por acaso, gestos simples como cruzar as pernas, chorar, falar com as mãos ou demonstrar afeto são tratados como inadequados. A sensação é que o corpo masculino é policiado o tempo todo — na forma de andar, falar, sentir e se relacionar. A questão é que esse modelo está em crise. E os dados mostram isso. A crise da masculinidade hegemônica e o analfabetismo emocional
Estudos da Organização Mundial da Saúde e de institutos de saúde pública apontam que homens morrem mais cedo, buscam menos ajuda psicológica e apresentam maiores índices de comportamento de risco. No Brasil, os homens são maioria esmagadora nas estatísticas de suicídio e violência letal. Não por natureza, mas por falta de socialização emocional.
O psicólogo Daniel Goleman, ao tratar de inteligência emocional, nos alerta que meninos são educados para esconder as emoções desde cedo, enquanto meninas são estimuladas a nomeá-las. O resultado é uma geração de homens adultos funcionalmente competentes (em regra), mas emocionalmente analfabetos, incapazes de sustentar vínculos profundos sem recorrer ao controle, ao afastamento ou à agressividade.
É nesse cenário que o chamado “hétero top” surge como personagem cultural. Não é um insulto individual, mas uma crítica estrutural. Trata-se de um homem treinado para performar virilidade, autonomia e dureza, mas despreparado para o cuidado do dia a dia, para uma escuta verdadeira e para a corresponsabilidade emocional nas relações. No cotidiano, isso se manifesta, por exemplo, na dificuldade de lidar com frustrações afetivas, na delegação quase automática do cuidado emocional às mulheres ou na incapacidade de reconhecer vulnerabilidades sem vivê-las como ameaça à própria identidade.
A filósofa e pensadora feminista bell hooks é direta quando afirma: “O patriarcado não ensina os homens a amar, ensina a dominar.” E relações baseadas em domínio não sustentam intimidade, apenas poder temporário.
Quando muitas mulheres dizem estar cansadas desse padrão, não estão rejeitando a masculinidade. Estão rejeitando um modelo que falhou em estar presente. Pesquisas em sociologia da família e psicologia relacional mostram que os principais fatores de divórcio hoje não são a falta de provisão material, mas a ausência emocional, a dificuldade de comunicação e a desigualdade na divisão das tarefas e do cuidado.
E o que passa a ser chamado de afeminação é, muitas vezes, apenas a recusa de seguir um roteiro que exige um rompimento emocional. Isso não faz o homem perder virilidade. Faz com que ele ganhe humanidade. Trata-se da construção de masculinidades mais plurais, conceito amplamente discutido por autores como Michael Kimmel, que aponta como a rigidez do ideal masculino produz sofrimento tanto para homens quanto para mulheres. O incômodo, portanto, não é estético. É político e cultural.
Um homem que chora desmonta o mito da dureza natural. Um homem que cuida desafia a divisão sexual do trabalho afetivo. Um homem que se permite sensível ameaça uma estrutura inteira que sempre terceirizou o cuidado, a escuta e a manutenção emocional das relações.
Talvez o termo “afeminado” esteja sendo ressignificado não por preferência individual, mas por um cansaço coletivo. O modelo anterior não deu conta de amar, de permanecer, de dividir responsabilidades e de sustentar vínculos saudáveis. Isso não significa que o homem sensível esteja “na moda”, mas que o homem emocionalmente indisponível está se tornando obsoleto.
E será que existe espaço para novas masculinidades? Os dados mostram que sim — e esse espaço é urgente. Mas quanto sofrimento ainda será necessário até que a gente compreenda que sentir não diminui o homem? O que o diminui é a incapacidade de se relacionar.
REFERÊNCIAS:
- CONNELL, Raewyn. Masculinidades. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2016.
- GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.
- HOOKS, bell. O desejo de mudar: homens, masculinidade e amor. Tradução de Rogério Bettoni. São Paulo: Elefante, 2020.
- KIMMEL, Michael. A construção da masculinidade. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1998.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório mundial da saúde 2018: saúde mental — fortalecendo nossa resposta. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2018.

