o lugar do pai segundo freud

Não basta tentar esquecer o pai ausente, é preciso ocupar o vazio deixado por ele

Clara Dawn

O pai ausente não é só o vazio físico de uma figura que não tivemos; às vezes, é também alguém que “mesmo estando” não soube ou não quis exercer o seu papel. É uma ausência psicológica capaz de criar feridas emocionais que levaremos uma vida inteira para sanar.

Todos têm um pai, um progenitor, é claro. No saber empírico de uma sociedade, o pai é a representação do protetor, do provedor, do que dá exemplo de como viver a vida moralmente correto e que impõe limites e estabelece as regras. Então o pai detém o poder, a ordem e progresso.  

Mesmo quem jamais conviveu com um pai, é esta a imaginação que ele tem de um pai, porque é isso a história lhe revela, repito, empiricamente. Então, essa pessoa sempre esperará um dia ser esse pai para alguém, ou escolher esse pai para seus filhos.

Entretanto aqueles que experienciaram a vivência com um tipo o pai opressor, o pai abusivo, o pai que espanca a mãe, o pai alcoolista, o pai que abandona, o pai que despreza… com certeza terá sérios problemas de ordem psicoemocionais em sua vida adulta.

Há uma explicação bastante complexa na psicanálise para o preenchimento do Lugar do Pai em nossas vidas. Lugar esse – vazio – em nosso cérebro desde a nossa concepção e por isso as nossas dores psíquicas nascem conosco e é tão somente com a ajuda de profissionais que se dedicam ao conhecimento da mente humana, é que conseguimos encontrar em nós esse Lugar do Pai a fim de fazermos o tão necessário processo de “castração” que deveria ter ocorrido na infância e na maioria das vezes não acontece, porque o “Pai Empírico Social” não reconhece que é ele quem precisa romper esse laço tornando-se desnecessário aos filhos, ensinando-os, de modo amoroso e firme, a serem pessoas livres, detentoras de suas próprias vontades e consequências, pessoas independentes mental, emocional e financeiramente.

Este é o lugar do pai: tornar-se desnecessário. Bem como, este também é o lugar da mãe: torna-se desnecessária a cada dia. Por isso que a palavra Pai – tanto para as boas lembranças como para as más – nos faz chorar. Quem teve o privilégio de ter um pai que foi se fazendo desnecessário, chorará certamente de orgulho. Quem teve a infelicidade de ter e conviver com um pai déspota, chorará certamente de dor psíquica por toda a sua vida. Quem nunca conviveu com nenhum desses dois tipos de pais, chorará certamente, pela imaginação do que ter um pai.

Como ocupar o lugar do pai?

Você cresceu, paga suas contas, leva com orgulho a sua armadura inquebrável e sabe muito bem o que deve fazer atualmente para não cometer os mesmos erros que os seus pais cometeram com você. Contudo, o vazio do pai ausente continua ali, e não importa se no presente você continua se relacionando com ele, ou se ele já se foi, ou se você se cala nas reuniões familiares e age como se o passado nunca tivesse existido.

  • A primeira coisa que deveríamos fazer é “entender”. Compreenda que o pai ausente é um homem que não soube exercer o seu papel de pai, porque nunca entendeu muito bem o seu papel como pessoa.
  • É muito provável que não tivesse as habilidades pessoais adequadas, uma boa autoestima, equilíbrio interior que lhe permitisse ver seus erros, seus medos e suas próprias carências.

Agora, isto justifica o que ele lhe causou? O vazio emocional que lhe deixou? Claro que não, mas a compreensão nos ajuda a nos adequar à realidade, a evitar armazenar mais emoções negativas. Contudo, sempre chega o momento em que deveríamos cortar o vínculo com o sofrimento de ontem, curar as feridas do pai ausente e ocupar o seu lugar. Para ocupar o lugar do pai, você precisará perdoar o seu passado, verbalizando em tom suficiente de voz que você está disposto a perdoar o seu passado, perdoar a sua infância ou adolescência sem a presença do pai. Perdoa. Depois verbalize que o lugar do pai ausente está preenchido de toda a benevolência que você puder oferecer aos outros; que o lugar do pai ausente estará preenchido por seu amor próprio e o cuidado consigo mesmo, com seus sonhos e as coisas que lhe dá alegria de viver. Verbalize. Jogue suas palavras ao universo e esqueça. Aos poucos se sentirá livre do desconforto causado pelo lugar do pai ausente.

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicoterapeuta; palestrante com o tema: "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É editora chefe no Portal Raízes (portalraizes.com), colunista aos sábados no Jornal Diário da Manhã em Goiânia, Goiás, desde 2009. É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com, jornal Diário da Manhã/Goiânia ou pesquisando no Google. Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com